{"id":9664,"date":"2024-11-10T09:03:19","date_gmt":"2024-11-10T12:03:19","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9664"},"modified":"2024-11-10T09:05:20","modified_gmt":"2024-11-10T12:05:20","slug":"doze-mil-vezes-favela-um-retrato-da-crise-urbana","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/doze-mil-vezes-favela-um-retrato-da-crise-urbana\/","title":{"rendered":"Doze mil vezes favela, um retrato da crise urbana"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>A vida banal nas favelas, como diria o mestre Milton Santos, foi relegada a segundo plano pelas pol\u00edticas p\u00fablicas e capturada por grupos criminosos: milicianos e traficantes<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Sessenta e dois anos depois, o filme \u201cCinco Vezes Favela\u201d hoje parece uma vis\u00e3o ing\u00eanua e glamourizada de problemas que somente se agravaram desde ent\u00e3o. S\u00e3o hist\u00f3rias de um cotidiano que ficaram para tr\u00e1s, muito longe da pr\u00f3pria realidade em que se transformaram as favelas. Produzido pelo Centro Popular de Cultura da UNE (Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes), em 1962, ao lado dos primeiros filmes de Nelson Pereira dos Santos e Glauber Rocha, \u00e9 obra seminal do Cinema Novo. O filme apresenta cinco hist\u00f3rias separadas, com trilhas sonoras de Carlos Lyra, H\u00e9lcio Milito, M\u00e1rio Rocha e Geraldo Vandr\u00e9.<\/p>\n<p>Com Fl\u00e1vio Migliaccio, Waldir Fiori, Isabela e Alex Viany, sob dire\u00e7\u00e3o de Marcos Farias, \u201cUm Favelado\u201d conta a hist\u00f3ria de Jo\u00e3o, um morador da favela que \u00e9 espancado por n\u00e3o ter como pagar o aluguel. Ao pedir ajuda a um amigo, acaba envolvido num assalto. Dirigido por Miguel Borges, \u201cZ\u00e9 da Cachorra\u201d, com Waldir Onofre, Jo\u00e3o \u00c2ngelo Labanca, Claudio Bueno Rocha e Peggy Aubry, retrata a revolta de um l\u00edder da favela contra um grileiro que engana e suborna os favelados, com objetivo de construir um edif\u00edcio no lugar.<\/p>\n<p>\u201cCouro de Gato\u201d, de Joaquim Pedro de Andrade, re\u00fane Francisco de Assis, Milton Gon\u00e7alves, Cl\u00e1udio Correia e Castro, Riva Nimitz e os garotos Paulinho, Sebasti\u00e3o, Dami\u00e3o e Aylton, um grupo de meninos que descem o morro para roubar gatos e vend\u00ea-los a um fabricante de tamborim.<\/p>\n<p>Cac\u00e1 Diegues dirige \u201cEscola de Samba, Alegria de Viver\u201d, interpretado por Abdias do Nascimento, Oduvaldo Viana Filho, Maria da Gra\u00e7a e Jorge Coutinho, o drama de um jovem sambista que assume a dire\u00e7\u00e3o da escola poucos meses antes do Carnaval, em meio a d\u00edvidas, rixas com a escola rival e conflitos com a esposa Dalva. \u201cPedreira de S\u00e3o Diogo\u201d \u00e9 o quinto epis\u00f3dio, com Sadi Cabral, Francisco de Assis, Glauce Rocha, Joel Barcellos, Cecil Thir\u00e9 e Jair Bernardo, sob dire\u00e7\u00e3o de Leon Hirszman: uma favela sobre uma pedreira corre risco de desabamento por causa das explos\u00f5es de dinamite<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/diversao-e-arte\/2024\/10\/6972620-vladimir-carvalho-plantou-a-semente-do-cinema-novo-em-brasilia.html\"><strong>Vladimir Carvalho plantou a semente do cinema novo em Bras\u00edlia<\/strong><\/a><\/p>\n<p>As hist\u00f3rias se remetiam a situa\u00e7\u00f5es reais. Por exemplo, a da favela da Praia do Pinto, localizada entre o Leblon e Lagoa, que viria a ser erradicada, no Rio de Janeiro. Numa madrugada de maio de 1969, em meio \u00e0s amea\u00e7as de remo\u00e7\u00e3o, cerca de mil barracos foram destru\u00eddos pelas chamas, deixando 9 mil pessoas desabrigadas. Os moradores foram levados para conjuntos distantes, como Cidade Alta e Cidade de Deus, e alguns para a Cruzada S\u00e3o Sebasti\u00e3o, vizinha \u00e0 favela. Na \u00e1rea foi erguido um condom\u00ednio conhecido como Selva de Pedra e, mais recentemente, o Shopping Leblon.