{"id":9251,"date":"2024-07-19T08:16:39","date_gmt":"2024-07-19T11:16:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9251"},"modified":"2024-07-19T08:23:34","modified_gmt":"2024-07-19T11:23:34","slug":"nas-entrelinhas-estupros-a-cultura-que-nasce-dentro-de-casa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-estupros-a-cultura-que-nasce-dentro-de-casa\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Estupros, a cultura que nasce dentro de casa"},"content":{"rendered":"<p><strong>A ideia de que mulher que se d\u00e1 ao respeito n\u00e3o \u00e9 estuprada \u00e9 falsa, machista e mis\u00f3gina, por\u00e9m, sedimentada<\/strong><\/p>\n<p>Um dos aspectos mais perversos e desumanos da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica que desagrega o tecido social brasileiro \u00e9 a cultura da viol\u00eancia, que est\u00e1 se tornando hegem\u00f4nica na sociedade, a partir de alguns conceitos que se apropriam do senso comum, por\u00e9m, fogem completamente ao bom senso. Nunca houve tanta gente armada no Brasil nem um sentimento t\u00e3o amplo a favor de que isso ocorra, mas os indicadores de viol\u00eancia mostram que a outra face da justi\u00e7a pelas pr\u00f3prias m\u00e3os, da suposta autodefesa e do prendo e arrebento \u00e9 o aumento da viol\u00eancia dom\u00e9stica, principalmente contra crian\u00e7as, que \u00e9 fruto de uma situa\u00e7\u00e3o de opress\u00e3o no \u00e2mbito familiar.<\/p>\n<p>Nesta quinta-feira, o pa\u00eds ficou chocado com a not\u00edcia de que a cada 6 minutos ocorre um estupro no Brasil. As meninas (88%), principalmente negras (52%), com menos de 13 anos (62%), s\u00e3o a maioria das v\u00edtimas. Somente em 2023, foram 83,9 mil casos registrados, um aumento de 6,5% em rela\u00e7\u00e3o a 2022. O 18\u00ba Anu\u00e1rio Brasileiro de Seguran\u00e7a P\u00fablica divulgado ontem tamb\u00e9m mostra que 76% das v\u00edtimas s\u00e3o vulner\u00e1veis (menores de 14 anos) e que, nesses casos, 64% dos agressores s\u00e3o familiares e 22%, conhecidos da fam\u00edlia. Ou seja, o local mais perigoso para essas crian\u00e7as n\u00e3o era a escola nem mesmo a rua, mas a pr\u00f3pria casa (65%).<\/p>\n<p>Existe uma \u201ccultura do estupro\u201d, uma mentalidade e um contexto social que retroalimentam essas estat\u00edsticas. Ao lado de rica cultura popular, que passa pela m\u00fasica, o grafite, a paix\u00e3o pelo futebol, tamb\u00e9m vicejam comportamentos sociais e culturais negativos. Por serem seculares, o machismo e a misoginia, por exemplo, s\u00e3o tolerados e at\u00e9 estimulados, de forma direta ou indireta, de uma gera\u00e7\u00e3o para a outra, ou seja, est\u00e3o \u201cnaturalizados\u201d. O termo \u201ccultura do estupro\u201d foi cunhado pelo movimento feminista da d\u00e9cada de 1970 exatamente para apontar comportamentos que relativizam ou silenciam sobre a viol\u00eancia sexual.<\/p>\n<p>O conceito permanece atual, haja vista a frequ\u00eancia com que as den\u00fancias de abusos sexuais surgem na m\u00eddia, muitas vezes feitas por mulheres famosas, que levaram at\u00e9 d\u00e9cadas para tomar coragem e denunciar os agressores poderosos. N\u00e3o \u00e0 toa as crian\u00e7as s\u00e3o as mais vulner\u00e1veis: a \u201ccultura do estupro\u201d nasce dentro de casa, a partir de uma barreira de intimida\u00e7\u00e3o, sil\u00eancio e medo, na qual mulheres e crian\u00e7as foram aprisionadas.<\/p>\n<p>No Brasil, a faixa mais vulner\u00e1vel \u00e9 de 10 a 13 anos (32%), seguido de 5 a 9 anos (18%) e de 0 a 4 anos (11%). \u00c9 chocante saber que a faixa dos beb\u00eas registre de 68,7 casos por 100 mil habitantes, o dobro da m\u00e9dia nacional de estupros, de 41,4 casos\/100 mil habitantes. Em casos de estupros de maiores de 14 anos, a tend\u00eancia do local das agress\u00f5es \u00e9 a mesma: 52% ocorrem em resid\u00eancias. Os agressores tamb\u00e9m s\u00e3o pr\u00f3ximos \u00e0s v\u00edtimas: em 31% dos casos s\u00e3o familiares e em 28%, parceiros \u00edntimos. Entre 2011 e 2023, o n\u00famero de estupros cresceu 91,5% \u2014 eram 43,4 mil casos e, agora, o valor \u00e9 quase o dobro, 83,4 mil. Desde 2021, o n\u00famero apresenta tend\u00eancia constante de crescimento, ap\u00f3s ter queda durante a pandemia da covid-19.