{"id":9310,"date":"2024-08-04T09:17:48","date_gmt":"2024-08-04T12:17:48","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9310"},"modified":"2024-08-04T09:23:55","modified_gmt":"2024-08-04T12:23:55","slug":"nas-entrelinhas-venezuela-e-um-caso-perdido-para-lula","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-venezuela-e-um-caso-perdido-para-lula\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Venezuela \u00e9 um caso perdido para Lula"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>\u00c9 uma esp\u00e9cie de feiti\u00e7o contra o feiticeiro. O ativismo diplom\u00e1tico de natureza ideol\u00f3gica de Lula, na Am\u00e9rica Latina, desde a posse, coleciona fracassos<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Quem quiser que se iluda: a n\u00e3o ser que haja uma grande rebeli\u00e3o popular, N\u00edcol\u00e1s Maduro se consolidar\u00e1 como ditador da Venezuela. Usar\u00e1 de todos os recursos institucionais de que disp\u00f5e para sua perman\u00eancia no poder por mais seis anos, reprimir\u00e1 duramente a oposi\u00e7\u00e3o e contar\u00e1 com apoio internacional suficiente para sustentar essa posi\u00e7\u00e3o. Ainda que enfrente grande rea\u00e7\u00e3o no Ocidente democr\u00e1tico, liderada pelos Estados Unidos. Os esfor\u00e7os do Brasil, do M\u00e9xico e da Col\u00f4mbia para que o resultado das urnas seja respeitado fracassaram.<\/p>\n<p>A Venezuela conta com forte apoio dos seus militares e do eixo euroasi\u00e1tico formado por R\u00fassia, China, Cor\u00e9ia do Norte e Ir\u00e3, al\u00e9m do apoio de Bol\u00edvia, Cuba, Honduras e Nicar\u00e1gua. Esse sistema de alian\u00e7as garantir\u00e1 a sobreviv\u00eancia do regime venezuelano, mesmo diante do bloqueio econ\u00f4mico que certamente sofrer\u00e1 dos Estados Unidos e da Uni\u00e3o Europeia, al\u00e9m de Argentina, Chile, Costa Rica, Panam\u00e1, Peru, Rep\u00fablica Dominicana e Uruguai, pa\u00edses com os quais rompeu rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas. Os esfor\u00e7os do Brasil e da Col\u00f4mbia, que ainda tentam uma sa\u00edda negociada para a crise venezuelana, est\u00e3o fracassando.<\/p>\n<p>\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o delicada para o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, que sofre grande desgaste interno em raz\u00e3o de suas rela\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas com o chavismo e uma posi\u00e7\u00e3o que muitos consideram d\u00fabia, por causa de declara\u00e7\u00f5es que contemporizam com Maduro e, de certa forma, teceram o roteiro que o venezuelano pretende seguir para se legitimar perante o Brasil. Lula havia dito que a oposi\u00e7\u00e3o deve contestar os resultados oficiais na Justi\u00e7a, como se houvesse independ\u00eancia do Legislativo e do Judici\u00e1rio na Venezuela. Maduro agarrou a proposta com as duas m\u00e3os.<\/p>\n<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de feiti\u00e7o contra o feiticeiro. O ativismo diplom\u00e1tico de natureza ideol\u00f3gica de Lula na Am\u00e9rica Latina, desde a posse, coleciona fracassos, porque n\u00e3o d\u00e1 conta das contradi\u00e7\u00f5es e diversidade pol\u00edtica da regi\u00e3o, ao contr\u00e1rio da nossa tradi\u00e7\u00e3o de pol\u00edtica externa pragm\u00e1tica e independente, que poderia ser mais bem sucedida sem esse vi\u00e9s esquerdista. Todos os setores democr\u00e1ticos que apoiaram Lula contra Jair Bolsonaro, em 2022, para interromper a deriva autorit\u00e1ria em que o pa\u00eds estava, agora cobram seu posicionamento contra a perman\u00eancia de Maduro no poder. N\u00e3o foi por falta de aviso.