{"id":9718,"date":"2024-11-26T08:10:50","date_gmt":"2024-11-26T11:10:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9718"},"modified":"2024-11-26T08:21:37","modified_gmt":"2024-11-26T11:21:37","slug":"arrogancia-do-carrefour-lembra-a-guerra-da-lagosta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/arrogancia-do-carrefour-lembra-a-guerra-da-lagosta\/","title":{"rendered":"Arrog\u00e2ncia do Carrefour lembra a &#8220;guerra da lagosta&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>O presidente Lula da Silva precisa tomar cuidado para n\u00e3o embarcar numa esp\u00e9cie de &#8220;guerra do fil\u00e9 mignon&#8221;, por causa das declara\u00e7\u00f5es do presidente mundial do grupo Carrefour<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Foi em 1955 que tudo come\u00e7ou. O empres\u00e1rio americano Davis Morgan se estabeleceu em Fortaleza e incentivou a captura de lagosta nas praias do Cear\u00e1 com fins comerciais, atividade que se espalhou pelo litoral do Brasil, particularmente do Nordeste. Foi uma revolu\u00e7\u00e3o na ind\u00fastria de pesca e na vida dos pescadores de Caponga (Cascavel-CE), Morro Branco (Beberibe-CE) e Aracati (CE). A pesca era artesanal, por\u00e9m, havia um grande mercado a explorar: a lagosta era uma iguaria da alta gastronomia, principalmente a francesa.<\/p>\n<p>Morgan seria o piv\u00f4 de uma crise entre o Brasil e a Fran\u00e7a, oito anos depois, porque os franceses resolveram dispensar os intermedi\u00e1rios e vir pescar as lagostas na costa brasileira. Era um momento delicado da vida mundial, pautada pela Guerra Fria entre o Ocidente e a antiga Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica. Desde a campanha &#8220;O petr\u00f3leo nosso&#8221;, havia um forte movimento nacionalista no Brasil.<\/p>\n<p>Diante da presen\u00e7a de franceses na costa brasileira, o governo resolveu mobilizar a Marinha para impedi-los de pescar. A chamada &#8220;guerra da lagosta&#8221;, entre fevereiro e mar\u00e7o de 1963, irrompeu um m\u00eas depois do plebiscito que acabou com o parlamentarismo (1961-1963) e restabeleceu o presidencialismo no Brasil. O presidente Jo\u00e3o Goulart precisava demonstrar for\u00e7a e coes\u00e3o militar.<\/p>\n<p>Era a fome com a vontade de comer, porque a Fran\u00e7a tamb\u00e9m vivia um momento delicado. Havia perdido suas col\u00f4nias na \u00c1frica. As lagostas ao largo do Senegal, da Guin\u00e9 e da Maurit\u00e2nia estavam \u00e0 beira da extin\u00e7\u00e3o. A sa\u00edda foi buscar os crust\u00e1ceos no Atl\u00e2ntico Sul. Os franceses ainda sobretaxaram a comercializa\u00e7\u00e3o de lagostas importadas do Brasil, com um aumento de 35% nos impostos. Ao mesmo tempo, requereram permiss\u00e3o para tr\u00eas barcos (Gotte, Lopnk Ael e La Tramontaine) pesquisarem as reservas lagosteiras do Nordeste.<\/p>\n<p>O governo autorizou a prospec\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o a pesca, o que n\u00e3o impediu que os lagosteiros franceses &#8220;invadissem&#8221; o litoral brasileiro. Alguns barcos eram verdadeiras ind\u00fastrias flutuantes: al\u00e9m de frigor\u00edficos, tinham viveiros onde a lagosta era mantida viva. A rea\u00e7\u00e3o do presidente Goulart foi mobilizar a Marinha e a Aeron\u00e1utica para patrulhar a costa. Em 1962, em 2 de janeiro, a corveta Ipiranga apresou o pesqueiro Cassiop\u00e9e, a cerca de 10 milhas da costa.<\/p>\n<p>Pouco tempo depois, a corveta Purus avistou dois pesqueiros (Fran\u00e7oise Christine e Lonk Ael) pr\u00f3ximos \u00e0 costa do Rio Grande do Norte, mas n\u00e3o os interceptou. Entretanto, o contratorpedeiro Babitonga apresou os pesqueiros Plomarch, em 14 de junho, e Lonk Ael, em 10 de julho; e a corveta Ipiranga, os pesqueiros Folgor e Fran\u00e7oise Christine, em agosto, no litoral cearense.