{"id":9464,"date":"2024-09-18T09:29:21","date_gmt":"2024-09-18T12:29:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9464"},"modified":"2024-09-18T09:31:18","modified_gmt":"2024-09-18T12:31:18","slug":"nas-entrelinhas-pequeno-manual-de-combate-a-incendios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-pequeno-manual-de-combate-a-incendios\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Pequeno manual de combate a inc\u00eandios"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Temperatura acima de 30 graus, num momento em que a umidade seja menor do que 30% e vento acima de 30 km\/h, s\u00e3o o ambiente ideal para propaga\u00e7\u00e3o do fogo. Basta a igni\u00e7\u00e3o<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O fogo \u00e9 um tema recorrente na literatura universal. No Brasil, devorou O ateneu (1888), de Raul Pomp\u00e9ia, e p\u00f4s fim a&#8217;O Corti\u00e7o (1890), de Alu\u00edsio Azevedo, obras seminais da nossa literatura. Nos dois casos, representavam o fim de uma era, com apagamento do passado. Na vida real, foi o que aconteceu literalmente no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, em 2 de setembro de 2018, e na Cinemateca Nacional, em S\u00e3o Paulo, no dia 29 de julho de 2021. E pode estar acontecendo agora com nossos principais biomas.<\/p>\n<p>Fundado em 1818, por dom Jo\u00e3o VI, o Museu Nacional possu\u00eda o mais importante acervo de hist\u00f3ria natural da Am\u00e9rica Latina, com 20 milh\u00f5es de itens, entre os quais, cole\u00e7\u00f5es de f\u00f3sseis de dinossauros do mundo, m\u00famias andinas e eg\u00edpcias, e 537 mil livros da Cole\u00e7\u00e3o Francisco Keller. No galp\u00e3o da Cinemateca Nacional, arderam quatro toneladas de documentos sobre cinema no Brasil, al\u00e9m de pel\u00edculas e arquivos.<\/p>\n<p>Desde o Brasil Colonial, o fogo \u00e9 usado para expulsar ind\u00edgenas de suas terras e, agora, incendiar favelas, como se fazia com os antigos quilombos. Hist\u00f3ricos casar\u00f5es e sobrados, tombados, pegam fogo para possibilitar a constru\u00e7\u00e3o de pr\u00e9dios horrorosos. O fogo nas florestas, para eliminar flora e fauna e ampliar as fronteiras agr\u00edcolas, tamb\u00e9m \u00e9 coisa antiga. Entretanto, agora saiu completamente do controle.<\/p>\n<p>Inc\u00eandio n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de fogo, cujo dom\u00ednio foi fundamental no processo civilizat\u00f3rio. O que difere as chamas do fog\u00e3o ou da churrasqueira \u00e9 o controle sobre elas. Desde Arquimedes, o fogo \u00e9 objeto de estudos, por\u00e9m, foi o franc\u00eas Antoine Lawrence Lavoisier, aquele mesmo da Teoria dos Vasos Comunicantes, no s\u00e9culo XVIII, que descobriu as bases cient\u00edficas do fogo.<\/p>\n<p>A principal experi\u00eancia que lan\u00e7ou os fundamentos da ci\u00eancia do fogo consistiu em colocar uma certa quantidade de merc\u00fario (Hg \u2014 o \u00fanico metal que normalmente j\u00e1 \u00e9 l\u00edquido) dentro de um recipiente fechado, aquecendo-o. Quando a temperatura chegou a 300\u00b0C, ao observar o interior do frasco, Lavoisier encontrou um p\u00f3 vermelho que pesava mais do que o l\u00edquido original.<\/p>\n<p>O cientista notou, ainda, que a quantidade de ar no recipiente havia diminu\u00eddo em 20%, e que o ar restante possu\u00eda o poder de apagar qualquer chama e matar. Lavoisier concluiu que o merc\u00fario, ao se aquecer, &#8220;absorveu&#8221; a parte do ar que nos permite respirar (essa mesma parte que faz um combust\u00edvel queimar: o oxig\u00eanio). Os 80% restantes eram nitrog\u00eanio (g\u00e1s que n\u00e3o queima) e o p\u00f3 vermelho era o \u00f3xido de merc\u00fario.<\/p>\n<p>Da breve explica\u00e7\u00e3o, v\u00ea-se que para iniciar a combust\u00e3o, s\u00e3o necess\u00e1rios o combust\u00edvel, o oxig\u00eanio e a energia (a temperatura de igni\u00e7\u00e3o). Mas isso existe em toda parte. O que faz a diferen\u00e7a \u00e9 a propor\u00e7\u00e3o entre esses componentes do chamado &#8220;tri\u00e2ngulo do fogo&#8221;.