{"id":9837,"date":"2024-12-22T08:18:01","date_gmt":"2024-12-22T11:18:01","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=9837"},"modified":"2024-12-22T08:31:34","modified_gmt":"2024-12-22T11:31:34","slug":"o-dolar-entre-o-populismo-e-o-patrimonialismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/o-dolar-entre-o-populismo-e-o-patrimonialismo\/","title":{"rendered":"O d\u00f3lar, entre o populismo e o patrimonialismo"},"content":{"rendered":"<p><em><strong>Assistimos um reality show de populismo e patrimonialismo, cujo resultado foi um grande estresse cambial, com a disparada do d\u00f3lar, que continua acima dos R$ 6<\/strong><\/em><\/p>\n<p>O populismo sustenta-se no trip\u00e9 lideran\u00e7a carism\u00e1tica, promessas al\u00e9m do exequ\u00edvel e cr\u00edticas \u00e0s elites. N\u00e3o se pode dizer, por\u00e9m, que o populismo seja o principal respons\u00e1vel pelas nossas desigualdades sociais e que, necessariamente, derive para o autoritarismo. Esse tipo de narrativa, ao contr\u00e1rio, justificou retrocessos pol\u00edticos como o regime militar implantado a partir da destitui\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Goulart, em 1964.<\/p>\n<p>Nosso populismo surge com Get\u00falio Vargas, a partir da Revolu\u00e7\u00e3o de 1930, como resposta \u00e0 rep\u00fablica olig\u00e1rquica. Sua ret\u00f3rica voltada ao trabalhador foi amparada por direitos sociais que inclu\u00edram os trabalhadores assalariados na vida pol\u00edtica nacional, como a CLT (Consolida\u00e7\u00e3o das Leis do Trabalho) e o reconhecimento dos sindicatos. Ao mesmo tempo, o golpe de 1937, que implantou o Estado Novo, consolidou a tese de que o populismo deriva para o autoritarismo, o que viria a ser desmentido pelo pr\u00f3prio Vargas, ap\u00f3s voltar ao poder pelo voto, na crise que o levou ao suic\u00eddio, em 1954.<\/p>\n<p>Juscelino Kubitschek e J\u00e2nio Quadros tamb\u00e9m recorreram a narrativas populistas para mobilizar apoio e chegar ao poder, bem como Fernando Collor de Mello, em 1989. Luiz In\u00e1cio Lula da Silva e Dilma Rousseff tamb\u00e9m adotaram narrativas populistas, amparadas por programas de inclus\u00e3o social, como Bolsa Fam\u00edlia e Minha Casa, Minha Vida. Lula teve \u00eaxito ao enfrentar as elites do pa\u00eds; Dilma fracassou, ao adotar uma estrat\u00e9gia nacional-desenvolvimentista anacr\u00f4nica diante da globaliza\u00e7\u00e3o e perdeu o poder. Nenhum dos cinco confirma a tese de que seu populismo desaguaria no autoritarismo.<\/p>\n<p>Quem tentou esse caminho foi Jair Bolsonaro, que chegou ao poder pedalando o triciclo do carisma, do apelo \u00e0s massas e do confronto com as elites. Depois de J\u00e2nio Quadros, \u00e9 o maior representante do populismo de direita no Brasil, com ret\u00f3rica antissistema, apelo nacionalista e bandeiras reacion\u00e1rias. Defendeu a volta do regime militar e os costumes tradicionais, para \u201csalvar\u201d a p\u00e1tria e a fam\u00edlia unicelular patriarcal.<\/p>\n<p>Leia tamb\u00e9m: <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2024\/12\/7017823-bolsonaro-ironiza-alta-do-dolar-com-meme-publicado-nas-redes-sociais.html\">Bolsonaro ironiza alta do d\u00f3lar com meme publicado nas redes sociais<\/a><\/p>\n<p>Nosso populismo am\u00e1lgama o mito \u201csebastianista\u201d do salvador da p\u00e1tria. Morto D. Sebasti\u00e3o em Alc\u00e1cer Quibir, aos 24 anos, e tendo sido anexado pela Espanha em 1580, Portugal perdeu a opul\u00eancia e a grandiosidade do in\u00edcio daquele s\u00e9culo, juntamente com o melhor da sua juventude e do seu Ex\u00e9rcito. Como o corpo do rei nunca foi encontrado, o mito de que D. Sebasti\u00e3o estava vivo e voltaria um dia alimentou o nacionalismo portugu\u00eas e o messianismo no Brasil. Teria aparecido durante a batalha que expulsou os franceses no Rio de Janeiro, em 1565; no reino Encantado da Pedra Bonita (1834-1836), em Pernambuco; e em Canudos (1893-1897), com Ant\u00f4nio Conselheiro.