{"id":9208,"date":"2024-07-07T17:08:50","date_gmt":"2024-07-07T20:08:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9208"},"modified":"2024-07-07T17:28:31","modified_gmt":"2024-07-07T20:28:31","slug":"nas-entrelinhas-progressistas-liberais-conservadores-e-as-mentes-naufragadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-progressistas-liberais-conservadores-e-as-mentes-naufragadas\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Progressistas, liberais, conservadores e as &#8220;mentes naufragadas&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A nostalgia do passado \u00e9 um fen\u00f4meno muito amplo, que afeta a extrema-direita e a extrema-esquerda, os fundamentalistas crist\u00e3os e os marxistas ortodoxos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O professor Mark Lilla \u00e9 especialista em hist\u00f3ria intelectual, principalmente do pensamento pol\u00edtico e religioso do Ocidente. Desde 2007, leciona Humanidades na Universidade de Columbia e colabora, regularmente, para o \u201cNew York Review of Books\u201d e o \u201cNew York Times\u201d. \u00c9 autor, entre outros livros, de \u201cA mente imprudente \u2013 Os intelectuais na atividade pol\u00edtica\u201d, que traz um perfil de pensadores que fecharam os olhos ao autoritarismo, \u00e0 brutalidade e ao terrorismo de Estado; e \u201cA mente naufragada \u2013 Sobre o esp\u00edrito reacion\u00e1rio\u201d, que apresenta o reacion\u00e1rio n\u00e3o como um conservador, mas como uma figura t\u00e3o radical e moderna quanto o revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p>Em 2016, Lilla criticou duramente o Partido Democrata ao analisar a vit\u00f3ria de Donald Trump, na qual questionou a fixa\u00e7\u00e3o democrata pela quest\u00e3o da diversidade, pois o partido tornara-se um mero porta-voz dos grupos minorit\u00e1rios que n\u00e3o conversavam entre si. Na \u00e9poca, destacou que Bill Clinton e Barack Obama fizeram bons governos, mas isso n\u00e3o bastou para responder aos anseios e inquieta\u00e7\u00f5es da maioria dos eleitores norte-americanos, diante de um processo inexor\u00e1vel de mudan\u00e7as que gera muitas incertezas sobre o futuro individual.<\/p>\n<p>\u00c9 a\u00ed que os progressistas, focados nos direitos das minorias, e os liberais, cujas bandeiras j\u00e1 n\u00e3o d\u00e3o respostas aos novos problemas, cederam espa\u00e7o para o saudosismo de um passado imagin\u00e1rio. \u00c9 um fen\u00f4meno que aparece com muita for\u00e7a na Europa e na Am\u00e9rica Latina. Aqui no Brasil, tamb\u00e9m. Hoje, por exemplo, teremos um grande encontro da extrema-direita em Balne\u00e1rio Cambori\u00fa (SC), com a presen\u00e7a do presidente da Argentina, Javier Milei, e do ex-presidente Jair Bolsonaro. Lilla examina esse fen\u00f4meno desde a elei\u00e7\u00e3o de Trump.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois tipos de pol\u00edtica identit\u00e1ria: a defesa de direitos de afrodescendentes, mulheres e gays, que lutam por igualdade, cidadania, solidariedade e repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica; e, desde os anos de 1980, a pol\u00edtica obcecada pela identidade pessoal e o sucesso individual, na qual cada um se diferencia dos outros. A primeira dizia \u201csomos todos iguais e queremos ser tratados com igualdade\u201d, ressalta Lilla. \u201cJ\u00e1 essa segunda pol\u00edtica identit\u00e1ria se baseia na afirma\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a e na exig\u00eancia de respeito \u00e0 singularidade. Ningu\u00e9m pode falar em nome de ningu\u00e9m. Isso jogou as pessoas umas contra as outras\u201d, destaca. Foi a\u00ed que a extrema-direita apostou suas fichas.