{"id":9453,"date":"2024-09-15T10:46:58","date_gmt":"2024-09-15T13:46:58","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9453"},"modified":"2024-09-15T11:54:23","modified_gmt":"2024-09-15T14:54:23","slug":"nas-entrelinhas-que-falta-nos-faz-um-consenso-nacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-que-falta-nos-faz-um-consenso-nacional\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Que falta nos faz um consenso nacional"},"content":{"rendered":"<p><strong>A &#8220;pol\u00edtica como neg\u00f3cio&#8221; faz parte da ordem democr\u00e1tica, mas, aqui, \u00e9 feita de forma escamoteada e sufoca a &#8220;pol\u00edtica do bem comum&#8221;, que deveria ser hegem\u00f4nica<\/strong><\/p>\n<p>Uma das quest\u00f5es mais angustiantes da pol\u00edtica brasileira \u00e9 a aus\u00eancia de um projeto de desenvolvimento sustent\u00e1vel, em bases democr\u00e1ticas, que conte com amplo apoio pol\u00edtico e respaldo social. Sem um consenso nacional, a agenda \u00e9 pautada pela &#8220;transa&#8221; entre seus protagonistas, movidos por interesses da pequena pol\u00edtica. Essa urg\u00eancia \u00e9 dada pela dist\u00e2ncia crescente entre nosso pa\u00eds e outras na\u00e7\u00f5es, n\u00e3o somente os Estados Unidos ou os pa\u00edses europeus, mas, tamb\u00e9m, os asi\u00e1ticos, como China e \u00cdndia, que, hoje, ocupam a posi\u00e7\u00e3o de segunda e quinta economias do mundo, enquanto ficamos para tr\u00e1s.<\/p>\n<p>Ontem, em um artigo publicado na Carta Capital, a ministra do Planejamento, Simone Tebet, exp\u00f4s de forma resumida uma agenda de integra\u00e7\u00e3o do Brasil com os demais pa\u00edses da Am\u00e9rica do Sul que contempla obras de infraestrutura, transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica, avan\u00e7os da ci\u00eancia e da tecnologia, al\u00e9m de medidas voltadas para as quest\u00f5es aduaneiras, policiais e o turismo. Hoje, lamentavelmente, o contrabando de mercadorias, o com\u00e9rcio ilegal de armas e o tr\u00e1fico de drogas, al\u00e9m da imigra\u00e7\u00e3o de refugiados \u2014 particularmente, de venezuelanos, que cresce \u2014, t\u00eam mais visibilidade do que a agenda positiva.<\/p>\n<p>Batizado de Consenso de Bras\u00edlia, os pa\u00edses da Am\u00e9rica Latina t\u00eam predisposi\u00e7\u00e3o de agir em conjunto, em que pese os problemas pol\u00edticos no continente. E as mudan\u00e7as geopol\u00edticas transformaram a China na maior interessada em que essa integra\u00e7\u00e3o ocorra. Por motivos \u00f3bvios: a Nova Rota da Seda \u00e9 como um rio que busca o leito mais favor\u00e1vel. Mais uma raz\u00e3o para o Brasil acelerar a implementa\u00e7\u00e3o das cinco rotas de integra\u00e7\u00e3o com os pa\u00edses vizinhos, que s\u00e3o multimodais. Envolvem hidrovias, rodovias, infovias (fibra \u00f3ptica), portos, linhas de transmiss\u00e3o el\u00e9trica, ferrovias e aeroportos.<\/p>\n<p>O deslocamento do eixo do com\u00e9rcio mundial do Atl\u00e2ntico para o Pac\u00edfico imp\u00f5e a moderniza\u00e7\u00e3o de nossa infraestrutura log\u00edstica em onze estados de fronteira: Acre, Amap\u00e1, Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Par\u00e1, Paran\u00e1, Rio Grande do Sul, Rond\u00f4nia, Roraima e Santa Catarina. Segundo a ministra Simone Tebet, tr\u00eas dessas rotas passam pelo Centro-Oeste e o Norte do pa\u00eds (Rota 1\/Ilha das Guianas; Rota 2\/Amaz\u00f4nica; Rota 3\/Quadrante Rondon); duas englobam a Regi\u00e3o Sul: (Rota 4\/Bioce\u00e2nica de Capric\u00f3rnio, que sai de S\u00e3o Paulo at\u00e9 Antofagasta, no Chile, passando pelo Paraguai) e a Rota 5\/Porto Alegre-Coquimbo, tamb\u00e9m no Chile, que cruza a Argentina).