{"id":9601,"date":"2024-10-26T09:38:27","date_gmt":"2024-10-26T12:38:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9601"},"modified":"2024-10-26T09:38:27","modified_gmt":"2024-10-26T12:38:27","slug":"nas-entrelinhas-a-luz-rascante-de-vladimir-nao-se-apagou","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-a-luz-rascante-de-vladimir-nao-se-apagou\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: A luz rascante de Vladimir n\u00e3o se apagou"},"content":{"rendered":"<p><strong>O cinema russo e o novo cinema alem\u00e3o influenciaram o cineasta, por\u00e9m o que marca seus document\u00e1rios \u00e9 a saga sertaneja do pau \u00e0 pique ao concreto armado<\/strong><\/p>\n<p>A morte de Vladimir de Carvalho, um dos mais aclamados documentaristas brasileiros, me surpreendeu, embora agora saiba que estava convalescendo de um infarto h\u00e1 tr\u00eas semanas, mas, nesta quinta-feira, n\u00e3o resistiu ao colapso renal. N\u00e3o passava pela minha cabe\u00e7a que esse paraibano cabra da peste, aos 89 anos, pudesse ter um infarto &#8220;passarinhando&#8221; pelas quadras do Plano Piloto. H\u00e1 pouco tempo, compartilhei uma de suas caminhadas, \u00e0 noite. &#8220;Deixe o Uber pra l\u00e1, vamos andando; a gente conversa mais um pouco&#8221;, me desafiou, l\u00e9pido e sorridente, como um garoto.<\/p>\n<p>Nesta sexta-feira, durante o vel\u00f3rio no Cine Bras\u00edlia, ex-alunos, a turma do cinema e seus velhos camaradas do antigo PCB compartilhavam a mesma surpresa. Era mais velho, mas parecia sempre o mais novo entre seus amigos e companheiros. Principalmente quanto \u00e0s ideias, n\u00e3o era um n\u00e1ufrago do passado. Apesar de fazer parte do grupo de comunistas que atenderam ao chamado de Juscelino e vieram para Bras\u00edlia, no rastro de Oscar Niemeyer e Darcy Ribeiro, alguns para implantar a Universidade de Bras\u00edlia (UnB), da qual Vladimir seria professor titular de Cinema.<\/p>\n<p>A milit\u00e2ncia pol\u00edtica de Vladimir ajuda a compreender sua obra cinematogr\u00e1fica. Foi amigo e parceiro dos tamb\u00e9m documentaristas Linduarte Noronha e Eduardo Coutinho, respectivamente, diretores dos aclamados Aruanda e Cabra Marcado para Morrer, o filme interrompido pelo golpe de 1964 e retomado apenas nos anos 1980.<\/p>\n<p>Remanescente do Cinema Novo, guarda em seu Centro de Mem\u00f3ria a moviola que pertenceu a Glauber Rocha, com quem tamb\u00e9m trabalhou. Vladimir fez parte do antigo CPC da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes, em Salvador, e de uma gera\u00e7\u00e3o de cineastas ligados ao comit\u00ea cultural do ent\u00e3o chamado Partid\u00e3o, entre os quais se destacavam Alex Viany (Cinco vezes favela), Nelson Pereira dos Santos (Vidas Secas), Leon Hirszman (Eles n\u00e3o usam black-tie) e Jo\u00e3o Batista de Andrade (O homem que virou suco).<\/p>\n<p>Ao saber da morte do amigo, Jo\u00e3o traduziu sua emo\u00e7\u00e3o nas redes sociais: &#8220;Chocado com essa not\u00edcia. Vladimir, maior das nossas refer\u00eancias como documentarista brasileiro. Um cineasta de ampla produ\u00e7\u00e3o, sempre voltado para as grandes quest\u00f5es da sociedade brasileira, as injusti\u00e7as sociais e as lutas de nosso tempo.&#8221;<\/p>\n<p>No vel\u00f3rio no Cine Bras\u00edlia, depois de o padre puxar a reza que encomendou o corpo de Vladimir, o cordelista Gustavo Dourado, pura emo\u00e7\u00e3o, declamou a plenos pulm\u00f5es, como faria Maiakovski: &#8220;Dito isto, minha gente:\/ Eu vou mudar de toada&#8230;\/Pra falar de um sertanejo:\/Luminoso camarada&#8230;\/O ABC de Vladimir:\/Segue em frente a jornada&#8230;\/ ABC de Vladimir Carvalho:\/ Reluz cinematografia&#8230;\/ Vou de Cam\u00f5es a Cascudo:\/ Augusto dos Anjos, guia&#8230;\/ Da Para\u00edba do Norte:\/O carbono da magia&#8230;&#8221;<\/p>\n<p>A luz rascante dos document\u00e1rios de Vladimir Carvalho era modernista, influenciada pelo cinema russo do come\u00e7o do s\u00e9culo, cujas obras colecionava clandestinamente, durante o regime militar, o que lhe valeu o apelido de Vorochenko, inspirado no cineasta ucraniano Oleksandr Dovjenko, autor do filme Terra, um cl\u00e1ssico do cinema universal.<\/p>\n<p>Ex-presidente do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes da UnB, Arlindo Fernandes, hoje consultor legislativo do Senado, conta que, no final dos anos 1970, foi atr\u00e1s de Vladimir para conseguir uma c\u00f3pia do ic\u00f4nico O Encoura\u00e7ado Potemkin, de Sergei Eisenstein, para exibir no cineclube da universidade, n\u00e3o por acaso chamado de Aruanda.