{"id":9760,"date":"2024-12-06T10:26:02","date_gmt":"2024-12-06T13:26:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9760"},"modified":"2024-12-07T14:20:24","modified_gmt":"2024-12-07T17:20:24","slug":"violencia-policial-pos-tarcisio-na-berlinda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/violencia-policial-pos-tarcisio-na-berlinda\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia policial p\u00f4s Tarc\u00edsio na berlinda"},"content":{"rendered":"<blockquote><p><strong>O governador de S\u00e3o Paulo, Tarc\u00edsio de Freitas, transformou a cultura de trucul\u00eancia policial na centralidade de sua pol\u00edtica de seguran\u00e7a<\/strong><\/p><\/blockquote>\n<p>Existe uma cultura de viol\u00eancia policial no Brasil que precisa ser estudada e combatida pelo pr\u00f3prio sistema de seguran\u00e7a, por\u00e9m, isso se torna mais dif\u00edcil porque foi banalizada. Encontra apoio em parte da popula\u00e7\u00e3o e se tornou uma bandeira eleitoral que levou ao poder pol\u00edticos, como o governador de S\u00e3o Paulo, Tarc\u00edsio de Freitas. Uma cultura diretamente relacionada ao passado escravocrata do pa\u00eds, como tamb\u00e9m acontece nos Estados Unidos, e que normatiza as rela\u00e7\u00f5es entre a pol\u00edcia e a popula\u00e7\u00e3o pobre das periferias. Negros e pardos s\u00e3o tratados como suspeitos, e n\u00e3o como cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>Um velho samba de 1938, de autoria de Tio H\u00e9lio e Nilton Campolino, cantado nos terreiros do Morro da Serrinha e de Madureira, ber\u00e7o do Imp\u00e9rio Serrano e da Portela, respectivamente, traduz a mentalidade policial da \u00e9poca, hoje, na voz de Zeca Pagodinho: &#8220;Delegado Chico Palha\/ Sem alma, sem cora\u00e7\u00e3o\/ N\u00e3o quer samba nem curimba\/ Na sua jurisdi\u00e7\u00e3o\/ Ele n\u00e3o prendia\/ S\u00f3 batia\/ Era um homem muito forte\/ Com um g\u00eanio violento\/ Acabava a festa a pau\/ Ainda quebrava os instrumentos&#8221;.<\/p>\n<p>Caetano Veloso, na letra da m\u00fasica Haiti, retrata o mesmo fen\u00f4meno no carnaval baiano: &#8220;Quando voc\u00ea for convidado pra subir no adro\/ Da funda\u00e7\u00e3o casa de Jorge Amado\/ Pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos\/ Dando porrada na nuca de malandros pretos\/ De ladr\u00f5es mulatos e outros quase brancos\/ Tratados como pretos\/ S\u00f3 pra mostrar aos outros quase pretos\/ (E s\u00e3o quase todos pretos)\/ Como \u00e9 que pretos, pobres e mulatos\/ E quase brancos quase pretos de t\u00e3o pobres s\u00e3o tratados&#8221;.<\/p>\n<p>Essa cultura \u00e9 registrada tamb\u00e9m na nossa literatura. Euclides da Cunha (1866-1909), por exemplo, na sua obra-prima, Os Sert\u00f5es, narra os sangrentos acontecimentos da Guerra de Canudos (1896-1897). Euclides descreve o sert\u00e3o nordestino (o relevo, a fauna, a flora e o clima), o homem (o sertanejo, o jagun\u00e7o, o cangaceiro e o l\u00edder messi\u00e2nico) e, finalmente, a luta (as quatro ingl\u00f3rias campanhas do Ex\u00e9rcito para destruir o pequeno arraial de 20 mil habitantes).<\/p>\n<p>Foi a primeira vez em que a quest\u00e3o social no Brasil fora abordada com tanto realismo, mesmo considerando-se a campanha abolicionista, que fora consagrada pela Lei \u00c1urea menos de dez anos antes. Foi uma guerra ingl\u00f3ria, tendo como justificativa para o massacre de sertanejos uma suposta amea\u00e7a \u00e0 consolida\u00e7\u00e3o do regime republicano, devido ao car\u00e1ter sebastianista do movimento liderado pelo m\u00edstico Ant\u00f4nio Conselheiro e seus fan\u00e1ticos jagun\u00e7os.<\/p>\n<p>&#8220;Canudos n\u00e3o se rendeu. Exemplo \u00fanico em toda a hist\u00f3ria, resistiu at\u00e9 ao esgotamento completo. Expugnado palmo a palmo, na precis\u00e3o integral do termo, caiu no dia 5, ao entardecer, quando ca\u00edram os seus \u00faltimos defensores, que todos morreram. Eram quatro apenas: um velho, dois homens feitos e uma crian\u00e7a, na frente dos quais rugiam raivosamente 5 mil soldados&#8221; &#8211; descreve Os Sert\u00f5es.