{"id":12539,"date":"2018-08-21T15:48:41","date_gmt":"2018-08-21T18:48:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/?p=12539"},"modified":"2018-08-21T17:15:07","modified_gmt":"2018-08-21T20:15:07","slug":"lava-jato-vai-as-urnas-cheia-de-dedos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/lava-jato-vai-as-urnas-cheia-de-dedos\/","title":{"rendered":"Lava-Jato vai \u00e0s urnas (cheia de dedos)"},"content":{"rendered":"<p>Leonardo Cavalcanti \/\/\u00a0No rastro das investiga\u00e7\u00f5es contra a corrup\u00e7\u00e3o e da crise na seguran\u00e7a p\u00fablica, integrantes de categorias ligadas a corpora\u00e7\u00f5es policiais e aos militares turbinaram a participa\u00e7\u00e3o nas campanhas eleitorais ao Congresso. Em m\u00e9dia, houve um aumento de mais de 20% no n\u00famero de candidatos dessa turma, o que, a partir de cen\u00e1rios para o Legislativo deve representar quase 10 nomes a mais de vitoriosos, se comparados com os de 2014, quando foram eleitos 25 parlamentares, incluindo PMs e delegados civis. Tal proje\u00e7\u00e3o, feita pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) a pedido do Correio, ao mesmo tempo que parece uma boa not\u00edcia para os grupos de servidores, entretanto, \u00e9 vista com preocupa\u00e7\u00e3o por parte de analistas, sindicalistas e oficiais.<br \/>\nA primeira quest\u00e3o \u00e9 que, ao mesmo tempo que h\u00e1 uma expectativa de que parte dos eleitores procure nomes ligados \u00e0 Pol\u00edcia Federal e \u00e0s For\u00e7as Armadas por causa da imagem dessas institui\u00e7\u00f5es, ao longo do tempo, pode ocorrer desgastes a partir da contamina\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. \u201cAs For\u00e7as Armadas vivem numa redoma, que garante a prote\u00e7\u00e3o da imagem. Ao sair dessa redoma em busca de votos, h\u00e1 um risco evidente, a m\u00e9dio prazo\u201d, disse um integrante da c\u00fapula do Minist\u00e9rio da Defesa, que preferiu n\u00e3o se identificar. H\u00e1 quatro anos, dois militares da reserva conseguiram se eleger para a C\u00e2mara: Jair Bolsonaro (RJ), hoje candidato ao Planalto, e o Tenente L\u00facio (MG). Na caserna, os voos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0s urnas s\u00e3o vistos com desconfian\u00e7as, apesar do apoio, principalmente dos militares mais jovens, ao capit\u00e3o presidenci\u00e1vel do PSL.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>S\u00e3o 54 candidatos do Ex\u00e9rcito a vagas na C\u00e2mara. \u201cMuitos deles estimulados pelo debate da corrup\u00e7\u00e3o e da viol\u00eancia\u201d, admite o servidor da Defesa, considerando a dificuldade de tiros mais longos por causa do freio dos partidos pol\u00edticos em rela\u00e7\u00e3o a caras novas, uma reclama\u00e7\u00e3o comum entre representantes de policiais. \u201cA legisla\u00e7\u00e3o eleitoral \u00e9 constru\u00edda pelos pol\u00edticos que est\u00e3o dentro e querem se manter no jogo sem abrir espa\u00e7o para nomes de fora\u201d, diz Edvandir Felix de Paiva, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Delegados de Pol\u00edcia Federal (ADPF), que tamb\u00e9m revela uma resist\u00eancia da pr\u00f3pria classe. \u201cEu mesmo nunca tive a pretens\u00e3o de sair candidato e vejo isso como uma escolha pessoal, pois tem uma exposi\u00e7\u00e3o.\u201d Ao todo, 14 delegados disputam um cargo na C\u00e2mara \u2014 outros quatro tentam os legislativos estaduais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Exposi\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>No caso dos policiais, h\u00e1 um segundo ponto. At\u00e9 onde vai a isen\u00e7\u00e3o de um policial filiado a um partido pol\u00edtico para, ao voltar ao trabalho de investiga\u00e7\u00e3o depois de derrotado nas urnas, assumir uma apura\u00e7\u00e3o contra outra legenda? \u201cAcreditamos que um delegado candidato, por levar o nome da PF e ter compromisso t\u00e1cito com os colegas, carrega uma enorme responsabilidade, que vai funcionar como uma garantia\u201d, antecipa-se Paiva. Nos bastidores das corpora\u00e7\u00f5es, por\u00e9m, o debate sobre a isen\u00e7\u00e3o de um policial candidato ao voltar ao trabalho \u00e9 cada vez mais recorrente. As normas n\u00e3o preveem quarentena ou restri\u00e7\u00f5es para futuras lota\u00e7\u00f5es funcionais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Em 13 de outubro de 2014, em meio \u00e0 campanha presidencial de reelei\u00e7\u00e3o de Dilma Rousseff, o governo editou medida provis\u00f3ria que transformou o cargo de diretor-geral da Pol\u00edcia Federal em fun\u00e7\u00e3o exclusiva de delegados de classe especial, o \u00faltimo n\u00edvel da carreira. A MP, \u00e0 \u00e9poca, foi vista como uma a\u00e7\u00e3o do Planalto para agradar aos delegados, que amea\u00e7avam fazer uma paralisa\u00e7\u00e3o. No dia seguinte, havia uma audi\u00eancia p\u00fablica marcada pelo deputado federal Fernando Francischini (PSL-PR), delegado da PF, que acabou cancelada por falta de qu\u00f3rum. \u201cO governo teve que editar uma MP, porque sabia que hoje ia ser uma pancadaria. Botamos o governo de joelho\u201d, disse Francischini, segundo reportagem da Folha de S.Paulo do dia 14.