{"id":9570,"date":"2024-10-16T09:32:13","date_gmt":"2024-10-16T12:32:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9570"},"modified":"2024-10-16T09:32:13","modified_gmt":"2024-10-16T12:32:13","slug":"nas-entrelinhas-apagao-desnuda-sao-paulo-como-uma-sociedade-de-risco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-apagao-desnuda-sao-paulo-como-uma-sociedade-de-risco\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Apag\u00e3o desnuda S\u00e3o Paulo como uma &#8220;sociedade de risco&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Com a ultrapassagem da sociedade industrial, na qual era administrado e prejudicava os mais pobres, o risco \u00e9 transversal a todas as classes sociais. O risco de uma ventania p\u00f4r em colapso a cidade era previs\u00edvel<br \/>\n<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Os sintomas j\u00e1 estavam em toda parte, os mais gritantes na Cracol\u00e2ndia, no centro de S\u00e3o Paulo, e na multid\u00e3o de moradores de rua, na viol\u00eancia cotidiana nas periferias e no tr\u00e2nsito cada vez mais ca\u00f3tico, mas foi o apag\u00e3o provocado pela tempestade deste fim de semana que tornou esse assunto um tema central no debate eleitoral de S\u00e3o Paulo: o risco de colapso urbano existe. Tanto que o prefeito Ricardo Nunes (MDB), candidato \u00e0 reelei\u00e7\u00e3o, e o candidato de oposi\u00e7\u00e3o, Guilherme Boulos (PSol), se digladiaram na tev\u00ea e trocaram acusa\u00e7\u00f5es m\u00fatuas sobre as responsabilidades pelo colapso do sistema de distribui\u00e7\u00e3o de energia, que veio abaixo com as \u00e1rvores derrubadas pelo vento.<\/p>\n<p>Foi uma tempestade perfeita. De acordo com a Defesa Civil, as rajadas de vento chegaram aos 87 quil\u00f4metros por hora na esta\u00e7\u00e3o meteorol\u00f3gica da Lapa e Vila Leopoldina, na zona oeste da cidade, na noite de s\u00e1bado. O aeroporto de Congonhas teve as opera\u00e7\u00f5es de pousos e decolagens suspensas das 19h53 \u00e0s 20h12. O &#8220;evento extremo&#8221; numa cidade como S\u00e3o Paulo mostrou uma nova realidade: bairros como Morumbi, Butant\u00e3, Vila Maria, Pinheiros, Perdizes, Barra Funda e Bela Vista ficaram sem energia, n\u00e3o foi apenas a periferia. A mesma coisa aconteceu nas cidades da Grande S\u00e3o Paulo. Milhares de resid\u00eancias continua sem energia, os preju\u00edzos econ\u00f4micos s\u00e3o imensos.<\/p>\n<p>S\u00e3o Paulo n\u00e3o est\u00e1 preparada para eventos extremos, tanto quando Porto Alegre durante as enchentes do Rio Grande Sul. A prefeitura n\u00e3o faz a poda de \u00e1rvores (deve existir um contrato para isso a ser fiscalizado); a Enel, a distribuidora de energia, n\u00e3o tinha um plano de conting\u00eancia e n\u00e3o fez os investimentos que deveria em infraestrutura (provavelmente seus transformadores, sobrecarregados, entraram em colapso); a Ag\u00eancia Nacional de Energia El\u00e9trica (Aneel) n\u00e3o cumpriu seu papel fiscalizador. O governo federal \u00e9 respons\u00e1vel pela concess\u00e3o. Trocando em mi\u00fados, todos t\u00eam alguma culpa no cart\u00f3rio e os cidad\u00e3os paulistas est\u00e3o se dando conta de que a vivem numa &#8220;sociedade de risco&#8221;.<\/p>\n<p>Esse conceito surgiu com a publica\u00e7\u00e3o do livro Risikogesellschaft, de Ulrich Beck, em 1986, alguns meses antes do acidente nuclear de Chernobyl, na Ucr\u00e2nia, que viria a dar dimens\u00e3o factual ao texto. Mesmo assim, no Brasil, somente foi publicado 20 anos depois, sob o t\u00edtulo Sociedade de risco: rumo a uma outra modernidade (Editora 34). A gravidade do que ocorreu \u00e0quela \u00e9poca na usina nuclear colocou em xeque a &#8220;guerra fria&#8221; entre os Estados Unidos e a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica e levou o l\u00edder comunista Mikhail Gorbatchov a p\u00f4r fim \u00e0 corrida nuclear. Ganhou o Nobel da Paz de 1990.