<\/p>\n<p>O homem descrito por Euclides da Cunha, que fez a cobertura jornal\u00edstica da Guerra de Canudos como correspondente do jornal O Estado de S. Paulo, quase 130 anos depois, vive nas periferias e favelas dos centros urbanos do pa\u00eds, seja na condi\u00e7\u00e3o de trabalhador informal, a maioria, ou seja como traficante ou miliciano. A iniquidade social \u00e9 a mesma. A diferen\u00e7a \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resolver o problema \u00e0 bala, como em Canudos, embora alguns continuem tentando.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:\u00a0<\/em><a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2024\/12\/7004357-gilmar-mendes-lewandowski-e-tarcisio-debatem-sobre-seguranca-publica.html\"><strong>Gilmar Mendes, Lewandowski e Tarc\u00edsio debatem sobre seguran\u00e7a p\u00fablica<\/strong> <\/a><\/p>\n<p><strong>Perda de controle<\/strong><\/p>\n<p>Um fio de hist\u00f3ria em Abusado (2003), de Caco Barcellos, mostra a mesma iniquidade social que deu origem ao povoado de Canudos, no sert\u00e3o baiano, presente no Morro Dona Marta, na encosta de Botafogo, no Rio de Janeiro. No lugar de Ant\u00f4nio Conselheiro, um l\u00edder messi\u00e2nico, surge Marcinho VP, um traficante carioca. O soldado do tr\u00e1fico \u00e9 um jagun\u00e7o urbano; os milicianos, a &#8220;volante&#8221; dos &#8220;coron\u00e9is&#8221;. O mesmo homem que povoava os sert\u00f5es nordestinos hoje habita as cidades brasileiras com igual resili\u00eancia.<\/p>\n<p>Uma cena do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, em que o soldado amarelo aplica uma surra humilhante e traum\u00e1tica no vaqueiro Fabiano, traduz a mesma situa\u00e7\u00e3o em que um homem suspeito \u00e9 atirado de uma ponte num c\u00f3rrego de S\u00e3o Paulo, na segunda-feira, ou uma senhora idosa tamb\u00e9m \u00e9 espancada pelos policiais, dois dias depois, ao tentar impedir que o marido e o filho fossem surrados, depois de arrancados de dentro de casa. O soldado amarelo \u00e9 um personagem antagonista que representa a opress\u00e3o do poder institucional. Mostra a arbitrariedade do uso da farda, que lhe d\u00e1 a condi\u00e7\u00e3o de representante da Justi\u00e7a, sem nenhum m\u00e9rito para exerc\u00ea-lo.<\/p>\n<p>O v\u00e9rtice desse poder institucional, nesses dois casos, \u00e9 o governador de S\u00e3o Paulo, Tarc\u00edsio de Freitas, que transformou essa cultura de viol\u00eancia policial na centralidade de sua pol\u00edtica de seguran\u00e7a, por oportunismo ou convic\u00e7\u00e3o, e acabou na berlinda. Agora, diante da forte repercuss\u00e3o negativa das viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos pela Pol\u00edcia Militar de S\u00e3o Paulo, admitiu que perdeu o controle da situa\u00e7\u00e3o: tinha &#8220;uma vis\u00e3o equivocada&#8221; sobre o uso de c\u00e2meras corporais na farda dos policiais militares. &#8220;Hoje, estou completamente convencido de que \u00e9 um instrumento de prote\u00e7\u00e3o da sociedade e do policial. E n\u00f3s vamos n\u00e3o apenas manter, mas ampliar o programa. E tentar trazer o que tem de melhor em termos de tecnologia.&#8221;<\/p>\n<p>Ser\u00e1?<\/p>\n<p><em>Leia ainda:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/brasil\/2024\/12\/7005003-tarcisio-diz-que-errou-e-agora-defende-cameras-corporais-para-policia.html\"><strong>Tarc\u00edsio diz que errou e agora defende c\u00e2meras corporais para pol\u00edcia<\/strong><\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O governador de S\u00e3o Paulo, Tarc\u00edsio de Freitas, transformou a cultura de trucul\u00eancia policial na centralidade de sua pol\u00edtica de seguran\u00e7a Existe uma cultura de viol\u00eancia policial no Brasil que precisa ser estudada e combatida pelo pr\u00f3prio sistema de seguran\u00e7a, por\u00e9m, isso se torna mais dif\u00edcil porque foi banalizada. 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