{"id":9284,"date":"2024-07-28T06:45:36","date_gmt":"2024-07-28T09:45:36","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9284"},"modified":"2024-07-28T06:54:32","modified_gmt":"2024-07-28T09:54:32","slug":"nas-entrelinhas-antiamericanismo-pro-maduro-e-um-erro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-antiamericanismo-pro-maduro-e-um-erro\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Antiamericanismo pr\u00f3-Maduro \u00e9 um erro"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A diplomacia precisa de um consenso nacional, para que o seu eixo n\u00e3o deixe de ser a pol\u00edtica externa e passe a ser a interna, o que dividiria ainda mais o pa\u00eds<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Certa vez, o falecido historiador Tony Judt (Quando os fatos mudam, Objetiva) comparou os Estados Unidos a um ve\u00edculo utilit\u00e1rio tipo SUV, t\u00e3o ao gosto dos americanos e de brasileiros. &#8220;Com tamanho e peso subdimensionados, o SUV zomba de qualquer acordo negociado para limitar a polui\u00e7\u00e3o atmosf\u00e9rica. Consome quantidades extraordin\u00e1rias de recursos escassos para abastecer habitantes privilegiados, com servi\u00e7os que v\u00e3o muito al\u00e9m do necess\u00e1rio. Exp\u00f5e os que est\u00e3o fora dele a risco mortal apenas para proporcionar uma seguran\u00e7a ilus\u00f3ria aos seus ocupantes. Num mundo superpovoado, o SUV aparece como um perigoso anacronismo&#8221;.<\/p>\n<p>Judt comparava o SUV \u00e0 pol\u00edtica externa norte-americana, &#8220;embrulhada em altissonantes informa\u00e7\u00f5es sobre sua miss\u00e3o, mas, debaixo disso tudo, n\u00e3o passava de uma picape de tamanho exagerado com o motor potente demais. O ve\u00edculo pode ser moderno, mas a ideia por tr\u00e1s dele, n\u00e3o&#8221;. No contexto da guerra do Iraque, que foi um desastre para o Oriente M\u00e9dio e para a pol\u00edtica internacional, o historiador aproveitou a analogia para listar argumentos utilizados por intelectuais europeus contra os Estados Unidos, por sua v\u00e3 pretens\u00e3o de ser o xerife de um imagin\u00e1rio mundo unipolar.<\/p>\n<p>Os produtos norte-americanos, manufaturados e embalados em outros pa\u00edses n\u00e3o exercem o mesmo fasc\u00ednio. O Am\u00e9rica way of life j\u00e1 n\u00e3o provoca tanta inveja. Entretanto, n\u00e3o existe um sentimento raivoso contra o povo norte-americano, muito pelo contr\u00e1rio. Sua nova realidade multi\u00e9tnica tem enorme poder de atra\u00e7\u00e3o, ainda que o supremacismo branco ainda ronde a Casa Branca. O que realmente semeia o antiamericanismo \u00e9 a pol\u00edtica externa intervencionista norte-americana, cuja sutileza \u00e9 a de um HMMWV (Ve\u00edculo Autom\u00f3vel Multifun\u00e7\u00e3o de Alta Mobilidade em portugu\u00eas), que inspirou o Hummer, o utilit\u00e1rio civil).<\/p>\n<p>Desde a guerra do Iraque, quando pareciam exibir sua melhor forma, essa pol\u00edtica revela tr\u00eas contradi\u00e7\u00f5es: primeira, sistematicamente atropela a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), cujo papel na pol\u00edtica internacional continua sendo muito relevante, o que gera muita antipatia; segunda, a instrumentaliza\u00e7\u00e3o do Tratado do Atl\u00e2ntico Norte (Otan) para compensar a decad\u00eancia de sua hegemonia na Europa, ao lado da Inglaterra, gera muitos descontentamentos, principalmente na Alemanha e na Fran\u00e7a; terceira, esse intervencionismo permanente neutraliza a pr\u00f3pria capacidade de resolu\u00e7\u00e3o dos conflitos, como acontece, por exemplo, no Oriente M\u00e9dio.<\/p>\n<p>Entretanto, a for\u00e7a do &#8220;americanismo&#8221; no cotidiano das pessoas ainda \u00e9 muito maior do que esse sentimento antiamericano. Inclusive aqui no Brasil, onde a esquerda tem motivos de sobra para se queixar da interfer\u00eancia dos EUA na vida nacional, particularmente durante o governo Dutra (1956-1941), na crise que levou Get\u00falio Vargas ao suic\u00eddio (1954) e no golpe militar de 1964. Mas o que \u00e9 o americanismo? Grosso modo, admira\u00e7\u00e3o e imita\u00e7\u00e3o do que \u00e9 americano, seja no modo de vida, na cultura ou na pol\u00edtica.<\/p>\n<p><strong>Venezuela<\/strong><\/p>\n<p>Trata-se de um fen\u00f4meno cultural, pol\u00edtico e econ\u00f4mico, um modo de vida que surgiu imbricado, historicamente, na esfera produtiva, com o taylorismo \u2014 como modelo de organiza\u00e7\u00e3o do trabalho \u2014 e com o fordismo \u2014 um mecanismo de acumula\u00e7\u00e3o de capital, hoje ultrapassado pela tecnologia digital e a acumula\u00e7\u00e3o de capital social. Quando surgiu, deslocou o centro da ind\u00fastria mundial da Europa para os EUA e forjou o modo de vida dos americanos, que passou a ser um padr\u00e3o imitado em todo o mundo. Essa vit\u00f3ria cultural e pol\u00edtica combinou for\u00e7a e persuas\u00e3o, com altos sal\u00e1rios, benef\u00edcios sociais, propaganda moral e instru\u00e7\u00e3o. O americanismo criou um modo de consumo intimamente associado \u00e0 ideologia do progresso individual, que agora est\u00e1 sendo posta em xeque pela sociedade p\u00f3s-industrial.