{"id":21654,"date":"2021-06-28T06:47:32","date_gmt":"2021-06-28T09:47:32","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/?p=21654"},"modified":"2021-06-28T06:48:43","modified_gmt":"2021-06-28T09:48:43","slug":"carmen-lucia-luto-nao-e-suficiente-para-expor-toda-a-dor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/carmen-lucia-luto-nao-e-suficiente-para-expor-toda-a-dor\/","title":{"rendered":"C\u00e1rmen L\u00facia: \u201cLuto n\u00e3o \u00e9 suficiente para expor toda a dor\u201d"},"content":{"rendered":"<h3>Entrevista \/ C\u00e1rmen L\u00facia, ministra do STF<\/h3>\n<p><strong>por Ana Dubeux<\/strong><\/p>\n<p>A ministra C\u00e1rmen L\u00facia, do Supremo Tribunal Federal (STF), acredita que a pandemia do novo coronav\u00edrus, apesar de toda a dor que a acompanha, traz um momento de reflex\u00f5es profundas e de oportunidade de mudan\u00e7a.<\/p>\n<p>\u201cHouve agora um encontro que estava marcado com a forma de viver que adotamos. A pressa que nunca permitia ter tempo para ouvir o outro, para estar com o outro, um nomadismo que n\u00e3o era para ver e para aprender, mas apenas para andar sem rumo e sem compromisso\u201d, discorre, nesta entrevista \u00e0 coluna.<\/p>\n<p>Respeitando o isolamento e entregue ao home office, que obrigou a mudan\u00e7as significativas, como o aumento da carga de trabalho, ela acredita que \u00e9 imposs\u00edvel ao ser humano n\u00e3o dar uma guinada no modo de ser e de ver as coisas. A pandemia abriu os olhos. \u201cPara os que teimavam em n\u00e3o ver a fome, ela passou a ser dor; para quem negava a viol\u00eancia contra mulheres, crian\u00e7as, negros, o grito dobrou o timbre e mostrou a desigualdade enorme em nossa sociedade. A fome e o desemprego sentaram-se \u00e0 mesa de todos os que t\u00eam olhos para ver e sensibilidade para sentir\u201d, diz.<\/p>\n<p>Para ela, n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que o ser humano n\u00e3o se sinta comprometido com a sa\u00fade e o bem-estar de todos os outros. E, apesar de toda a desola\u00e7\u00e3o do momento, guarda otimismo e esperan\u00e7a: \u201cO impulso de vida \u00e9 mais forte que a dor; e a humana dignidade \u00e9 mais forte que qualquer desumana adversidade. A humanidade constr\u00f3i-se e reconstr\u00f3i-se, n\u00e3o importa a for\u00e7a da corrente destrutiva contr\u00e1ria. E \u00e9 na humanidade que acredito\u201d.<\/p>\n<p><strong>Como a pandemia pode refor\u00e7ar os valores humanistas da sociedade?<\/strong><br \/>\nH\u00e1 que se ter esperan\u00e7a de que os valores da solidariedade e da responsabilidade sobrelevem e passem a fazer parte da vida de todos n\u00f3s e em todos os comportamentos pessoais e sociais. Esse v\u00edrus tem um alt\u00edssimo grau de transmissibilidade. Essa transmissibilidade t\u00e3o elevada acarreta tamb\u00e9m alto n\u00edvel de letalidade. Logo, cada pessoa tem responsabilidade consigo mesma, mas tamb\u00e9m com os outros. Dispondo dessas informa\u00e7\u00f5es, que a imprensa e todos os meios de comunica\u00e7\u00e3o cumpriram a tarefa nobre de divulgar para informar e para ensinar, e, no caso brasileiro, com a trag\u00e9dia de mais de meio milh\u00e3o de mortos e com todos os brasileiros sens\u00edveis e respons\u00e1veis enlutados pela dor de sua perda e da perda dos outros, n\u00e3o \u00e9 aceit\u00e1vel que um ser humano n\u00e3o se sinta comprometido com a sa\u00fade e o bem-estar de todos os outros. E esse compromisso decorre da solidariedade, sem a qual a conviv\u00eancia social n\u00e3o pode ser tida como verdadeiramente civilizada. A dignidade de um conjuga-se com a solidariedade de todos. Cuidado \u00e9 express\u00e3o de bem-querer, mas principalmente de responsabilidade.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 poss\u00edvel ter um olhar po\u00e9tico diante desse momento dif\u00edcil?<\/strong><br \/>\n\u00c9 necess\u00e1rio, por isso n\u00e3o pergunto se \u00e9 poss\u00edvel. Tudo o que se faz necess\u00e1rio h\u00e1 que se tornar poss\u00edvel. O poss\u00edvel acontece de qualquer jeito, de algum jeito. A humanidade p\u00f5e-se pelo olhar al\u00e9m do que se v\u00ea na noite mais escura ou na tarde mais clara. \u00c9 preciso resistir ao vento mais tormentoso e construir a candeia que alumia e aquece, mesmo que tenuemente. Outras luzes nascem da pequena chama de esperan\u00e7a mantida.<\/p>\n<p><strong>O que mudou na sua rotina neste ano de pandemia?<\/strong><br \/>\nMudou a forma de trabalhar e a intensidade do trabalho aumentou muito. O Supremo Tribunal (como todos os \u00f3rg\u00e3os do Judici\u00e1rio) teve de refazer rotinas (passando a adotar o teletrabalho para quase todos os servidores, a fim de garantir o distanciamento social necess\u00e1rio), criar protocolos sanit\u00e1rios e comportamentais para o atendimento dos cidad\u00e3os, dos advogados, do acesso das partes aos ju\u00edzes e aos processos.<br \/>\nA necessidade de atender partes e advogados, por exemplo, passaram a ser quase sempre por videoconfer\u00eancia. As sess\u00f5es do Tribunal tamb\u00e9m. Foi necess\u00e1rio fazer essa adapta\u00e7\u00e3o em casa e nos gabinetes de todos os ju\u00edzes. A mudan\u00e7a foi enorme.