<\/p>\n<p>A possibilidade de o Brasil, a Col\u00f4mbia e o M\u00e9xico serem fiadores de uma solu\u00e7\u00e3o negociada do impasse subiu no telhado: Maduro precisaria reconhecer a derrota ou convocar novas elei\u00e7\u00f5es, sob supervis\u00e3o internacional. Isso dependeria de uma escalada de endurecimento da posi\u00e7\u00e3o dos Estados Unidos e de uma fissura interna nas For\u00e7as Armadas. N\u00e3o parece ser o que vai acontecer.<\/p>\n<p><strong>Militares<\/strong><\/p>\n<p>A Am\u00e9rica Latina passa por uma curva da hist\u00f3ria, moldada pela presen\u00e7a crescente da China, com investimentos em infraestrutura e recursos vitais, que desafiam a influ\u00eancia dos Estados Unidos na regi\u00e3o. A China \u00e9 um parceiro valioso, principalmente para o Brasil, apesar dos riscos de depend\u00eancia econ\u00f4mica.<\/p>\n<p>Essa disputa com os Estados Unidos, por\u00e9m, no caso da Venezuela, tem um ingrediente muito perigoso: o pacto militar com a R\u00fassia, que fornece equipamentos b\u00e9licos \u00e0s For\u00e7as Armadas venezuelanas. Os militares ganham mais for\u00e7a e poder durante o governo de Hugo Ch\u00e1vez, entre 1999 e 2013. Sua fidelidade ao governo sustenta-se no poder (ocupam cargos importantes), no dinheiro (controlam petr\u00f3leo e min\u00e9rios) e no medo (a dissid\u00eancia n\u00e3o \u00e9 tolerada).<\/p>\n<p>A tens\u00e3o entre Venezuela e Guiana sobre o territ\u00f3rio do Essequibo, por causa do petr\u00f3leo, exacerba essa influ\u00eancia militar. A presen\u00e7a dos Estados Unidos na Am\u00e9rica Latina continua hegem\u00f4nica, mas precisa oferecer alternativas aos investimentos chineses, manter o equil\u00edbrio geopol\u00edtico e respeitar a soberania dos pa\u00edses da regi\u00e3o. Diplomacia e coopera\u00e7\u00e3o precisam caminhar de m\u00e3os dadas com a democracia, os direitos humanos e o desenvolvimento sustent\u00e1vel.<\/p>\n<p>Um ambiente de paz e equil\u00edbrio na regi\u00e3o depende muito do posicionamento do Brasil, que tem 1.987.000 militares na ativa, al\u00e9m de 84 milh\u00f5es de reservistas. O Brasil possui 723 avi\u00f5es, 255 helic\u00f3pteros, 1.707 ve\u00edculos terrestres, 180 lan\u00e7adores de foguetes, 110 embarca\u00e7\u00f5es e cinco submarinos de combate. Em contraste, a Venezuela conta com 280 avi\u00f5es, 104 helic\u00f3pteros, 700 ve\u00edculos terrestres, 52 lan\u00e7adores de foguetes, 50 embarca\u00e7\u00f5es e dois submarinos.<\/p>\n<p>Entretanto, por causa da Venezuela, crescem a instabilidade e o risco de confrontos na regi\u00e3o. No caso da Guiana, a presen\u00e7a de ExxonMobil e as amea\u00e7as de anexa\u00e7\u00e3o de Essequibo pela Venezuela far\u00e3o com que os americanos queiram implantar uma base militar no pa\u00eds vizinho, uma ex-col\u00f4nia brit\u00e2nica. O foco dos Estados Unidos na Am\u00e9rica Latina \u00e9 a garantia dos seus interesses comerciais, pol\u00edticos e geoestrat\u00e9gicos, e a consolida\u00e7\u00e3o de sua posi\u00e7\u00e3o como lideran\u00e7a em todo o continente americano.<\/p>\n<p>O Brasil precisa ser claro em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua parceria com os Estados Unidos, um aliado estrat\u00e9gico regional para quest\u00f5es de seguran\u00e7a, como na Segunda Guerra Mundial, quando o pa\u00eds se juntou aos aliados no combate ao nazifascismo na Europa. Mas tamb\u00e9m como um parceiro comercial, pois \u00e9 o principal destino de nossas exporta\u00e7\u00f5es industriais, afora o potencial de parcerias nos campos do pr\u00e9-sal.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 uma esp\u00e9cie de feiti\u00e7o contra o feiticeiro. 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