{"id":924,"date":"2016-10-16T09:50:24","date_gmt":"2016-10-16T11:50:24","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=924"},"modified":"2016-10-16T09:50:25","modified_gmt":"2016-10-16T11:50:25","slug":"nas-entrelinhas-o-bom-ladrao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-o-bom-ladrao\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: O bom ladr\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p><em>A pol\u00edtica se tornou um empreendimento pessoal, familiar e corporativo. A riqueza privada e a vida p\u00fablica se cruzam e se refor\u00e7am reciprocamente<\/em><\/p>\n<p>Uma pr\u00e1tica comum dos colonizadores ib\u00e9ricos \u00e9 que \u201cchegavam pobres \u00e0s \u00cdndias ricas e retornavam ricos das \u00cdndias pobres\u201d, nas palavras do Padre Ant\u00f4nio Vieira (1608-1697), o Paia\u00e7u, na l\u00edngua tupi. Lusitano, passou a vida entre o Brasil (Salvador, Olinda e S\u00e3o Lu\u00eds) e a Europa (Lisboa e Roma). Ao morrer na Bahia, deixou uma obra que soma 30 volumes. Um de seus serm\u00f5es mais famosos \u00e9 o do Bom ladr\u00e3o, de 1655, proferido na Igreja da Miseric\u00f3rdia de Lisboa (Concei\u00e7\u00e3o Velha), perante D. Jo\u00e3o IV e sua corte, al\u00e9m dos dignit\u00e1rios do reino, ju\u00edzes, ministros e conselheiros. Vieira atacou os que se valiam da m\u00e1quina p\u00fablica para enriquecer ilicitamente, denunciou esc\u00e2ndalos no governo, as gest\u00f5es fraudulentas e, indignado, criticou a desproporcionalidade das puni\u00e7\u00f5es nas masmorras do s\u00e9culo 17: \u201cBasta, senhor, que eu, porque roubo em uma viatura, sou ladr\u00e3o, e v\u00f3s, porque roubais em uma for\u00e7a p\u00fablica, sois governador?\u201d<\/p>\n<p>Depois de conjugar o verbo furtar de v\u00e1rias maneiras durante o serm\u00e3o \u2014 \u201cfurtam, furtavam, furtaram, furtariam e haveriam de furtar mais, se mais houvesse\u201d \u2014, disparou contra a corte: \u201cS\u00e3o companheiros dos ladr\u00f5es, porque os dissimulam; s\u00e3o companheiros dos ladr\u00f5es, porque os consentem; s\u00e3o companheiros dos ladr\u00f5es, porque lhes d\u00e3o os postos e poderes; s\u00e3o companheiros dos ladr\u00f5es, porque talvez os defendem; e s\u00e3o finalmente seus companheiros, porque os acompanham e h\u00e3o de acompanhar ao inferno, onde os mesmos ladr\u00f5es os levam consigo\u201d. \u00c0 \u00e9poca de Vieira, a pol\u00edtica era uma via de enriquecimento patrimonial, que, por sua vez, permitia o acesso continuado aos cargos p\u00fablicos.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o, no Brasil, a pol\u00edtica se tornou um empreendimento pessoal, familiar e corporativo. A riqueza privada e a vida p\u00fablica, dialeticamente, se cruzam e se refor\u00e7am reciprocamente.<\/p>\n<p>A fus\u00e3o entre os neg\u00f3cios privados e a gest\u00e3o p\u00fablica \u00e9 um instrumento de perpetua\u00e7\u00e3o no poder. Mas esse mecanismo est\u00e1 em xeque devido \u00e0 Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato, cuja escala de combate ao chamado \u201ccrime de colarinho branco\u201d n\u00e3o tem precedentes. Gra\u00e7as \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o de 1988, que conferiu autonomia ao Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e fortaleceu os \u00f3rg\u00e3os de controle e coer\u00e7\u00e3o do Estado, principalmente \u00e0 Receita Federal e \u00e0 Pol\u00edcia Federal.