<\/p>\n<p>&#8220;Uma rota n\u00e3o briga com a outra. O sucesso da sa\u00edda mais ao leste, como a pavimenta\u00e7\u00e3o da BR-156, no Amap\u00e1, fronteira com a Guiana Francesa, n\u00e3o atrapalhar\u00e1, por exemplo, o escoamento de produtos na perna mais ao leste, como Tabatinga, no Amazonas&#8221;, explica Tebet. O governo Lula conta com uma carteira de US$ 10 bilh\u00f5es, contados os recursos do BID, CAF, Fonplata e BNDES, para investir no projeto. Os vizinhos somam 200 milh\u00f5es de habitantes, o equivalente a um Brasil inteiro, e s\u00e3o potenciais consumidores e produtores de bens e servi\u00e7os.<\/p>\n<p><strong>Pequena pol\u00edtica<\/strong><\/p>\n<p>Projetos dessa envergadura n\u00e3o acontecem apenas por vontade dos governos, h\u00e1 que se ter converg\u00eancia de for\u00e7as econ\u00f4micas, pol\u00edticas e sociais. Uma consci\u00eancia coletiva \u00e9 necess\u00e1ria para virar a chave e inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento. Foi assim como o Plano de Metas de Juscelino Kubitscheck, na d\u00e9cada de 1950, para um novo salto na industrializa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, e com o Plano Real, nos governos Itamar Franco e, principalmente, Fernando Henrique Cardoso, que enfrentou a hiperinfla\u00e7\u00e3o e estabilizou a moeda, rompendo a l\u00f3gica da &#8220;infla\u00e7\u00e3o inercial&#8221; como forma de financiamento dos investimentos p\u00fablicos. Em ambos os casos, havia os descrentes e quem fizesse oposi\u00e7\u00e3o frontal ao projeto, mas criou-se um amplo consenso de que o pa\u00eds deveria estar engajado. Esse consenso \u00e9 que evita, mitiga ou corrige os erros. \u00c9 assim que funciona na democracia. A via de moderniza\u00e7\u00e3o autorit\u00e1ria, como correu no Estado Novo e no regime militar, dispensa amplos consensos, mas n\u00e3o nos interessa.<\/p>\n<p>O que isso tem a ver com o momento pol\u00edtico que estamos vivendo? Muito pouco. N\u00e3o est\u00e1 nas prioridades do Congresso Nacional, haja vista o debate sobre as emendas parlamentares ao Or\u00e7amento da Uni\u00e3o, que abocanham R$ 44,67 bilh\u00f5es, sendo que R$ 25,07 bilh\u00f5es em emendas individuais, R$ 11,05 bilh\u00f5es em emendas de comiss\u00f5es, e R$ 8,56 bilh\u00f5es em emendas de bancadas estaduais. Esses recursos s\u00e3o pulverizados, voltados para interesses paroquiais e, alguns casos, desviados. Momentaneamente, foram suspensos, por falta de transpar\u00eancia, mas o que interessa aqui \u00e9 o esp\u00edrito da coisa.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 por tr\u00e1s de tudo isso n\u00e3o \u00e9 a grande pol\u00edtica, um projeto nacional. \u00c9 apenas a pequena &#8220;pol\u00edtica como neg\u00f3cio&#8221;, que faz parte da ordem capitalista democr\u00e1tica, mas, aqui, \u00e9 feita de forma escamoteada e sufoca a &#8220;pol\u00edtica do bem comum&#8221;, que deveria ser hegem\u00f4nica, para usar os conceitos do fil\u00f3sofo e soci\u00f3logo alem\u00e3o Max Weber, autor de A pol\u00edtica como voca\u00e7\u00e3o e A \u00e9tica protestante e o esp\u00edrito do capitalismo (Companhia das Letras).<\/p>\n<p>O que est\u00e1 <em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A &#8220;pol\u00edtica como neg\u00f3cio&#8221; faz parte da ordem democr\u00e1tica, mas, aqui, \u00e9 feita de forma escamoteada e sufoca a &#8220;pol\u00edtica do bem comum&#8221;, que deveria ser hegem\u00f4nica Uma das quest\u00f5es mais angustiantes da pol\u00edtica brasileira \u00e9 a aus\u00eancia de um projeto de desenvolvimento sustent\u00e1vel, em bases democr\u00e1ticas, que conte com amplo apoio pol\u00edtico e respaldo social. 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