<\/p>\n<p>O fen\u00f4meno se repetiu por ocasi\u00e3o do tsunami de 11 de mar\u00e7o de 2011, no Jap\u00e3o, que sofreu sua maior cat\u00e1strofe desde as bombas at\u00f4micas lan\u00e7adas sobre Hiroshima e Nagasaki, em 1945. Um terremoto fort\u00edssimo no Oceano Pac\u00edfico provocou um tsunami tamb\u00e9m devastador, contra o qual mesmo as s\u00f3lidas defesas japonesas n\u00e3o tiveram chance. A f\u00faria do mar, por sua vez, provocou um acidente nuclear na usina de Fukushima, 260 quil\u00f4metros ao norte de T\u00f3quio. Mais de 18 mil pessoas foram mortas pelo tsunami, e o acidente em Fukushima for\u00e7ou a retirada de 160 mil pessoas que moravam nas imedia\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p><strong>Perda de controle<\/strong><\/p>\n<p>Na concep\u00e7\u00e3o de Beck, perigos s\u00e3o fabricados de forma industrial, exteriorizados economicamente, individualizados no plano jur\u00eddico, legitimados no plano das ci\u00eancias exatas e minimizados no plano pol\u00edtico. Seu ponto de partida \u00e9 a moderniza\u00e7\u00e3o reflexiva: as consequ\u00eancias do desenvolvimento cient\u00edfico, industrial e tecnol\u00f3gico implicam riscos que n\u00e3o podem ser contidos espacial ou temporalmente. Mais ainda: como a riqueza, esses riscos s\u00e3o distribu\u00eddos socialmente. Na sociedade industrial, at\u00e9 poderiam ser administrados de acordo com as rela\u00e7\u00f5es de poder.<\/p>\n<p>Com a ultrapassagem da sociedade industrial, na qual os riscos eram administrados e, geralmente, prejudicavam os mais pobres, agora o risco \u00e9 transversal a todas as classes sociais. A pandemia de covid-19 \u00e9 um exemplo. Grosso modo, riscos s\u00e3o administrados de cima para baixo, de acordo com an\u00e1lises de cientistas e peritos, e administrados politicamente, de acordo com a posi\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social. N\u00e3o \u00e9 mais assim.<\/p>\n<p>O desenvolvimento cient\u00edfico e tecnol\u00f3gico perdeu o controle sobre os riscos ambientais, biol\u00f3gicos, qu\u00edmicos e nucleares. A percep\u00e7\u00e3o e a consci\u00eancia dos riscos pelos cidad\u00e3os comuns, por\u00e9m, n\u00e3o s\u00e3o irracionais ou desinformadas, mas produtos de processos complexos que definem o que \u00e9 aceit\u00e1vel, o que \u00e9 digno, o que est\u00e1 de acordo com as suas maneiras de ser, pensar e agir. Precisam ser levados em conta, da\u00ed a import\u00e2ncia do debate eleitoral que ocorre em S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>Ter uma cultura de risco implica possuir conhecimentos que permitem a preven\u00e7\u00e3o de situa\u00e7\u00f5es de risco e a autoprote\u00e7\u00e3o em caso de perigo. O risco est\u00e1 cada vez mais presente no nosso cotidiano. O que mais impressiona na crise atual de S\u00e3o Paulo \u00e9 que o risco de uma ventania p\u00f4r em colapso a cidade era previs\u00edvel desde o primeiro apag\u00e3o provocado pela queda de \u00e1rvores.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com a ultrapassagem da sociedade industrial, na qual era administrado e prejudicava os mais pobres, o risco \u00e9 transversal a todas as classes sociais. 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