<\/p>\n<p>H\u00e1 dois tipos de pol\u00edticos profissionais: os que vivem para a pol\u00edtica como bem comum e os que vivem da pol\u00edtica como neg\u00f3cio. Ambos t\u00eam a pol\u00edtica como profiss\u00e3o principal, o que torna essa separa\u00e7\u00e3o uma fronteira sinuosa. S\u00e3o consequ\u00eancias desse fen\u00f4meno os crit\u00e9rios plutocr\u00e1ticos para constitui\u00e7\u00e3o da camada dirigente dos partidos.<\/p>\n<p><strong>Operadores<\/strong><\/p>\n<p>Os partidos que t\u00eam mais recursos econ\u00f4micos elegem mais e t\u00eam mais poder. Segundo Max Weber, isso facilita a cria\u00e7\u00e3o de \u201cuma casta de filisteus corruptos\u201d. A capta\u00e7\u00e3o de votos e recursos valoriza os \u201coperadores\u201d capazes de montar \u201cestruturas\u201d eleitorais com empregos, dinheiro e poder. Promove as carreiras mete\u00f3ricas, o troca-troca partid\u00e1rio e os esc\u00e2ndalos, muitos esc\u00e2ndalos. No lugar dos projetos de na\u00e7\u00e3o, que deveriam definir os partidos e seus programas, surgem poderosos projetos pessoais de poder e forma\u00e7ao de fortuna.<\/p>\n<p>Na sexta-feira, a Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo aceitou a den\u00fancia apresentada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Estadual contra o empreiteiro L\u00e9o Pinheiro, da OAS, e o ex-tesoureiro do PT e ex-presidente da Cooperativa Habitacional dos Banc\u00e1rios (Bancoop) Jo\u00e3o Vaccari Neto, al\u00e9m de outras 10 pessoas por irregularidades relacionadas a oito empreendimentos imobili\u00e1rios.<\/p>\n<p>Vaccari est\u00e1 preso desde o come\u00e7o da Opera\u00e7\u00e3o Lava-Jato. Era o t\u00edpico \u201coperador\u201d do PT. \u00c9 acusado de associa\u00e7\u00e3o criminosa, falsidade ideol\u00f3gica e viola\u00e7\u00e3o \u00e0 lei do condom\u00ednio, que diz que \u00e9 crime contra a economia popular promover incorpora\u00e7\u00e3o fazendo afirma\u00e7\u00e3o falsa sobre a constru\u00e7\u00e3o do condom\u00ednio, aliena\u00e7\u00e3o das fra\u00e7\u00f5es ideais do terreno ou sobre a constru\u00e7\u00e3o das edifica\u00e7\u00f5es. L\u00e9o Pinheiro \u00e9 acusado de associa\u00e7\u00e3o criminosa e estelionato.<\/p>\n<p>A ju\u00edza excluiu da a\u00e7\u00e3o o ex-presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, a ex-primeira-dama Marisa Let\u00edcia, F\u00e1bio Lula da Silva e Igor Ramos Pontes, por entender que a den\u00fancia contra eles, relacionada ao im\u00f3vel 164-A do edif\u00edcio Solaris, foi apresentada pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal e recebida pela 13\u00aa Vara Federal de Curitiba.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A pol\u00edtica se tornou um empreendimento pessoal, familiar e corporativo. A riqueza privada e a vida p\u00fablica se cruzam e se refor\u00e7am reciprocamente Uma pr\u00e1tica comum dos colonizadores ib\u00e9ricos \u00e9 que \u201cchegavam pobres \u00e0s \u00cdndias ricas e retornavam ricos das \u00cdndias pobres\u201d, nas palavras do Padre Ant\u00f4nio Vieira (1608-1697), o Paia\u00e7u, na l\u00edngua tupi. 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