{"id":9745,"date":"2024-12-04T10:29:53","date_gmt":"2024-12-04T13:29:53","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9745"},"modified":"2024-12-04T10:30:12","modified_gmt":"2024-12-04T13:30:12","slug":"homem-atirado-da-ponte-lembra-caso-do-rio-da-guarda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/homem-atirado-da-ponte-lembra-caso-do-rio-da-guarda\/","title":{"rendered":"Homem atirado da ponte lembra caso do Rio da Guarda"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Era noite de segunda-feira, 15 de outubro de 1962, Elias, Expedito e Jos\u00e9 foram amarrados e jogados no rio. Os tr\u00eas morreram afogados. Mais tr\u00eas viagens seriam realizadas<\/strong><\/em><\/p>\n<p>Treze policiais envolvidos direta ou indiretamente no epis\u00f3dio em que um agente jogou um homem dentro de um rio na regi\u00e3o de Cidade Ademar, Zona Sul de S\u00e3o Paulo, foram afastados de suas fun\u00e7\u00f5es pela Corregedoria da Pol\u00edcia Militar de S\u00e3o Paulo. Dois sargentos e 11 cabos e soldados est\u00e3o sendo ouvidos. O fato ocorreu na madrugada de segunda-feira, ap\u00f3s uma abordagem policial de duas pessoas, uma das quais \u00e9 a testemunha do caso, que foi gravado. A v\u00edtima da viol\u00eancia policial estaria viva, mas n\u00e3o foi localizada.<\/p>\n<p>Durante uma patrulha, os policiais deram ordem de parada a duas pessoas que trafegavam em uma moto. Os rapazes fugiram, e os PMs, ent\u00e3o, iniciaram uma persegui\u00e7\u00e3o que terminou com a captura da dupla. Um deles foi jogado no rio por um dos policiais. O outro chegou a ser levado para a delegacia. Agora, \u00e9 a principal testemunha do caso. C\u00e2maras corporais dos policiais registraram o epis\u00f3dio, que representa uma escalada da viol\u00eancia policial em S\u00e3o Paulo, onde vigora uma pol\u00edtica de endurecimento das a\u00e7\u00f5es repressivas da Pol\u00edcia Militar.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m<\/em>: <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/brasil\/2024\/12\/7003207-casos-de-violencia-policial-voltam-a-chocar-o-brasil.html\"><strong>Casos de viol\u00eancia policial voltam a chocar o Brasil<\/strong><\/a><\/p>\n<p>O epis\u00f3dio lembra uma chacina ocorrida no Rio de Janeiro, na d\u00e9cada de 1960, durante o governo de Carlos Lacerda (UDN), no antigo Estado da Guanabara. A &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Mata-Mendigos&#8221; foi revelada pelo jornal \u00daltima Hora, vespertino que revolucionou a imprensa carioca. Moradores de rua, Elias Marcondes, Expedito Jesus Vieira e Jos\u00e9 dos Santos foram detidos e obrigados a entrar na caminhonete do Servi\u00e7o de Repress\u00e3o \u00e0 Mendic\u00e2ncia (SRM), \u00f3rg\u00e3o ligado \u00e0 Secretaria de Seguran\u00e7a do Estado.<\/p>\n<p>Era noite de segunda-feira, 15 de outubro de 1962, quando foram levados at\u00e9 os limites da ent\u00e3o capital federal, em Santa Cruz, na Zona Oeste. O carro parou \u00e0s margens do Rio Guandu, onde Elias, Expedito e Jos\u00e9 foram amarrados e jogados no curso d&#8217;\u00e1gua. Os tr\u00eas morreram afogados. Mais tr\u00eas viagens seriam realizadas. Carlos Lacerda promovia uma pol\u00edtica de remo\u00e7\u00e3o de favelas na Zona Sul do Rio e pretendia erradicar a popula\u00e7\u00e3o de rua das vias p\u00fablicas da regi\u00e3o. Os agentes destacados para esse servi\u00e7o decidiram resolver o problema jogando-os nos rios da Guarda e Guandu, que eram pontos de desova de cad\u00e1veres.<\/p>\n<p>Cerca de 20 pessoas foram comprovadamente tiradas das ruas e lan\u00e7adas nos dois rios pelos agentes do SRM, entre outubro de 1962 e janeiro de 1963, nove das quais morreram. A chacina s\u00f3 foi interrompida porque, em 17 de janeiro de 1963, a pernambucana Ondilina Alves Japiassu nadava bem. Jogada no Rio da Guarda, nadou at\u00e9 a outra margem e fugiu. Dias depois, denunciou a &#8220;Opera\u00e7\u00e3o Mata-Mendigos&#8221;, ao jornal \u00daltima Hora. Quatro agentes da SRM foram presos e acusados da chacina.