{"id":9528,"date":"2024-10-06T09:20:41","date_gmt":"2024-10-06T12:20:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9528"},"modified":"2024-10-06T09:21:19","modified_gmt":"2024-10-06T12:21:19","slug":"nas-entrelinhas-as-eleicoes-municipais-e-a-disputa-da-presidencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-as-eleicoes-municipais-e-a-disputa-da-presidencia\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: As elei\u00e7\u00f5es municipais e a disputa da Presid\u00eancia"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A tese do poder local como forma de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as alimenta o hegemonismo e a partidariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas nos governos de esquerda<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Historicamente, o auge do poder local no Ocidente se deu durante o feudalismo, ap\u00f3s a desintegra\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano, quando era mantido de forma absoluta e implac\u00e1vel pelo senhor feudal, que possu\u00eda ex\u00e9rcito, cobrava impostos e exercia a justi\u00e7a. No Brasil, o que houve de mais semelhante foi a estrutura colonial escravocrata dos engenhos de a\u00e7\u00facar, em torno do qual se constituiu a elite brasileira mais abastada da \u00e9poca, com sua casa grande, onde vivia o senhor de engenho, toda a sua fam\u00edlia e eventuais agregados; e a senzala, o \u201cdep\u00f3sito\u201d de seus escravos.<\/p>\n<p>&#8220;Casa Grande &amp; Senzala&#8221; (Global Editora), do pernambucano Gilberto Freyre, lan\u00e7ado em 1933, descreve a forma\u00e7\u00e3o desse patriarcado brasileiro, com ra\u00edzes ainda hoje influentes. Na esquerda, criou-se o mito de que a conquista do \u201cpoder local\u201d seria a forma de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as para se chegar ao poder central. O apoio de prefeitos \u00e9 muito importante para a elei\u00e7\u00e3o de governadores e do presidente da Rep\u00fablica, mas n\u00e3o \u00e9 uma lei de gravidade. Fernando Henrique Cardoso, ironicamente, afirma que \u00e9 mais f\u00e1cil ser presidente da Rep\u00fablica do que prefeito de S\u00e3o Paulo. Refere-se \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o de ter perdido a elei\u00e7\u00e3o para J\u00e2nio Quadros.<\/p>\n<p>O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva nunca disputou uma prefeitura; depois de se candidatar ao governo de S\u00e3o Paulo, em 1982, e ficar em quarto lugar, com 10% dos votos, somente pleiteou a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica. Perdeu em 1989, 1994 e 1988. Chegou l\u00e1 em 2002 e, agora, est\u00e1 no terceiro mandato. Se dependesse do n\u00famero de prefeitos do PT, a maioria eleitos na aba do seu bon\u00e9, nunca chegaria ao Pal\u00e1cio do Planalto.<\/p>\n<p>O mito do \u201cpoder local\u201d como forma de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as por parte da esquerda \u00e9 uma deriva\u00e7\u00e3o da estrat\u00e9gia gramsciana de \u201cguerra de posi\u00e7\u00f5es\u201d, adotada pelo Partido Comunista Italiano ap\u00f3s a 2\u00aa Guerra Mundial. Regi\u00f5es que haviam sido libertadas do fascismo pelos \u201cpartigiani\u201d tornaram-se redutos comunistas, como a Em\u00edlia-Romanha, com destaque para a cidade de Bolonha, verdadeiro laborat\u00f3rio das pol\u00edticas p\u00fablicas dos comunistas.<\/p>\n<p>Em 1999, depois de ter sido governada pela esquerda durante 54 anos ininterruptos, Bolonha elegeu um prefeito de centro-direita, mas logo voltou ao controle da esquerda. Eleito em 2021, Mateu Lepore, jovem l\u00edder do Partido Democr\u00e1tico, de 44 anos, nem chegou a militar no antigo PCI.<\/p>\n<p><strong>Hegemonismo<\/strong><\/p>\n<p>No Brasil, a tese do poder local como forma de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as alimenta o hegemonismo e a partidariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas nos governos de esquerda, talvez a principal raz\u00e3o de desgaste do PT \u00e0 frente de cidades como Porto Alegre, S\u00e3o Paulo, Goi\u00e2nia, Vit\u00f3ria, Recife e Aracaju. H\u00e1 incompatibilidade entre o hegemonismo, a\u00a0 renova\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e a forma\u00e7\u00e3o de amplos governos de coaliz\u00e3o. De certa forma, o fato de o PT apoiar a reelei\u00e7\u00e3o de Eduardo Paes (PSD) \u00e0 Prefeitura no Rio de Janeiro representa outro paradigma: alian\u00e7as mais amplas e menos hegemonismo.