<\/p>\n<p>Atendendo pedido do Quai d\u00b4Orsay (chancelaria francesa), os barcos foram liberados, por\u00e9m, a Fran\u00e7a decidiu manter a pesca sem autoriza\u00e7\u00e3o e mandou o contratorpedeiro &#8220;Tartu&#8221; escoltar seus lagosteiros. Avi\u00f5es da FAB e o contratorpedeiro Paran\u00e1 fizeram contato com o navio franc\u00eas. A crise quase resultou num confronto entre as duas armadas; a brasileira, muito sucateada. O presidente franc\u00eas, Charles de Gaulle, amea\u00e7ou deslocar o grupo-tarefa do navio-aer\u00f3dromo Clemenceau, que estava na Costa Oeste da \u00c1frica, para o litoral do Nordeste brasileiro: um cruzador, cinco fragatas, dois contratorpedeiros, um aviso e um navio-tanque.<\/p>\n<p><strong>Fil\u00e9 mignon<\/strong><\/p>\n<p>Em 5 de fevereiro de 1963, os barcos franceses e suas respectivas cargas foram liberados e uma autoriza\u00e7\u00e3o para captura da lagosta foi emitida para os pesqueiros no dia 8. Por\u00e9m, por for\u00e7a da opini\u00e3o p\u00fablica e de press\u00f5es pol\u00edticas (principalmente vindas do Nordeste), o presidente Goulart voltou atr\u00e1s, o que despertou a ira de Gaulle. Foi contido pelos Estados Unidos.<\/p>\n<p>Um coment\u00e1rio em franc\u00eas do embaixador em Paris, Carlos Alves de Souza Filho, durante entrevista a um rep\u00f3rter brasileiro, atribu\u00eddo a De Gaulle, provocou mais acirramento de \u00e2nimos na opini\u00e3o p\u00fablica brasileira: &#8220;Edgar, le Br\u00e9sil n&#8217;ont \u00e8 pas un pays s\u00e9rieux&#8221; (O Brasil n\u00e3o \u00e9 um pa\u00eds s\u00e9rio). A Fran\u00e7a argumentava que a lagosta se deslocava dando saltos e deveria ser considerada como peixe. O almirante Paulo de Castro Moreira da Silva, ocean\u00f3grafo da Marinha do Brasil, ironizou: &#8220;Por analogia, se lagosta \u00e9 peixe, porque se desloca dando saltos, ent\u00e3o, o canguru \u00e9 uma ave&#8221;. A declara\u00e7\u00e3o agitou nosso patriotismo. Em 1970, por causa do petr\u00f3leo, o governo militar ampliaria o mar territorial brasileiro para 200 milhas.<\/p>\n<p>O presidente Luiz In\u00e1cio Lula da Silva precisa tomar cuidado para n\u00e3o embarcar numa esp\u00e9cie de &#8220;guerra do fil\u00e9 mignon&#8221;, por causa das declara\u00e7\u00f5es do presidente mundial do grupo Carrefour, Alexandre Bombard. O executivo anunciou que n\u00e3o compraria carne do Mercosul, por n\u00e3o atender ao seu padr\u00e3o de qualidade. Tudo para endossar a onda de protestos dos agricultores franceses contra o acordo entre a Uni\u00e3o Europeia e o Mercosul.<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/mundo\/2024\/11\/6995924-supermercados-carrefour-sob-ameaca-de-boicote-por-impasse-no-acordo-ue-mercosul.html\"><strong>Supermercados Carrefour sob amea\u00e7a de boicote por impasse no acordo UE-Mercosul<\/strong><\/a><\/p>\n<p>Em resposta, os frigor\u00edficos brasileiros anunciaram que n\u00e3o vender\u00e3o carne para o Carrefour, aqui no Brasil. O ministro da Agricultura, Carlos F\u00e1varo, anunciou que o governo apoia a retalia\u00e7\u00e3o. Bombard tentou recuar e disse que a decis\u00e3o somente se aplicaria ao territ\u00f3rio franc\u00eas. Comprou uma briga comercial de cachorro grande. Para Lula, essa \u00e9 uma oportunidade de se aproximar do agroneg\u00f3cio. Entretanto, tudo que os agricultores franceses querem \u00e9 provocar uma crise pol\u00edtica que obrigue a Uni\u00e3o Europeia a ser solid\u00e1ria com a Fran\u00e7a contra o Mercosul. Essa n\u00e3o \u00e9 a nossa.<\/p>\n<p><em>Leia <\/em><em>ainda :<\/em><strong><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2024\/11\/6996916-autoridades-reagem-a-declaracoes-de-carrefour-e-pedem-retratacao-publica.html\">Autoridades reagem a declara\u00e7\u00f5es de Carrefour e pedem retrata\u00e7\u00e3o p\u00fablica<\/a><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n<p class=\"texto\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O presidente Lula da Silva precisa tomar cuidado para n\u00e3o embarcar numa esp\u00e9cie de &#8220;guerra do fil\u00e9 mignon&#8221;, por causa das declara\u00e7\u00f5es do presidente mundial do grupo Carrefour Foi em 1955 que tudo come\u00e7ou. 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