{"id":9559,"date":"2024-10-13T09:26:52","date_gmt":"2024-10-13T12:26:52","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9559"},"modified":"2024-10-13T10:06:03","modified_gmt":"2024-10-13T13:06:03","slug":"nas-entrelinhas-luzias-saquaremas-e-camaleoes-na-politica-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-luzias-saquaremas-e-camaleoes-na-politica-brasileira\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Luzias, saquaremas e camale\u00f5es na pol\u00edtica brasileira"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><em><strong>N\u00e3o existe um projeto de moderniza\u00e7\u00e3o capaz de forjar um consenso pol\u00edtico nacional e incorporar a grande massa da popula\u00e7\u00e3o. A massa cr\u00edtica intelectual e empresarial para formular essa alternativa foi alijada da pol\u00edtica<\/strong><\/em><\/p><\/blockquote>\n<p>Um bom programa para um fim de semana com cara de poucos amigos \u00e9 assistir ao cl\u00e1ssico do cinema italiano O Leopardo (Il Gattopardo, 1963), estrelado por Burt Lancaster, Claudia Cardinale e Alain Delon, do diretor italiano Luchino Visconti (1906-1976). Com base na obra do siciliano Giuseppe Tomasi di Lampedusa (1896-1957), o filme retrata a decad\u00eancia da aristocracia agr\u00e1ria da Sic\u00edlia, no contexto da Segunda Guerra da Independ\u00eancia e Unifica\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia (1859-1860), e est\u00e1 dispon\u00edvel na Netflix.<\/p>\n<p>Ao resgatar mem\u00f3rias pessoais e seu idealizado e nost\u00e1lgico passado aristocr\u00e1tico, Lampedusa expressa um ponto de vista conservador sobre o Risorgimento. Em 1860, Garibaldi luta no movimento de unifica\u00e7\u00e3o da It\u00e1lia. D. Fabrizio (Burt Lancaster) \u00e9 um aristocrata que tenta manter o antigo modo de vida, apesar dos tempos de mudan\u00e7a. Para ele, a ascens\u00e3o da burguesia \u00e9 uma amea\u00e7a. Contudo, numa manobra astuta, combina o casamento do seu sobrinho Tancredi (Alain Delon) com Ang\u00e9lica (Claudia Cardinale), filha de um rico e influente administrador de propriedades. Fiel a seus valores, D. Fabrizio afirma: &#8220;A n\u00e3o ser que nos salvemos, dando-nos as m\u00e3os agora, eles nos submeter\u00e3o \u00e0 Rep\u00fablica. Para que as coisas permane\u00e7am iguais, \u00e9 preciso que tudo mude&#8221;.<\/p>\n<p>Certas coisas no Brasil tamb\u00e9m mudam para continuar como est\u00e3o. &#8220;N\u00e3o h\u00e1 mais nada parecido com um saquarema do que um luzia no poder&#8221;, carimbou o pol\u00edtico pernambucano Ant\u00f4nio Francisco de Paula Holanda Cavalcanti de Albuquerque ao definir a pol\u00edtica partid\u00e1ria da elite brasileira no Segundo Reinado. Referia-se \u00e0 atua\u00e7\u00e3o dos partidos Liberal (luzias) e Conservador (saquaremas) durante o Segundo Reinado. Saquarema \u00e9 o nome do munic\u00edpio fluminense onde o Visconde de Itabora\u00ed tinha uma fazenda. Ali o grupo conservador se reunia com frequ\u00eancia. Luzia era uma refer\u00eancia \u00e0 pequena cidade mineira de Santa Luzia, onde ocorreu a maior derrota dos liberais nas revoltas de 1842.<\/p>\n<p>Saquaremas e luzias tinham a mesma origem social e muitos interesses comuns. Ap\u00f3s o Golpe da Maioridade (1840), Dom Pedro II resolveu mediar as disputas entre ambos e exercer seu poder moderador. Em 1853, essa pol\u00edtica atingiu seu auge, com a forma\u00e7\u00e3o do &#8220;Minist\u00e9rio da Concilia\u00e7\u00e3o&#8221;, liderado por Hon\u00f3rio Carneiro Le\u00e3o, o Marqu\u00eas de Paran\u00e1, que contou com a participa\u00e7\u00e3o de conservadores e liberais, ainda que se digladiassem nas prov\u00edncias. Esse minist\u00e9rio deu estabilidade pol\u00edtica ao pa\u00eds e possibilitou avan\u00e7os institucionais que seriam imposs\u00edveis num ambiente de ferrenha disputa pelo poder, mas tamb\u00e9m serviu para prolongar no tempo o regime de trabalho escravo.