{"id":9748,"date":"2024-12-03T08:37:41","date_gmt":"2024-12-03T11:37:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9748"},"modified":"2024-12-03T08:43:38","modified_gmt":"2024-12-03T11:43:38","slug":"os-fantasmas-ainda-estao-aqui-o-caso-rubens-paiva","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/os-fantasmas-ainda-estao-aqui-o-caso-rubens-paiva\/","title":{"rendered":"Os fantasmas ainda est\u00e3o aqui, o caso Rubens Paiva"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Ainda estou aqui, filme nacional campe\u00e3o de bilheteria \u00e9 uma den\u00fancia pol\u00edtica sobre um Brasil de abusos e impunidade na forma de drama de fam\u00edlia<\/strong><\/em><\/p>\n<p>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre o filme Ainda estou aqui \u2014 drama que retrata a vida da fam\u00edlia do ex-deputado Rubens Beyrodt Paiva, sequestrado e assassinado no quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito da Rua Bar\u00e3o de Mesquita, na Tijuca, Rio de Janeiro, em 1971 \u2014 e a atual conjuntura pol\u00edtica, na qual o ex-presidente Jair Bolsonaro e um grupo de militares, entre os quais alguns generais de Ex\u00e9rcito e um almirante de esquadra, s\u00e3o acusados de tentativa de golpe de Estado.<\/p>\n<p>Mais de 50 anos depois, a hist\u00f3ria oferece um forte contraste entre o que ocorre com esses militares, que est\u00e3o sendo indiciados e ser\u00e3o julgados com base no devido processo legal, e o que se passou com o oposicionista assassinado sob cust\u00f3dia do Estado durante o regime militar.<\/p>\n<p>O filme \u00e9 um sucesso de bilheteria, foi visto por mais de 2 milh\u00f5es de espectadores (maior p\u00fablico do cinema nacional no ano) e superou R$ 40 milh\u00f5es de faturamento. Ao contr\u00e1rio de outras obras do g\u00eanero que tamb\u00e9m retratam os anos de chumbo, o filme de Walter Salles, com Fernanda Torres e Fernanda Montenegro no papel de Eunice Paiva, tem uma dramaturgia emocionalmente contida, embora muito forte do ponto de vista sentimental e pol\u00edtico.<\/p>\n<p>Ainda estou aqui \u00e9 inspirado no livro de Marcelo Rubens Paiva, escritor, dramaturgo e jornalista paulista, filho do ex-deputado federal do PTB, cassado pela ditadura. Lan\u00e7ada em 2015, \u00e9 uma obra de grande qualidade t\u00e9cnica, que retrata o cotidiano da fam\u00edlia Paiva antes e depois da pris\u00e3o do parlamentar.<\/p>\n<p>Rubens Paiva era pol\u00edtico, engenheiro e jornalista, foi deputado federal pelo antigo estado da Guanabara, em 1962, pelo PTB. Como parlamentar, defendia reformas sociais progressistas do governo Jo\u00e3o Goulart, deposto pelos militares. Foi cassado pelo Ato Institucional n\u00ba 1, logo ap\u00f3s o golpe militar de 1964.<\/p>\n<p><strong>A verdade<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 uma das v\u00edtimas mais simb\u00f3licas da ditadura militar brasileira. Seu caso colocou em xeque a narrativa do regime de que combatia terroristas ligados \u00e0 luta armada, tese que justificaria torturas e execu\u00e7\u00f5es. O pol\u00edtico desapareceu em janeiro de 1971, ap\u00f3s ser levado para o DOI-Codi, no Rio de Janeiro, sob suspeita de envolvimento com atividades consideradas subversivas pelo governo militar, depois de ser detido em sua casa.<\/p>\n<p>O assassinato de Rubens Paiva s\u00f3 come\u00e7ou a ser esclarecido ap\u00f3s o fim da ditadura. Marival Chaves, ex-agente do regime militar, anos depois, em depoimentos p\u00fablicos e \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, revelaria pr\u00e1ticas sistem\u00e1ticas de tortura, oculta\u00e7\u00e3o de cad\u00e1ver e execu\u00e7\u00f5es realizadas pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o, incluindo o DOI-Codi.<\/p>\n<p class=\"texto\">Marival Chaves de Souza foi sargento e trabalhou no Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE). Nos anos 1990 e no per\u00edodo da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade (CNV), revelou detalhes de casos espec\u00edficos. Segundo ele, o ex-deputado foi torturado &#8220;por ordens superiores&#8221;. Em uma dessas sess\u00f5es de tortura, n\u00e3o resistiu. Testemunhos indicam que Rubens Paiva sofreu traumatismos severos \u2014 fraturas e les\u00f5es internas \u2014 que o levaram \u00e0 morte.