<\/p>\n<p>O guarda civil Jos\u00e9 Mota, o fiscal da Guarda Noturna Pedro Saturnino dos Santos (mais conhecido como Tranca Ruas), o motorista M\u00e1rio Teixeira, da Assist\u00eancia Policial, e Nilton Gon\u00e7alves da Silva, servente do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, confessaram os crimes. Segundo a edi\u00e7\u00e3o de O Globo de 28 de janeiro de 1963, a certa altura do seu depoimento, Tranca Ruas, que admitira ter disparado um tiro no ouvido de uma v\u00edtima antes de jog\u00e1-la no rio, denunciou os demais: &#8220;Eu n\u00e3o amarrei o peste sozinho! Todos fizemos isso, e eu, que j\u00e1 estou desgra\u00e7ado, n\u00e3o posso pagar tudo sozinho. Voc\u00eas me ajudaram a amarrar o doido e jogar ele no rio!&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Viol\u00eancia de Estado<\/strong><\/p>\n<p>Em 12 de fevereiro, os acusados da matan\u00e7a participaram da reconstitui\u00e7\u00e3o do crime promovida pela pol\u00edcia e pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico. Demonstraram como v\u00e1rias de suas v\u00edtimas resistiram e foram torturadas antes de serem lan\u00e7adas ao rio. Ondilina n\u00e3o foi a primeira a escapar. Um homem identificado como Saci chegou a se segurar numa prote\u00e7\u00e3o de ferro na margem do rio, mas teve as m\u00e3os golpeadas com uma lanterna. Ele caiu na \u00e1gua, mas conseguiu nadar at\u00e9 a margem e come\u00e7ou a gritar. Assustados, segundo os depoimentos, os agentes fugiram levando Maria do Socorro, que foi espancada e abandonada numa rua. Estima-se em 50 pessoas o total de desaparecidos.<\/p>\n<p>Comiss\u00e3o Parlamentar de Inqu\u00e9rito (CPI) na Assembleia do Estado da Guanabara constatou que os chefes do Servi\u00e7o de Repress\u00e3o \u00e0 Mendic\u00e2ncia autorizavam &#8220;deporta\u00e7\u00f5es&#8221; de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de rua para suas cidades de origem, fora da capital. Entretanto, disseram n\u00e3o saber da matan\u00e7a. Relator da CPI, o deputado Paulo Duque livrou, em seu relat\u00f3rio, qualquer responsabilidade do governador Carlos Lacerda no esc\u00e2ndalo.<\/p>\n<p>Essa chacina se tornou um exemplo de viol\u00eancia de Estado contra popula\u00e7\u00f5es vulner\u00e1veis em situa\u00e7\u00e3o de rua. A associa\u00e7\u00e3o ao caso do homem jogado no rio pelos policiais na Cidade Ademar, flagrados pelas pr\u00f3prias c\u00e2maras corporais, \u00e9 pertinente. A pol\u00edtica de endurecimento da repress\u00e3o e flexibiliza\u00e7\u00e3o do uso de c\u00e2meras corporais estimula a viol\u00eancia policial desmedida. Sem elas, os policiais do 24\u00b0 Batalh\u00e3o da PM, localizado na cidade de Diadema, na Grande SP, poderiam ocultar o fato do homem atirado no rio, que ficaria na obscuridade.<\/p>\n<p>O governador de S\u00e3o Paulo, Tarc\u00edsio de Freitas (Republicanos), reagiu: em uma rede social, disse que o policial militar que &#8220;atira pelas costas&#8221; ou &#8220;chega ao absurdo de jogar uma pessoa da ponte&#8221; n\u00e3o est\u00e1 \u00e0 altura de usar farda. Ser\u00e1 investigado e &#8220;rigorosamente&#8221; punido. O secret\u00e1rio da Seguran\u00e7a P\u00fablica, Guilherme Derrite (PL), tamb\u00e9m criticou a a\u00e7\u00e3o do policial militar: &#8220;Anos de legado da PM n\u00e3o podem ser manchados por condutas antiprofissionais&#8221;. O procurador-geral de Justi\u00e7a de S\u00e3o Paulo, Paulo S\u00e9rgio de Oliveira e Costa, tamb\u00e9m emitiu uma nota p\u00fablica de rep\u00fadio: as imagens s\u00e3o &#8220;estarrecedoras e absolutamente inadmiss\u00edveis&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Era noite de segunda-feira, 15 de outubro de 1962, Elias, Expedito e Jos\u00e9 foram amarrados e jogados no rio. Os tr\u00eas morreram afogados. 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