<\/p>\n<p><strong>Culpa da v\u00edtima<\/strong><\/p>\n<p>A notifica\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia dom\u00e9stica tamb\u00e9m aumentou: foram 258.941 v\u00edtimas, crescimento de 9,8% em rela\u00e7\u00e3o ao ano anterior. O n\u00famero de mulheres amea\u00e7adas subiu 16,5%: foram 778.921 que denunciaram essa situa\u00e7\u00e3o \u00e0 pol\u00edcia. Al\u00e9m disso, o aumento dos registros de viol\u00eancia psicol\u00f3gica cresceu para 33,8%, totalizando 38.507 mulheres. J\u00e1 o crime de stalking (persegui\u00e7\u00e3o) tamb\u00e9m subiu, com 77.083 mulheres alvos, um aumento de 34,5%.<\/p>\n<p>O caldo de cultura \u00e9 a tend\u00eancia a culpar as v\u00edtimas de estupro, que se fundamenta em princ\u00edpios de moral e bons costumes. Desse modo, os que culpam a mulher por ser vitimada, alegam que o estupro n\u00e3o ocorreria caso ela tivesse comportamento diferente, usasse outras roupas, s\u00f3 frequentasse ambientes familiares, entre outras coisas. A ideia de que mulher que se d\u00e1 ao respeito n\u00e3o \u00e9 estuprada \u00e9 falsa, machista e mis\u00f3gina, por\u00e9m, est\u00e1 muito sedimentada. A tese da criminaliza\u00e7\u00e3o do aborto em caso de estupro trafega por a\u00ed; a puni\u00e7\u00e3o proposta seria prender a v\u00edtima e obrig\u00e1-la ter o estuprador como pai de seu filho.<\/p>\n<p>Quando nasce, um beb\u00ea j\u00e1 \u00e9 cercado de expectativas: espera-se de um menino que seja agressivo; se for menina, que seja delicada. Cada g\u00eanero tem um roteiro j\u00e1 preconcebido. N\u00e3o apenas no seu \u00e2mbito familiar, mas tamb\u00e9m no entorno: os parentes e os amigos, a vizinhan\u00e7a, a sociedade. Desde cedo, est\u00e1 definido o que eles deveriam ser, antes mesmo que possam descobrir o que querem, o que lhes afeta e como lidam com suas pr\u00f3prias emo\u00e7\u00f5es. Meninos s\u00e3o criados para serem corajosos e se arriscarem, enquanto as meninas buscam a beleza e a perfei\u00e7\u00e3o. Precisam provar a for\u00e7a da sua pr\u00f3pria sexualidade, mesmo que isso venha fazer deles um estuprador.<\/p>\n<p>O estupro \u00e9 o \u00fanico crime em que se presume que a v\u00edtima esteja mentindo. Se uma pessoa assaltada na rua pode registrar a ocorr\u00eancia sem dificuldade, quando a mulher registra uma den\u00fancia de estupro, ela \u00e9 a suspeita. \u00c9 que silenciar e\/ou responsabilizar a v\u00edtima s\u00e3o caracter\u00edsticas da cultura do estupro. Quando o sigilo se perde, a credibilidade da v\u00edtima \u00e9 posta em xeque, por policiais, advogados, m\u00e9dicos e at\u00e9 ju\u00edzes.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ideia de que mulher que se d\u00e1 ao respeito n\u00e3o \u00e9 estuprada \u00e9 falsa, machista e mis\u00f3gina, por\u00e9m, sedimentada Um dos aspectos mais perversos e desumanos da polariza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e ideol\u00f3gica que desagrega o tecido social brasileiro \u00e9 a cultura da viol\u00eancia, que est\u00e1 se tornando hegem\u00f4nica na sociedade, a partir de alguns conceitos que se apropriam do senso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":9257,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,677,28,7,32,3,71,68],"tags":[679,825,1454,808,150,69],"class_list":["post-9251","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-brasilia","category-comunicacao","category-cultura","category-justica","category-juventude","category-politica","category-saude","category-violencia","tag-comportamento","tag-criancas","tag-estupros","tag-mulheres","tag-seguranca","tag-violencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9251","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9251"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9251\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9258,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9251\/revisions\/9258"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9257"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9251"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9251"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9251"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}