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u201cUm parlamentar, que \u00e9 delegado e diz ter conseguido colocar o &#8216;governo de joelho&#8217;, deixa exposto um lado. Ao voltar para o trabalho de policial, n\u00e3o vai ter condi\u00e7\u00f5es de desenvolver as fun\u00e7\u00f5es originais com isen\u00e7\u00e3o ao investigar um inimigo pol\u00edtico\u201d, afirma o presidente da Federa\u00e7\u00e3o Nacional dos Policiais Federais (Fenapef), Lu\u00eds Boudens, ao falar de Francischini. Procurado pelo Correio, o deputado que, agora, deve disputar a elei\u00e7\u00e3o para a Assembleia Legislativa, recha\u00e7ou a cr\u00edtica: \u201cAntes de mais nada, eu sou um delegado da PF. Eu estou deputado federal. E se tiver que voltar para a PF, vou desempenhar meu trabalho com total profissionalismo, isen\u00e7\u00e3o e muito orgulho\u201d.<\/p>\n<p>Supremo<\/p>\n<p>Principal apoiador de Bolsonaro no Paran\u00e1, Francischini afirma que \u201cse tiver de investigar e prender pol\u00edticos de partido A ou B n\u00e3o far\u00e1 a menor diferen\u00e7a, porque a atividade de delegado \u00e9 estritamente t\u00e9cnica\u201d. E arremata: \u201cO pa\u00eds espera varrer de uma vez por todas a corrup\u00e7\u00e3o. E farei isso tanto como delegado da PF como parlamentar\u201d. A cr\u00edtica de Boudens aos delegados candidatos, por\u00e9m, parece n\u00e3o se aplicar \u00e0 categoria que ele defende, formada por agentes, escriv\u00e3es e papiloscopistas da Pol\u00edcia Federal. A Fenapef estimula a participa\u00e7\u00e3o dos filiados que, nesta elei\u00e7\u00e3o, apresentam 18 nomes para a C\u00e2mara e tr\u00eas para o Senado. \u201cOs delegados t\u00eam o poder em apontar para algu\u00e9m, tornando, no caso deles, a atividade incompat\u00edvel com a de deputado.\u201d Hoje, h\u00e1 dois representantes da categoria no Congresso, um deles Eduardo Bolsonaro, escriv\u00e3o da PF e filho do presidenci\u00e1vel do PSL.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O debate chega agora na regra de proibi\u00e7\u00e3o de licen\u00e7a para candidaturas, como ocorre com ju\u00edzes e integrantes do Minist\u00e9rio P\u00fablico. Nessas duas categorias, quem quiser se atirar do precip\u00edcio em busca de votos \u00e9 obrigado a abandonar a carreira \u2014 salvo raras exce\u00e7\u00f5es para quem j\u00e1 atuava na pol\u00edtica antes do in\u00edcio dos anos 2000 ou entrou no MP antes da 1988. Para rever a regra, a Associa\u00e7\u00e3o dos Procuradores da Rep\u00fablica (ANPR) entrou com a\u00e7\u00e3o no Supremo Tribunal Federal (STF) questionando a proibi\u00e7\u00e3o de que integrantes do MP exer\u00e7am atividade pol\u00edtico-partid\u00e1rias. \u201cA ideia \u00e9 reabrir o debate, considerando inclusive restri\u00e7\u00f5es, como quarentenas para quem quiser entrar na pol\u00edtica, mas a proibi\u00e7\u00e3o total n\u00e3o bate com o direito internacional\u201d, afirma Jos\u00e9 Robalinho Cavalcanti, presidente da ANPR.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As desconfian\u00e7as entre as atua\u00e7\u00f5es de cada uma das categorias se misturam com o pr\u00f3prio receio de eventuais desgastes para as corpora\u00e7\u00f5es. \u201c\u00c9 algo delicado, e entendo as resist\u00eancias. As pessoas tendem a tratar a pol\u00edtica como algo sujo, e n\u00e3o deveria ser assim\u201d, afirma Marcos Camargo, presidente da Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF). A categoria apresenta cinco candidatos \u00e0 C\u00e2mara. A expectativa \u00e9 de que pelo menos um se eleja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Para Paulo Calmon, diretor do Instituto de Ci\u00eancia Pol\u00edtica da Universidade de Bras\u00edlia (UnB), o grupo de policiais e de militares que disputam as elei\u00e7\u00f5es \u00e9 amplo e diverso, inclusive ideologicamente. \u201cN\u00e3o dava para resumir todos \u00e0 bancada da bala, \u00e9 um erro.\u201d Ou mesmo \u00e0 turma da Lava-Jato. Mas ele considera arriscado o avan\u00e7o do corporativismo na democracia. \u201cNesse processo de defesa de interesses pr\u00f3prios, um grupo silencioso, formado por quem est\u00e1 de fora dos debates, acaba prejudicado, sem representa\u00e7\u00e3o\u201d, diz Calmon. \u201cEssa bancada (de policiais e militares) \u00e9 formada por atores do Estado, n\u00e3o s\u00e3o atores de governo.\u201d<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Leonardo Cavalcanti \/\/\u00a0No rastro das investiga\u00e7\u00f5es contra a corrup\u00e7\u00e3o e da crise na seguran\u00e7a p\u00fablica, integrantes de categorias ligadas a corpora\u00e7\u00f5es policiais e aos militares turbinaram a participa\u00e7\u00e3o nas campanhas eleitorais ao Congresso. 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