{"id":9418,"date":"2024-09-05T07:00:11","date_gmt":"2024-09-05T10:00:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9418"},"modified":"2024-09-05T07:00:11","modified_gmt":"2024-09-05T10:00:11","slug":"nas-entrelinhas-depois-das-chuvas-a-seca-assola-o-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-depois-das-chuvas-a-seca-assola-o-brasil\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Depois das chuvas, a seca assola o Brasil"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Muitas cidades registraram clima igual ao do Saara, que varia de 14% aos 20% de umidade. Como Bras\u00edlia, 10 chegaram a registrar apenas 7%<\/strong><\/em><\/p>\n<p>&#8220;Na plan\u00edcie avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. Ordinariamente andavam pouco, mas como haviam repousado bastante na areia do rio seco, a viagem progredira bem tr\u00eas l\u00e9guas. Fazia horas que procuravam uma sombra. A folhagem dos juazeiros apareceu longe, atrav\u00e9s dos galhos pelados da caatinga rala.<\/p>\n<p>Arrastaram-se para l\u00e1, devagar, Sinha Vit\u00f3ria com o filho mais novo escanchado no quarto e o ba\u00fa de folha na cabe\u00e7a, Fabiano sombrio, cambaio, o ai\u00f3 a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cintur\u00e3o, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atr\u00e1s.<\/p>\n<p>Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho p\u00f4s-se a chorar, sentou-se no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2014 Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai.&#8221;<\/p>\n<p>Vidas Secas (Editora Record), romance de Graciliano Ramos, publicado em 1938, de 176 p\u00e1ginas, \u00e9 uma obra-prima da literatura brasileira. Retrata a vida miser\u00e1vel de Fabiano e sua fam\u00edlia de retirantes sertanejos obrigada a se deslocar, de tempos em tempos, para \u00e1reas menos castigadas pela seca. S\u00e3o cenas que parecem distantes, principalmente depois de o canal do Rio S\u00e3o Francisco irrigar boa parte do semi\u00e1rido do Nordeste, mas que podem se repetir em regi\u00f5es inimagin\u00e1veis, como os igarap\u00e9s e v\u00e1rzeas da Amaz\u00f4nia, e \u00e1reas alagadas do Pantanal, castigadas pela seca e em risco de desertifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Segundo o Centro Nacional de Monitoramento de Desastres Naturais (Cemaden), o pa\u00eds enfrenta a maior seca desde 1950, com exce\u00e7\u00e3o do Rio Grande do Sul. Nas \u00faltimas semanas, muitas cidades ficaram encobertas pela fuma\u00e7a, entre as quais Bras\u00edlia e S\u00e3o Paulo, com origem em inc\u00eandios florestais na Amaz\u00f4nia, no Cerrado e no Pantanal.<\/p>\n<p>Nesta semana, cerca de 244 cidades brasileiras registraram clima igual ao do Saara, que varia de 14% aos 20% de umidade. Como Bras\u00edlia, cuja seca no inverno \u00e9 famosa, chegaram a registrar apenas 7% de umidade as cidades de Barretos, Mar\u00edlia e Tup\u00e3, em S\u00e3o Paulo; Goi\u00e2nia, Luzi\u00e2nia e Morrinhos, em Goi\u00e1s; Parna\u00edba e Tr\u00eas Lagoas, no Mato Grosso do Sul; e Itaituba, em Minas Gerais. As altas temperaturas e a fuma\u00e7a agravam as condi\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias. A previs\u00e3o \u00e9 de que a situa\u00e7\u00e3o ainda pode se agravar.<\/p>\n<p>Segundo o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), setembro, o \u00faltimo m\u00eas do inverno, come\u00e7ou com uma forte onda de calor. Em Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, as m\u00e1ximas chegaram aos 40\u00b0C; no interior de S\u00e3o Paulo e Minas Gerais, as cidades chegaram a 39\u00b0C. Talvez o Brasil, nesta semana, seja o pa\u00eds mais quente do mundo, o que est\u00e1 diretamente relacionado ao aquecimento global, provocado pelo &#8220;efeito estufa&#8221; \u2014 a emiss\u00e3o de gases que ret\u00eam o calor solar na atmosfera terrestre, principalmente di\u00f3xido de carbono e g\u00e1s metano. Zerar o desmatamento \u00e9 a forma mais barata, eficaz e r\u00e1pida de conter o aquecimento.<\/p>\n<p><strong>100 dias<\/strong><\/p>\n<p>Estamos na maior e mais extensa seca j\u00e1 registrada, com muitos lugares sem chuvas h\u00e1 mais de 100 dias, o que provoca a baixa umidade. Algumas cidades est\u00e3o pr\u00f3ximas de alcan\u00e7ar o n\u00edvel de umidade do deserto do Atacama, no Chile, que \u00e9 de 5%, o mais seco do mundo.<\/p>\n<p>Ontem, na Comiss\u00e3o de Meio Ambiente do Senado, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, advertiu que o Pantanal pode deixar de existir at\u00e9 o fim do s\u00e9culo. Na audi\u00eancia com senadores, disse que ser\u00e1 preciso ampliar os esfor\u00e7os e recursos de combate \u00e0s consequ\u00eancias das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. Prop\u00f4s ao Congresso que crie um marco regulat\u00f3rio de emerg\u00eancia clim\u00e1tica, que exclua da meta fiscal do governo federal os recursos gastos nessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>No Congresso, h\u00e1 um negacionismo dissimulado em rela\u00e7\u00e3o ao aquecimento global, para o qual a maioria dos pol\u00edticos n\u00e3o est\u00e1 nem a\u00ed, principalmente nas fronteiras agr\u00edcolas e de minera\u00e7\u00e3o. Neste ano, o Brasil registrou o maior n\u00famero de focos de queimadas desde 2010. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), foram 68.635 registros. De acordo com o Inpe, mais de 80% desses focos ocorreram na Amaz\u00f4nia e no Cerrado. Muitos s\u00e3o provocados pela seca, mas h\u00e1, tamb\u00e9m, atividades criminosas.<\/p>\n<p>Segundo o Operador Nacional do Sistema El\u00e9trico (ONS), ontem, a Hidrel\u00e9trica de Santo Ant\u00f4nio precisou paralisar parte das unidades geradoras em raz\u00e3o da seca extrema do Rio Madeira, em Rond\u00f4nia, e est\u00e1 funcionando com apenas 14% das turbinas. O rio chegou ao menor n\u00edvel j\u00e1 observado em quase 60 anos, atingindo 1,02m.<\/p>\n<p>A Regi\u00e3o Amaz\u00f4nica enfrenta um per\u00edodo de seca extrema. O Oceano Atl\u00e2ntico Norte mais aquecido que o normal e mais quente que o Atl\u00e2ntico Sul, e o fen\u00f4meno El Ni\u00f1o inibem a forma\u00e7\u00e3o de chuvas. Com 3 mil km\u00b2 de extens\u00e3o, o Rio Madeira abriga duas das maiores usinas hidrel\u00e9tricas do Brasil: Jirau e Santo Ant\u00f4nio, que geram energia para todo o pa\u00eds.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Muitas cidades registraram clima igual ao do Saara, que varia de 14% aos 20% de umidade. Como Bras\u00edlia, 10 chegaram a registrar apenas 7% &#8220;Na plan\u00edcie avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. 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