<\/p>\n<p>Mesmo assim, a pol\u00edtica externa brasileira n\u00e3o tem nenhuma chance de dar certo se for pautada pelo antiamericanismo, ainda mais em quest\u00f5es como a da Venezuela. A diplomacia precisa de um consenso nacional, para que o seu eixo n\u00e3o deixe de ser a pol\u00edtica externa e passe a ser a interna, e aprofunde ainda mais a divis\u00e3o do pa\u00eds. Quando a esquerda brasileira aposta na perman\u00eancia de Nicol\u00e1s Maduro a qualquer pre\u00e7o, seja por meio de elei\u00e7\u00f5es fraudadas ou de um golpe de Estado, comete o equ\u00edvoco de confrontar os valores democr\u00e1ticos. E o americanismo disseminado na sociedade, muito mais do que a pol\u00edtica externa dos EUA, tem proje\u00e7\u00e3o de poder que nem se compara \u00e0 nossa. Ou seja, n\u00e3o somos a for\u00e7a decisiva nesse processo venezuelano, que op\u00f5e os EUA a R\u00fassia, China e Cuba. Ser\u00edamos o marisco entre o mar e o rochedo.<\/p>\n<p>Nos bastidores das rela\u00e7\u00f5es com a Venezuela, os EUA s\u00e3o mais pragm\u00e1ticos do que se imagina. A pedido da Casa Branca, o Brasil teve um papel importante na negocia\u00e7\u00e3o do acordo que sustou as san\u00e7\u00f5es norte-americanas ao governo de Maduro em outubro de 2023. Havia interesse rec\u00edproco na normaliza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es, por causa do petr\u00f3leo \u2014 sempre ele \u2014, sobretudo depois da guerra da Ucr\u00e2nia. A condi\u00e7\u00e3o do acordo era a realiza\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es livres, em que houvesse direito ao dissenso e possibilidade de altern\u00e2ncia de poder.<\/p>\n<p>As medidas tomadas por Maduro para conter a oposi\u00e7\u00e3o e manipular as elei\u00e7\u00f5es romperam o acordo, cujo fiador era o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva. Provocaram novas san\u00e7\u00f5es e o impasse pol\u00edtico atual. Teremos dias de grandes emo\u00e7\u00f5es. Os EUA t\u00eam interesse no petr\u00f3leo venezuelano, sim, mas est\u00e3o mais preocupados com a sua alian\u00e7a militar com a R\u00fassia, a influ\u00eancia pol\u00edtica de Cuba e a crescente presen\u00e7a econ\u00f4mica da China na Am\u00e9rica do Sul. Com um olho na Venezuela e outro nos EUA, principal destino das exporta\u00e7\u00f5es de nossa ind\u00fastria, o Brasil n\u00e3o pode se pautar pelo antiamericanismo nesta crise da Venezuela, como deseja a nossa velha esquerda. Seria um grave erro.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n<div class=\"sharedaddy sd-sharing-enabled\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A diplomacia precisa de um consenso nacional, para que o seu eixo n\u00e3o deixe de ser a pol\u00edtica externa e passe a ser a interna, o que dividiria ainda mais o pa\u00eds Certa vez, o falecido historiador Tony Judt (Quando os fatos mudam, Objetiva) comparou os Estados Unidos a um ve\u00edculo utilit\u00e1rio tipo SUV, t\u00e3o ao gosto dos americanos e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1134,1223,481,978,980,589,1617,370,1018,4,369,92,972,8,9,3,1103,80,187],"tags":[792,213,189,190,10],"class_list":["post-9284","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-alemanha","category-brasilia","category-china","category-cuba","category-eleicoes-2","category-eua","category-europa","category-exportacoes","category-franca","category-governo","category-itamaraty","category-literatura","category-memoria","category-partidos","category-politica-2","category-politica","category-russia","category-seguranca","category-venezuela","tag-americanismo","tag-eleicoes","tag-maduro","tag-venezuela","tag-lula"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9284","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9284"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9284\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9291,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9284\/revisions\/9291"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9284"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9284"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9284"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}