<\/p>\n<p><strong>Patrimonialismo<\/strong><\/p>\n<p>As promessas de reformas r\u00e1pidas e profundas, com solu\u00e7\u00f5es simples para problemas estruturais complexos, hoje, s\u00e3o narrativas populistas anabolizadas pelas redes sociais. Fomentam a polariza\u00e7\u00e3o e a desconfian\u00e7a nas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas; a tens\u00e3o entre Executivo, Legislativo e Judici\u00e1rio; a divis\u00e3o profunda da sociedade, a descontinuidade de projetos estruturais e pol\u00edticas de clientela; e, consequentemente, a instabilidade econ\u00f4mica e volatilidade do mercado.<\/p>\n<p><em>Leia tamb\u00e9m:<\/em> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/economia\/2024\/12\/7017403-lula-reforca-autonomia-do-banco-central-jamais-havera-interferencia.html\">Lula refor\u00e7a autonomia do Banco Central: &#8220;Jamais haver\u00e1 interfer\u00eancia&#8221;<\/a><\/p>\n<p>O outro lado dessa moeda \u00e9 o patrimonialismo, mais vivo do que nunca. Por defini\u00e7\u00e3o, \u00e9 um tipo de domina\u00e7\u00e3o tradicional na qual o governante utiliza o poder como extens\u00e3o de sua pr\u00f3pria casa. Como o Estado brasileiro antecedeu a na\u00e7\u00e3o, a administra\u00e7\u00e3o p\u00fablica colonial e imperial foi moldada por um sistema onde cargos p\u00fablicos e privil\u00e9gios eram concedidos como favores pessoais. Isso promoveu uma cultura que est\u00e1 em contradi\u00e7\u00e3o com o regime republicano.<\/p>\n<p>Fen\u00f4meno j\u00e1 muito estudado, o patrimonialismo brasileiro nasceu associado \u00e0 figura do \u201chomem cordial\u201d e destaca o papel das rela\u00e7\u00f5es pessoais e afetivas na domina\u00e7\u00e3o do espa\u00e7o p\u00fablico, uma heran\u00e7a ib\u00e9rica avessa \u00e0 formalidade institucional, que mistura o p\u00fablico e o privado. O poder centralizado e burocr\u00e1tico serve a interesses privados e sustenta uma elite dirigente que controla o Estado em benef\u00edcio pr\u00f3prio, a partir de uma estrutura patrimonialista herdada de Portugal.<\/p>\n<p>Essa caracter\u00edstica tamb\u00e9m marcaria o desenvolvimento capitalista e a moderniza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds, sobretudo o nosso capitalismo de Estado, ou \u201cde la\u00e7os\u201d vis\u00edveis a olho nu. O soci\u00f3logo Luiz Werneck Vianna, recentemente falecido, destacava o papel dessas ra\u00edzes hist\u00f3ricas (coloniza\u00e7\u00e3o portuguesa) e culturais (la\u00e7os familiares e paternalismo) na resist\u00eancia \u00e0s rela\u00e7\u00f5es institucionais impessoais e ao funcionamento do sistema pol\u00edtico e administrativo em bases democr\u00e1ticas e modernas.<\/p>\n<p>Nas \u00faltimas semanas, assistimos a um reality show de populismo e patrimonialismo, cujo resultado foi um grande estresse cambial, com a disparada do d\u00f3lar, que continua acima dos R$ 6. A promessa de isen\u00e7\u00e3o do imposto de renda para quem ganha at\u00e9 R$ 5 mil, feita pelo governo, e a gana pelo dinheiro das emendas parlamentares, de parte do Congresso, criaram um ambiente de incerteza econ\u00f4mica muito al\u00e9m do que seria razo\u00e1vel diante da realidade econ\u00f4mica do pa\u00eds.<\/p>\n<p>Leia mais: <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/politica\/2024\/12\/7017397-senado-aprova-ajuste-fiscal-e-deixa-orcamento-para-o-ano-que-vem.html\">Senado aprova ajuste fiscal e deixa Or\u00e7amento para o ano que vem<\/a><\/p>\n<div class=\"materia-title\">\n<p><strong>Nas entrelinhas<\/strong><em>: todas as colunas no<\/em> <a href=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/\"><strong>Blog do Azedo<\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Assistimos um reality show de populismo e patrimonialismo, cujo resultado foi um grande estresse cambial, com a disparada do d\u00f3lar, que continua acima dos R$ 6 O populismo sustenta-se no trip\u00e9 lideran\u00e7a carism\u00e1tica, promessas al\u00e9m do exequ\u00edvel e cr\u00edticas \u00e0s elites. 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