<\/p>\n<p class=\"texto\">Segundo Marival, seu corpo foi esquartejado e descartado no mar, uma pr\u00e1tica comum na \u00e9poca, para ocultar provas de assassinatos cometidos pelo regime. As autoridades criaram uma narrativa falsa, alegando que o pol\u00edtico teria fugido durante uma tentativa de resgate. Seus restos mortais nunca foram encontrados. No topo da cadeia de comando, estavam o ent\u00e3o ministro do Ex\u00e9rcito, Orlando Geisel, e o presidente Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici.<\/p>\n<p class=\"texto\">A fam\u00edlia de Rubens Paiva, especialmente a filha Vera Paiva, a Veroca, por d\u00e9cadas, ao lado da m\u00e3e, lutou para descobrir a verdade e exigir justi\u00e7a. Apenas em 2014, a CNV reconheceu oficialmente que o ex-deputado foi assassinado sob tortura pelo Estado brasileiro. Ele tornou-se um s\u00edmbolo da resist\u00eancia democr\u00e1tica e da luta por justi\u00e7a no Brasil. Escolas, ruas e pra\u00e7as receberam seu nome em diversas cidades brasileiras. Sua hist\u00f3ria \u00e9 um alerta contra a repress\u00e3o pol\u00edtica e a viol\u00eancia de Estado.<\/p>\n<h4>Torturadores<\/h4>\n<p class=\"texto\">Apesar das revela\u00e7\u00f5es e do reconhecimento oficial do crime, os respons\u00e1veis pela morte de Rubens Paiva foram beneficiados pela Lei da Anistia de 1979 e nunca foram punidos: o coronel do Ex\u00e9rcito Rubens Paim Sampa, comandante do DOI-Codi, no Rio, respons\u00e1vel pelas opera\u00e7\u00f5es no local, incluindo tortura de presos pol\u00edticos; o capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Frederico Aramis de Oliveira, violento chefe de interrogat\u00f3rios no DOI-Codi, um dos executores diretos das sess\u00f5es de tortura; o major do Ex\u00e9rcito Alfredo Paulo Charlet, subordinado do comandante do DOI-Codi, participava das sess\u00f5es de tortura e supervisionava os interrogat\u00f3rios, inclusive os de Rubens Paiva; e o delegado do Dops e agente do DOI-Codi Manoel Thomaz Pereira, um dos torturadores mais ativos no per\u00edodo em que Rubens Paiva esteve detido.<\/p>\n<p>(Publicado no Correio Braziliense de 2 de dezembro de 2024)<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda estou aqui, filme nacional campe\u00e3o de bilheteria \u00e9 uma den\u00fancia pol\u00edtica sobre um Brasil de abusos e impunidade na forma de drama de fam\u00edlia \u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o entre o filme Ainda estou aqui \u2014 drama que retrata a vida da fam\u00edlia do ex-deputado Rubens Beyrodt Paiva, sequestrado e assassinado no quartel da Pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":39,"featured_media":9749,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[169,7,972,113,8,3,80,68],"tags":[101,351,452,703,1833],"class_list":["post-9748","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-cinema","category-justica","category-memoria","category-militares","category-partidos","category-politica","category-seguranca","category-violencia","tag-cinema","tag-ditadura","tag-familia","tag-morte","tag-paiva"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9748","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/users\/39"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=9748"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9748\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":9753,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/9748\/revisions\/9753"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media\/9749"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=9748"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=9748"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=9748"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}