<\/p>\n<p>Refer\u00eancia para os cineclubistas de Bras\u00edlia, Vladimir se recusou: &#8220;Se eu emprestar, voc\u00eas v\u00e3o presos, e perco o filme&#8221;. Depois, cedeu as c\u00f3pias de Outubro e Alexandre Nevski, tamb\u00e9m de Eisenstein: &#8220;Esses eles n\u00e3o sabem o que \u00e9!&#8221;, explicou. Entretanto, foi um grande difusor das obras de Volker Werner Herzog (<em>Fitzcarraldo) <\/em>e Rainer Werner Fassbinder (Berlin-Alexanderpratz), seus contempor\u00e2neos, \u00edcones do novo cinema alem\u00e3o que surgiu na d\u00e9cada de 1960.<\/p>\n<p><strong>Do agreste ao Cerrado<\/strong><\/p>\n<p>Os jovens cineastas alem\u00e3es trabalhavam com baixos or\u00e7amentos e misturavam o Neorrealismo italiano, a Nouvelle Vague francesa e a New Wave brit\u00e2nica. Herzog tinha um processo de produ\u00e7\u00e3o cinematogr\u00e1fico \u00fanico, como desconsiderar storyboards, enfatizar a improvisa\u00e7\u00e3o e colocar o elenco e a equipe em situa\u00e7\u00f5es semelhantes \u00e0s dos personagens de seus filmes, como se eles vivessem o pr\u00f3prio enredo. Essa tamb\u00e9m era a realidade do nosso cinema.<\/p>\n<p>A est\u00e9tica cl\u00e1ssica do cinema russo e o novo cinema alem\u00e3o podem ter influenciado Vladimir, por\u00e9m o que marcaria seus filmes \u00e9 a saga que trouxe o homem sertanejo, e as desigualdades do pau a pique do agreste nordestino, ao concreto armado de Bras\u00edlia, no Cerrado do Planalto Central. Romeiros da Guia e A Bolandeira retratam a realidade nua e crua do sert\u00e3o e das nossas desigualdades sociais. O Pa\u00eds de S\u00e3o Saru\u00ea, sua obra-prima, fala da seca e da pobreza na regi\u00e3o do Rio do Peixe, confrontadas com a utopia da terra da abund\u00e2ncia.<\/p>\n<p>Selecionado para o Festival de Bras\u00edlia, no in\u00edcio dos anos 1970, Saru\u00ea foi vetado pela censura; tamanha a confus\u00e3o e os protestos, o mais antigo festival de cinema do pa\u00eds foi proibido de ser realizado por tr\u00eas anos.\u00a0 Em Conterr\u00e2neos velhos de guerra, Vladimir retratou a constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia pela \u00f3tica dos candangos: vieram de longe para construir a Esplanada e foram expulsos para a periferia. A capital da arquitetura modernista n\u00e3o era deles.<\/p>\n<p>No filme, \u00e9 muito tensa a entrevista de Oscar Niemeyer sobre a morte de trabalhadores num dos canteiros de obra. O genial arquiteto se irrita e manda Vladimir, comunista como ele, \u00e0 merda. Bras\u00edlia tamb\u00e9m \u00e9 a loca\u00e7\u00e3o de Barra 68: Sem Perder a Ternura, sobre a invas\u00e3o da UnB pelos militares, e Rock Bras\u00edlia: Era de Ouro, que conta a hist\u00f3ria das bandas Legi\u00e3o Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude. Vladimir tamb\u00e9m era pop. Seu \u00faltimo document\u00e1rio foi Giocondo Dias, ilustre clandestino, que reconstitui a opera\u00e7\u00e3o realizada na d\u00e9cada de 1970 para retirar do pa\u00eds o dirigente do PCB, isolado e em risco de vida, no auge da repress\u00e3o ao partido.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas anteriores no Blog do Azedo<\/em>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O cinema russo e o novo cinema alem\u00e3o influenciaram o cineasta, por\u00e9m o que marca seus document\u00e1rios \u00e9 a saga sertaneja do pau \u00e0 pique ao concreto armado A morte de Vladimir de Carvalho, um dos mais aclamados documentaristas brasileiros, me surpreendeu, embora agora saiba que estava convalescendo de um infarto h\u00e1 tr\u00eas semanas, mas, nesta quinta-feira, n\u00e3o resistiu ao [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1223,176,169,677,972,113,8,3],"tags":[1178,101,1802,1801],"class_list":["post-9601","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-brasilia","category-cidades","category-cinema","category-comunicacao","category-memoria","category-militares","category-partidos","category-politica","tag-candangos","tag-cinema","tag-unb","tag-vladimir"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9601","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9601"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9601\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9608,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9601\/revisions\/9608"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9601"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9601"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9601"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}