<\/p>\n<p>O caso de Guilherme Boulos (PSOL), em S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m \u00e9 uma mudan\u00e7a no comportamento petista, imposta pelo presidente Lula, mas com sinal trocado. Boulos est\u00e1 \u00e0 esquerda de lideran\u00e7as como Marta Suplicy, sua vice, e o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, ambos ex-prefeitos petistas. Sua grande dificuldade no segundo turno, qualquer que seja o cen\u00e1rio, ser\u00e1 ampliar as alian\u00e7as. A frente que o apoia ter\u00e1 que renunciar ao hegemonismo e oferecer participa\u00e7\u00e3o aos novos aliados num governo de coaliz\u00e3o.<\/p>\n<p>Poder local pode ser de qualquer tend\u00eancia. O PSD do ex-prefeito Gilberto Kassab talvez eleja mil prefeitos e se equipare ao MDB, que ainda \u00e9 o partido mais influente nos munic\u00edpios brasileiros. No atacado, principalmente nas grades cidades, a elei\u00e7\u00e3o municipal indica uma tend\u00eancia do eleitorado, por sinal, mais conservadora do que progressista, mas seu resultado n\u00e3o sacramente a conquista do poder central dois anos depois. Fosse assim, Jair Bolsonaro (PL) n\u00e3o teria sido eleito presidente da Rep\u00fablica, em 2018, e Simone Tebet (MDB), hoje, estaria na Presid\u00eancia.<\/p>\n<p>Por ironia, quem entende mesmo de poder local s\u00e3o os pol\u00edticos do velho patriarcado brasileiro. \u00c9 o caso do deputado estadual Theodorico Ferra\u00e7o (PP), que disputa a prefeitura de Cachoeiro de Itapemirim (ES), a \u201ccapital secreta do mundo\u201d, aos 86 anos, com chances de voltar \u00e0 prefeitura pela quinta vez. O velho cacique pol\u00edtico capixaba destacou-se por apoiar a campanha pela elei\u00e7\u00e3o direta do presidente da Rep\u00fablica, em 1983, quando ainda era um deputado da antiga Arena.<\/p>\n<p>Pesquisa Ipec divulgada nessa sexta-feira (4) com as inten\u00e7\u00f5es de voto para a Prefeitura de Cachoeiro, mostra Ferra\u00e7o (PP) com 47% das inten\u00e7\u00f5es de votos, contra Diego Libardi (Republicanos), com 16%; L\u00e9o Camargo (PL), 16%; e Lorena Vasques (PSB), com 12%. Ferra\u00e7o foi uma das fontes de inspira\u00e7\u00e3o do personagem Odorico Paragua\u00e7u, de Dias Gomes, na novela O bem-amado. Ao se eleger pela primeira vez, 1970, prometeu construir um chafariz para fazer chover no Centro da sua calorenta cidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A tese do poder local como forma de acumula\u00e7\u00e3o de for\u00e7as alimenta o hegemonismo e a partidariza\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas p\u00fablicas nos governos de esquerda Historicamente, o auge do poder local no Ocidente se deu durante o feudalismo, ap\u00f3s a desintegra\u00e7\u00e3o do Imp\u00e9rio Romano, quando era mantido de forma absoluta e implac\u00e1vel pelo senhor feudal, que possu\u00eda ex\u00e9rcito, cobrava impostos e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[176,980,4,685,972,8,3,9],"tags":[136,406,213,140,803,1784,10,12],"class_list":["post-9528","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-cidades","category-eleicoes-2","category-governo","category-italia","category-memoria","category-partidos","category-politica","category-politica-2","tag-boulos","tag-cidades","tag-eleicoes","tag-partidos","tag-patriarcado","tag-poder-hegemonismo","tag-lula","tag-paes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9528","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9528"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9528\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9536,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9528\/revisions\/9536"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9528"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9528"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9528"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}