<\/p>\n<p>E na vida pessoal, tamb\u00e9m, a mudan\u00e7a n\u00e3o foi pequena. Ao lado de um grau de exig\u00eancia de trabalho maior, sobrevieram as reuni\u00f5es e lives que se multiplicaram. O contato na fam\u00edlia foi limitado pela necessidade de distanciamento e as rela\u00e7\u00f5es afetivas familiares aprenderam os abra\u00e7os virtuais. Mas n\u00e3o h\u00e1 tela \u2014 a mais perfeita \u2014 que substitua o olho humano. N\u00e3o h\u00e1 cobertor que se compare ao calor do abra\u00e7o. Fica a li\u00e7\u00e3o do tanto que precisamos uns dos outros. E como \u00e9 bom estar com os nossos afetos sem deixar sempre tudo para depois.<\/p>\n<p><strong>Como ficam as grandes quest\u00f5es da humanidade durante a pandemia?<\/strong><br \/>\nAcho que apenas ganharam urg\u00eancia maior, relevo em quest\u00f5es que alguns teimavam em n\u00e3o ver. N\u00e3o sei se mudam. Houve agora um encontro que estava marcado com a forma de viver que adotamos. A pressa que nunca permitia ter tempo para ouvir o outro, para estar com o outro. Um nomadismo que n\u00e3o era para ver e para aprender, mas apenas para andar sem rumo e sem compromisso.<br \/>\nO ser humano ficou mais que individualista, muito ego\u00edsta. Para os que teimavam em n\u00e3o ver a fome, ela passou a ser dor; para quem negava a viol\u00eancia contra mulheres, crian\u00e7as, negros, o grito dobrou o timbre e mostrou a desigualdade enorme em nossa sociedade. A fome e o desemprego sentaram-se \u00e0 mesa de todos os que t\u00eam olhos para ver e sensibilidade para sentir.<\/p>\n<p><strong>O momento exige resili\u00eancia e ativismo solid\u00e1rio. Pessoalmente, engajou-se em alguma atividade coletiva a dist\u00e2ncia?<\/strong><br \/>\nMantive as que tinha antes, especialmente em rela\u00e7\u00e3o a mulheres mais vulner\u00e1veis e \u00e0quelas presas ou egressas da pris\u00e3o. Mas aprendi, desde cedo, que a m\u00e3o direita n\u00e3o precisa saber o que a esquerda faz. At\u00e9 porque as pessoas precisam muito mais do que sou capaz de fazer em atividades com os outros.<\/p>\n<p><strong>Que ensinamento este momento nos deixa?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o seria capaz de retirar li\u00e7\u00f5es de uma experi\u00eancia ainda em curso. Mas acho que talvez seja poss\u00edvel vislumbrar a urgente necessidade de repensarmos nossa conviv\u00eancia (acho que, em muitos casos de \u201cdesviv\u00eancia\u201d, se existisse essa palavra). Especialmente, para sermos capazes de pensar, socialmente, formas de contribuir, efetiva e diretamente, para superar as desigualdades que s\u00e3o chagas sociais graves em nosso pa\u00eds e que ficaram mais dolorosamente presentes e agravadas nesta passagem.<\/p>\n<p><strong>Como a senhora vive em Bras\u00edlia depois de mais de tr\u00eas d\u00e9cadas de conviv\u00eancia? Como \u201csente\u201d a cidade?<\/strong><br \/>\nBras\u00edlia \u00e9 uma cidade plural, gente que chega de todos os cantos do Brasil, que se re\u00fane e depois se une e transforma ideias, porque mostra culturas muito diferentes. Tamb\u00e9m uma cidade educada pela forma de sua cria\u00e7\u00e3o (por exemplo, o tr\u00e2nsito, o cidad\u00e3o que assinala, e o carro para) o que \u00e9 exemplar.<\/p>\n<p><strong>Afora o circuito do Poder, quais os cantos e recantos de Bras\u00edlia que a senhora curte?<\/strong><br \/>\nN\u00e3o saio muito. Sou caseira por natureza. Fora o Supremo Tribunal, n\u00e3o ando muito. Antes ia ao Parque da Cidade para caminhadas, mas, com a pandemia, tudo teve de se manter fechado. Fiquei quieta e isolada fisicamente, como era necess\u00e1rio. O que aprecio mesmo \u00e9 receber (ou voltar a receber, quando puder) as pessoas de que gosto em minha casa.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A ministra C\u00e1rmen L\u00facia, do STF, acredita que a pandemia, apesar da dor que a acompanha, traz reflex\u00f5es profundas e de oportunidade de mudan\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"author":118,"featured_media":21655,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"wpb_read_more":[],"footnotes":""},"categories":[184],"tags":[2239,2297,149],"class_list":["post-21654","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-carmen-lucia","tag-pandemia","tag-stf"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21654","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/users\/118"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21654"}],"version-history":[{"count":2,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21654\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21659,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21654\/revisions\/21659"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/media\/21655"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21654"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21654"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21654"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}