<\/p>\n<p><strong>Grande mercado<\/strong><\/p>\n<p>Nesta semana, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE) divulgou o Estudo sobre Favelas e Comunidades Urbanas, baseado nos dados do Censo 2022, que revela a expans\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o favelada e do n\u00famero de favelas em todo o Brasil. \u00c9 o retrato de uma crise urbana sem solu\u00e7\u00e3o \u00e0 vista. Mostra que a Rocinha, localizada na zona sul do Rio de Janeiro, a favela mais populosa do pa\u00eds, com 72.021 habitantes e 30.371 domic\u00edlios, continua em expans\u00e3o e, agora, se verticaliza. Sol Nascente, no Distrito Federal, com 70.908 moradores e 21.889 domic\u00edlios, n\u00e3o parou de se expandir horizontalmente e come\u00e7a a se verticalizar. Na terceira posi\u00e7\u00e3o, Parais\u00f3polis, em S\u00e3o Paulo (SP), abriga 58.527 pessoas.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/cidades-df\/2024\/11\/6984083-df-tem-tres-das-maiores-favelas-do-brasil-em-extensao-territorial-diz-ibge.html\"><strong>DF tem tr\u00eas das maiores favelas do Brasil em extens\u00e3o territorial, diz IBGE<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O n\u00famero de favelas no Brasil dobrou de 6.329 em 2010 para 12.348 em 2022, um fracasso das pol\u00edticas urbanas, sobretudo habitacionais, para seus 16,3 milh\u00f5es de brasileiros. Entre as 20 maiores favelas do pa\u00eds, oito est\u00e3o na Regi\u00e3o Norte, sendo sete em Manaus (AM), indicando uma alta concentra\u00e7\u00e3o na Amaz\u00f4nia, onde cerca de 34,7% da popula\u00e7\u00e3o vive em \u00e1reas de favela; em seguida v\u00eam o Amap\u00e1 tem 24,4% da popula\u00e7\u00e3o, e o Par\u00e1, 18,8%, a sede da 30\u00aa Confer\u00eancia Mundial do Clima da ONU, a COP-30, em novembro de 2025. A faveliza\u00e7\u00e3o reflete as dificuldades de sobreviv\u00eancia das popula\u00e7\u00f5es ribeirinhas tradicionais.<\/p>\n<p>A favela \u00e9 a s\u00edntese da iniquidade social brasileira, reflete uma crise urbana dissimulada por express\u00f5es como &#8220;complexos&#8221;, que mascara a faveliza\u00e7\u00e3o dos sub\u00farbios, e &#8220;comunidade&#8221;, geralmente associada \u00e0s favelas tradicionais. N\u00e3o por acaso, sua popula\u00e7\u00e3o \u00e9 mais jovem do que a m\u00e9dia nacional, 30 anos, enquanto a do pa\u00eds \u00e9 de 35; seu \u00edndice de envelhecimento \u00e9 menor, com 45 idosos para 100 habitantes, contra 80 de m\u00e9dia nacional. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 diversidade racial, predominam pardos (56,8%) e pretos (16,1%), ante 45,3% e 10,2% de m\u00e9dia nacional. O n\u00famero de pessoas brancas nas favelas (26,6%) \u00e9 bem inferior ao \u00edndice nacional, de 43,5%.<\/p>\n<p>A vida banal nas favelas, como diria o mestre Milton Santos, foi relegada a segundo plano pelas pol\u00edticas p\u00fablicas, subordinadas a grandes interesses privados, e capturada por grupos criminosos, milicianos e traficantes de drogas, que exploram suas principais atividades econ\u00f4micas. H\u00e1 uma simbiose entre a economia formal e as atividades econ\u00f4micas informais das favelas, porque uma complementa a outra. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o fornecimento de m\u00e3o de obra barata e servi\u00e7os eventuais, pessoais e dom\u00e9sticos. O melhor exemplo \u00e9 a reciclagem, que reaproveita mais de 90% das latas de alum\u00ednio.<\/p>\n<p>As favelas s\u00e3o um mercado consumidor importante, mas n\u00e3o t\u00eam a contrapartida dos servi\u00e7os p\u00fablicos: s\u00e3o apenas 896 escolas, 2.792 farm\u00e1cias e alguns postos de sa\u00fade, em contraste com impressionantes 50.934 templos religiosos, que funcionam como espa\u00e7o de conviv\u00eancia e assist\u00eancia social, de um total de 958.251 estabelecimentos, a maioria comerciais. Se as favelas brasileiras fossem um Estado, seriam o 5\u00b0 maior em n\u00famero de domic\u00edlios e o 7\u00b0 maior em renda.<\/p>\n<p><em>Todas as colunas do<\/em> <strong>Blog do Azedo<\/strong>:\u00a0<a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\">https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/<\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida banal nas favelas, como diria o mestre Milton Santos, foi relegada a segundo plano pelas pol\u00edticas p\u00fablicas e capturada por grupos criminosos: milicianos e traficantes Sessenta e dois anos depois, o filme \u201cCinco Vezes Favela\u201d hoje parece uma vis\u00e3o ing\u00eanua e glamourizada de problemas que somente se agravaram desde ent\u00e3o. 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