<\/p>\n<p>Os saquaremas defendiam a centraliza\u00e7\u00e3o do poder; os luzias pregavam a monarquia federativa, opondo-se ao Poder Moderador e ao Senado vital\u00edcio, dominado pelos conservadores. Saquaremas dominaram o Segundo Reinado; luzias, a Rep\u00fablica Velha. Seus l\u00edderes pensaram o Brasil, em debates parlamentares, artigos de jornal, livros, brochuras, panfletos: Joaquim Nabuco, Rui Barbosa, Campos Salles, Alberto Torres, para citar alguns. O centro do debate era o papel do Estado no desenvolvimento e sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade.<\/p>\n<p><strong>Metamorfose<\/strong><\/p>\n<p>Na hist\u00f3ria das nossas ideias pol\u00edticas, centraliza\u00e7\u00e3o do poder (autoritarismo) e descentraliza\u00e7\u00e3o (liberalismo) s\u00e3o um tema central: idealistas org\u00e2nicos e idealistas ut\u00f3picos; tradi\u00e7\u00e3o ib\u00e9rica\/estamento burocr\u00e1tico versus liberalismo irrealizado; autoritarismo instrumental ou liberalismo doutrin\u00e1rio; iberistas e americanistas; idealistas org\u00e2nicos e idealistas constitucionais. E os camale\u00f5es?<\/p>\n<p>S\u00e3o r\u00e9pteis da fam\u00edlia Chamaeleonidae e incluem cerca de 195 esp\u00e9cies. Algumas s\u00e3o t\u00e3o pequenas que medem apenas um cent\u00edmetro, enquanto outras podem medir at\u00e9 60cm. Cada esp\u00e9cie de camale\u00e3o tem suas cores e padr\u00f5es. A mudan\u00e7a de cor \u00e9 um meio de comunica\u00e7\u00e3o e n\u00e3o apenas de camuflagem. Gostam de viver em cima de \u00e1rvores e ficam parados esperando suas presas, com sua grande l\u00edngua protr\u00e1til e pegajosa, que pode atingir um metro de dist\u00e2ncia. Seus olhos movem-se de maneira independente, num \u00e2ngulo de at\u00e9 180 graus. Qualquer semelhan\u00e7a com os pol\u00edticos transformistas do nosso Congresso, de todos os matizes, \u00e9 mera coincid\u00eancia.<\/p>\n<p>No Brasil, hoje, n\u00e3o existe um projeto de moderniza\u00e7\u00e3o capaz de forjar um novo consenso pol\u00edtico nacional e incorporar a grande massa da popula\u00e7\u00e3o. Estamos entre os modelos ultrapassados do neoliberalismo e do nacional desenvolvimentismo, a dicotomia que dramatizou a hist\u00f3ria recente da Argentina. A massa cr\u00edtica intelectual e empresarial para formular essa alternativa foi alijada da pol\u00edtica. A maioria dos parlamentares dedica-se \u00e0 &#8220;transa&#8221; pol\u00edtica, j\u00e1 n\u00e3o se orienta pelo bem comum, mas pelos neg\u00f3cios. Tem narrativas voltadas para suas bolhas nas redes sociais.<\/p>\n<p>Mas, como sempre, nem tudo est\u00e1 perdido. As institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas s\u00e3o robustas. As elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o livres e respeitadas. Nas disputas municipais, a polariza\u00e7\u00e3o extremada foi derrotada. Os partidos de centro, pragm\u00e1ticos, sa\u00edram fortalecidos. E o presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva, supostamente enfraquecido, tamb\u00e9m j\u00e1 disse que \u00e9 uma &#8220;metamorfose ambulante&#8221;. O Centr\u00e3o tamb\u00e9m tem seu valor para a sociedade. A velha &#8220;pol\u00edtica de concilia\u00e7\u00e3o&#8221; manda um abra\u00e7o.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o existe um projeto de moderniza\u00e7\u00e3o capaz de forjar um consenso pol\u00edtico nacional e incorporar a grande massa da popula\u00e7\u00e3o. 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