{"id":997,"date":"2016-11-06T07:20:22","date_gmt":"2016-11-06T09:20:22","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/?p=997"},"modified":"2016-11-06T13:11:49","modified_gmt":"2016-11-06T15:11:49","slug":"nas-entrelinhas-memorias-do-calabouco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/azedo\/nas-entrelinhas-memorias-do-calabouco\/","title":{"rendered":"Nas entrelinhas: Mem\u00f3rias do Calabou\u00e7o"},"content":{"rendered":"<p><em>N\u00e3o \u00e9 justo que uma minoria radicalizada, ocupando as escolas, impe\u00e7a 270 mil estudantes de fazer as provas do Enem<\/em><\/p>\n<p>A comida do Restaurante Central dos Estudantes, no Calabou\u00e7o, Centro do Rio, era ruim, mas quem tinha indigest\u00e3o com o prato feito de 50 centavos era o governo militar. Com a Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) na clandestinidade desde o golpe de 1964, o restaurante era o quartel-general das lutas estudantis. Funcionavam no local um teatro, uma policl\u00ednica e a sede da Uni\u00e3o Metropolitana de Estudantes (UME). Dez mil jovens frequentavam o restaurante, muitos vindos do interior, a maioria vestibulandos que mal tinham onde cair mortos. Habitavam a Casa dos Estudantes e pens\u00f5es baratas nos velhos sobrados do Catete, Gl\u00f3ria, Lapa, Est\u00e1cio, Sa\u00fade e Gamboa, na decadente regi\u00e3o central da cidade.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o inc\u00eandio da UNE, na Praia do Flamengo, restara o local como reduto estudantil. Fora reaberto pelos militares, que fecharam a policl\u00ednica e controlavam o acesso. Mesmo assim, seu enorme sal\u00e3o era tomado por grandes assembleias. Em 1967, o fechamento foi anunciado para dar lugar ao trevo de acesso \u00e0s pistas do Aterro e, principalmente, ao Aeroporto Santos Dumont.<\/p>\n<p>Para apaziguar os estudantes, o ent\u00e3o governador da Guanabara, Negr\u00e3o de Lima (PTB), eleito pela oposi\u00e7\u00e3o, prop\u00f4s a constru\u00e7\u00e3o de um novo restaurante perto do local. Mas os estudantes n\u00e3o aceitaram. O principal protesto foi comer sem pagar em outros locais. O chamado \u201cpendura\u201d infernizou a vida dos \u201cportugas\u201d que controlavam a maioria dos restaurantes do centro da cidade. Em 28 de mar\u00e7o de 1968, por\u00e9m, a Pol\u00edcia Militar, comandada pelo Ex\u00e9rcito, invadiu o Calabou\u00e7o para abortar uma passeata. O secundarista paraense Edson Luiz, 17 anos, era um dos jovens frequentadores do local e morreu com uma bala no cora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Os estudantes resgataram o corpo ensanguentado do jovem e o velaram, organizando um dos maiores enterros da hist\u00f3ria da cidade, que serviria de catalisador da famosa Passeata dos Cem Mil. \u201cMorreu um estudante, poderia ser um filho seu!\u201d, a frase cunhada por Vladimir Palmeira, principal l\u00edder estudantil no Rio, eclodiu no longo trajeto da Avenida Rio Branco at\u00e9 o Cemit\u00e9rio S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, em Botafogo. Artistas, professores, jornalistas e a intelectualidade carioca aderiram em peso aos protestos, que receberam apoio log\u00edstico dos sindicatos.<\/p>\n<p>\u201cS\u00f3 o povo armado derruba a ditadura!\u201d, cantavam os mais radicais. \u201cO povo, unido, jamais ser\u00e1 vencido!