<\/p>\n<p>Os inc\u00eandios que estamos acompanhando s\u00e3o eventos naturais e\/ou provocados por a\u00e7\u00e3o humana. No Cerrado brasileiro, a partir de an\u00e1lises do carv\u00e3o armazenado em solos profundos, h\u00e1 inc\u00eandios se repetindo h\u00e1 mais de 30 mil anos. Nas esta\u00e7\u00f5es secas, a igni\u00e7\u00e3o ocorre naturalmente por uma descarga el\u00e9trica. Mas n\u00e3o \u00e9 o caso nesta estiagem.<\/p>\n<p><strong>Atr\u00e1s do preju\u00edzo<\/strong><\/p>\n<p>Temperatura acima de 30 graus, num momento em que a umidade seja menor do que 30% e vento acima de 30 km\/h, s\u00e3o o ambiente ideal para um inc\u00eandio. Basta alcan\u00e7ar a igni\u00e7\u00e3o, por meio de uma bituca de cigarro jogada na estrada ou um criminoso palito de f\u00f3sforo aceso. H\u00e1 indiv\u00edduos incendi\u00e1rios, que tem atra\u00e7\u00e3o pelo fogo, os piroman\u00edacos; e o criminoso que ateia fogo por vingan\u00e7a ou algum interesse econ\u00f4mico, seja limpar o terreno para fazer um grande empreendimento imobili\u00e1rio ou formar uma pastagem.<\/p>\n<p>Uma vez iniciado, o fogo se espalha muito r\u00e1pido e \u00e9 extremamente dif\u00edcil de controlar, por causa do vento, do calor e da baixa umidade. Ocupantes do Cerrado desenvolveram t\u00e9cnicas de queima controlada, atuando para diminuir a biomassa e, com isso, evitar os grandes inc\u00eandios. Mesmo esses &#8220;aceiros&#8221;, quando saem do controle, podem provocar grandes inc\u00eandios, com perda de plantas, animais e danos at\u00e9 aos microrganismos do solo, sem contar na morte de pessoas, inclusive bombeiros.<\/p>\n<p>No Pantanal e na Amaz\u00f4nia, o problema se tornou mais grave, porque o desmatamento faz com que a prote\u00e7\u00e3o natural da pr\u00f3pria floresta, sua umidade, perca a capacidade de conter a propaga\u00e7\u00e3o das chamas, principalmente se a seca for muito forte, como agora. Se pegar fogo em \u00e1rvores que t\u00eam resinas, pode queimar por muito tempo e impedir a\u00e7\u00f5es efetivas para deter o inc\u00eandio.<\/p>\n<p>Conforme as plantas v\u00e3o queimando, primeiro saem os materiais vol\u00e1teis, com subst\u00e2ncias prejudiciais \u00e0 sa\u00fade, inclusive cancer\u00edgenas. Se n\u00e3o chover, todo esse material fica suspenso e forma &#8220;nuvens de fuma\u00e7a&#8221;, que estamos vendo em v\u00e1rios lugares do Brasil. Sofrem os nossos pulm\u00f5es, os animais e at\u00e9 as plantas. Se o desmatamento continuar, teremos uma situa\u00e7\u00e3o realmente ca\u00f3tica.<\/p>\n<p>Apesar dos frequentes alertas, as autoridades subestimaram os efeitos catastr\u00f3ficos do que temos presenciado. E, agora, correm atr\u00e1s do preju\u00edzo, inclusive o governo Lula, apesar das advert\u00eancias da ministra do meio Ambiente, Marina Silva.<\/p>\n<p>Como disse o poeta pernambucano Lu\u00eds Turiba, em 1989: &#8220;Ou a gente se Raoni, ou a gente se Sting&#8221;.<\/p>\n<p>O que est\u00e1 <em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Temperatura acima de 30 graus, num momento em que a umidade seja menor do que 30% e vento acima de 30 km\/h, s\u00e3o o ambiente ideal para propaga\u00e7\u00e3o do fogo. Basta a igni\u00e7\u00e3o O fogo \u00e9 um tema recorrente na literatura universal. No Brasil, devorou O ateneu (1888), de Raul Pomp\u00e9ia, e p\u00f4s fim a&#8217;O Corti\u00e7o (1890), de Alu\u00edsio Azevedo, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[111,1769,176,28,38,4,92,301,972,1770,3],"tags":[454,252,1720,10,19],"class_list":["post-9464","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-amazonia","category-cerrado","category-cidades","category-cultura","category-educacao","category-governo","category-literatura","category-meio-ambiente","category-memoria","category-pantanal","category-politica","tag-desmatamento","tag-governo","tag-incendios","tag-lula","tag-marina"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9464"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9464\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9473,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9464\/revisions\/9473"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}