<\/p>\n<p>Na cr\u00edtica aos democratas, Lilla sugeriu que a esquerda deixasse de lado o liberalismo identit\u00e1rio e buscasse a unidade na especificidade das minorias. Foi mais ou menos o que levou o atual presidente norte-americano Joe Biden \u00e0 apertada vit\u00f3ria contra Trump, anos atr\u00e1s. Sua reelei\u00e7\u00e3o, por\u00e9m, agora est\u00e1 amea\u00e7ada pelo pr\u00f3prio derrotado. A pol\u00edtica norte-americana trafega numa montanha russa. A economia vai bem, mas sua narrativa e desempenho pessoal ainda n\u00e3o convenceram a maioria. Hoje, a maioria s\u00f3 se interessa pelo que a afeta pessoalmente e n\u00e3o v\u00ea a necessidade de se engajar numa luta comum com outras pessoas, para melhorar de vida. A maioria dos jovens, por exemplo, j\u00e1 n\u00e3o se interessa por quase tudo \u2013 pol\u00edtica, economia, ra\u00e7a, classes sociais \u2013 como antes acontecia.<\/p>\n<p><strong>Nostalgias pol\u00edticas<\/strong><\/p>\n<p>A nostalgia do passado \u00e9 um fen\u00f4meno muito amplo, que afeta a extrema-direita e a extrema-esquerda, os fundamentalistas crist\u00e3os e os marxistas ortodoxos. Lilla chama esse tipo de vis\u00e3o de \u201cmente naufragada\u201d porque subverte a ideia de que o tempo \u00e9 como um rio cujas \u00e1guas n\u00e3o voltam atr\u00e1s. Segundo Lilla, houve um desastre no tempo, uma ruptura na hist\u00f3ria, que deixou as pessoas \u00e0 margem, enquanto o tempo continuou passando. \u201cEles acham que n\u00e3o fazem mais parte do que acontece. E essa mentalidade est\u00e1 moldando grande parte de nossa pol\u00edtica: uma sensa\u00e7\u00e3o de deslocamento, de deslocamento hist\u00f3rico acrescentando a outros tipos de deslocamento: econ\u00f4mico, pol\u00edtico e cultural\u201d. A pol\u00edtica passa a sensa\u00e7\u00e3o de que algo deu muito errado no tempo.<\/p>\n<p>Vem desse naufr\u00e1gio o pensamento reacion\u00e1rio. Estudou-se muito as revolu\u00e7\u00f5es, mas pouco a Rea\u00e7\u00e3o, cuja origem como conceito pol\u00edtico tamb\u00e9m \u00e9 a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa. Karl Marx, por exemplo, em sua vasta obra, somente dedicou uma delas ao fen\u00f4meno: O 18 Brum\u00e1rio de Lu\u00eds Bonaparte. Isso explica um pouco a dificuldade que a esquerda tem de compreender o que est\u00e1 acontecendo. N\u00e3o consegue distinguir o pensamento conservador do reacion\u00e1rio, o que ajuda a extrema direita a capturar o centro. S\u00e3o maneiras diferentes de encarar a hist\u00f3ria. O conservador cl\u00e1ssico acha que a hist\u00f3ria e a sociedade t\u00eam prioridade sobre o indiv\u00edduo.<\/p>\n<p>Para um liberal, indiv\u00edduos t\u00eam direitos que prevalecem sobre a tradi\u00e7\u00e3o ou as reivindica\u00e7\u00f5es da sociedade, e essas reivindica\u00e7\u00f5es s\u00e3o limitadas por nossos direitos. Os conservadores acreditam no oposto. Entretanto, para eles \u00e9 importante manter uma continuidade hist\u00f3rica, o que significa n\u00e3o haver uma ruptura radical, mas tamb\u00e9m reconhecer que as coisas sempre mudam e devem mudar. Ent\u00e3o um conservador \u00e9 mais flex\u00edvel do que um reacion\u00e1rio e \u00e0s vezes at\u00e9 mais flex\u00edvel do que um liberal. Jog\u00e1-los nos bra\u00e7os do reacionarismo talvez seja hoje o maior erro da esquerda, n\u00e3o s\u00f3 a brasileira.<\/p>\n<p>Inclusive os reacion\u00e1rios modernos podem ser \u201crevolucion\u00e1rios\u201d no sentido de que querem voltar a um passado idealizado, no nosso caso, o regime militar, ou criar um futuro igual ao passado, a ordem \u201ciliberal\u201d da ditadura da maioria. Desde a Revolu\u00e7\u00e3o Francesa, o revolucion\u00e1rio \u00e9 movido pela esperan\u00e7a. Segundo Lilla, acredita que o futuro vai ser melhor do que o presente e que ainda n\u00e3o nos tornamos o que devemos ser. J\u00e1 o reacion\u00e1rio acredita que n\u00e3o somos mais o que somos, nossa verdadeira natureza ficou no passado idealizado.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo:<\/em>\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A nostalgia do passado \u00e9 um fen\u00f4meno muito amplo, que afeta a extrema-direita e a extrema-esquerda, os fundamentalistas crist\u00e3os e os marxistas ortodoxos O professor Mark Lilla \u00e9 especialista em hist\u00f3ria intelectual, principalmente do pensamento pol\u00edtico e religioso do Ocidente. 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