\u201d, respondiam os moderados. A ascens\u00e3o do movimento, em vez de unir, dividiu a esquerda. Mesmo assim os militares sentiam-se acuados pela oposi\u00e7\u00e3o e responderam com o AI-5, em 13 de dezembro de 1968, ou seja, com a fascistiza\u00e7\u00e3o do regime. O pretexto era combater a incipiente luta armada dos grupos mais radicais. A mem\u00f3ria dessas manifesta\u00e7\u00f5es, que coincidiram com o Maio de 1968 em Paris e outras cidades, \u00e9 preservada ainda hoje pelos remanescentes daquela gera\u00e7\u00e3o de militantes. Ela acalentou pelo menos mais duas levas de l\u00edderes estudantis \u2014 a que reorganizou a UNE, em 1979, e aqueles que participaram do impeachment do ex-presidente Fernando Collor de Mello, em 1992.<\/p>\n<p>A hist\u00f3ria n\u00e3o se repete, a n\u00e3o ser como farsa ou como trag\u00e9dia, mas muitos marmanjos pensam o contr\u00e1rio e apoiam incondicionalmente a radicaliza\u00e7\u00e3o dos jovens estudantes que hoje ocupam mais de 400 escolas em todo o pa\u00eds. O contexto do movimento \u00e9 completamente diferente: apesar da narrativa do golpe de Estado e do \u201cFora, Temer\u201d, todos sabem que o Brasil \u00e9 uma democracia. Mais de 270 mil estudantes est\u00e3o sendo impedidos de fazer o Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio pelas ocupa\u00e7\u00f5es, que s\u00e3o uma forma de protesto contra a Medida Provis\u00f3ria que prev\u00ea a reforma do ensino m\u00e9dio e a Proposta de Emenda \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o 241, que imp\u00f5e um teto de gastos para o governo. Professores que fazem oposi\u00e7\u00e3o ao governo p\u00f5em pilha nos alunos e l\u00edderes estudantis ligados ao PCdoB, PT, PSol e PSTU tentam controlar e ampliar o movimento.<\/p>\n<p>\u201cEmpoderamento\u201d<\/p>\n<p>Segundo o ministro da Educa\u00e7\u00e3o, Mendon\u00e7a Filho, para garantir a seguran\u00e7a e a integridade dos alunos neste fim de semana, os coordenadores do Enem t\u00eam autonomia suficiente para cancelar as provas, se presenciarem situa\u00e7\u00f5es de conflito. Se houver uma nova ocupa\u00e7\u00e3o em qualquer escola, o estudante que far\u00e1 a prova no local tamb\u00e9m ser\u00e1 liberado. \u201cA gente n\u00e3o vai pedir para a PM ficar dividindo um corredor humano entre aqueles que querem fazer a prova e aqueles que n\u00e3o querem. Seria um alt\u00edssimo risco\u201d, garantiu o ministro, que \u00e9 novo, mas n\u00e3o \u00e9 bobo: j\u00e1 foi governador de Pernambuco. No pa\u00eds inteiro, mais de oito milh\u00f5es de estudantes far\u00e3o as provas, o que deixa o governo em posi\u00e7\u00e3o confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>Entretanto, a insatisfa\u00e7\u00e3o dos jovens \u00e9 grande, em raz\u00e3o das crises \u00e9tica, pol\u00edtica e fiscal, do desemprego e da p\u00e9ssima qualidade do ensino p\u00fablico. Quando a pol\u00edtica vira palavr\u00e3o, o protesto dos jovens \u00e9 uma aposta no exerc\u00edcio de cidadania. A ocupa\u00e7\u00e3o das escolas, a pretexto de \u201cempoderamento\u201d (a palavra da moda) dos estudantes, ao tentar impedir a realiza\u00e7\u00e3o do Enem, por\u00e9m, prejudica os estudantes que dedicaram o ano ao estudo para ter um bom desempenho nas provas. N\u00e3o \u00e9 justo que uma minoria radicalizada impe\u00e7a 270 mil estudantes de fazer o exame. Mais do que uma forma de luta, nessa escala de magnitude, a ocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 um ato de for\u00e7a de um pequeno grupo contra o direito individual da maioria. Onde est\u00e1 a democracia?<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o \u00e9 justo que uma minoria radicalizada, ocupando as escolas, impe\u00e7a 270 mil estudantes de fazer as provas do Enem A comida do Restaurante Central dos Estudantes, no Calabou\u00e7o, Centro do Rio, era ruim, mas quem tinha indigest\u00e3o com o prato feito de 50 centavos era o governo militar. 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