{"id":27947,"date":"2025-12-31T03:33:00","date_gmt":"2025-12-31T06:33:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/?p=27947"},"modified":"2025-12-31T03:33:00","modified_gmt":"2025-12-31T06:33:00","slug":"caminho-para-evitar-trafico-de-influencia-no-judiciario-e-a-transparencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/cbpoder\/caminho-para-evitar-trafico-de-influencia-no-judiciario-e-a-transparencia\/","title":{"rendered":"\u201cCaminho para evitar tr\u00e1fico de influ\u00eancia no Judici\u00e1rio \u00e9 a transpar\u00eancia\u201d"},"content":{"rendered":"<h4>ANA MARIA CAMPOS\/EIXO CAPITAL<\/h4>\n<p>Diante do debate sobre a conduta de magistrados, a coluna Eixo Capital ouviu especialista em direito processual penal sobre como evitar que a proximidade e o conv\u00edvio social na comiss\u00e3o jur\u00eddica acabe se tornando um meio de lobby que outros atores do processo n\u00e3o t\u00eam acesso. O criminalista Th\u00falio Guilherme Nogueira, doutorando em direito processual penal pela USP, mestre em direito processual pela PUC Minas, falou sobre o assunto com o <strong>Correio<\/strong>:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<blockquote><p>O que fere a integridade n\u00e3o \u00e9 a presen\u00e7a do magistrado na sociedade, mas a aus\u00eancia da mesma abertura de di\u00e1logo para todos os atores do processo.<\/p><\/blockquote>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>Acha necess\u00e1ria a cria\u00e7\u00e3o de um C\u00f3digo de \u00c9tica para magistrados? Por qu\u00ea?<\/strong><br \/>\nA \u00e9tica \u00e9 sempre necess\u00e1ria, mas c\u00f3digos de conduta n\u00e3o operam milagres. A iniciativa \u00e9 louv\u00e1vel no papel, mas no Brasil temos um v\u00edcio at\u00e1vico de acreditar que problemas culturais profundos se resolvem apenas importando leis estrangeiras. O risco \u00e9 criarmos uma &#8220;\u00e9tica de vitrine&#8221;: um texto retoricamente belo, inspirado em uma Alemanha luterana e distante, que n\u00e3o resiste ao calor da nossa realidade patrimonialista. Precisamos de \u00e9tica na pr\u00e1tica, n\u00e3o apenas de manuais que servem como &#8220;biombos&#8221; para evitar discuss\u00f5es mais profundas sobre o poder.<\/p>\n<p><strong>Como estabelecer limites sendo \u00e9tica um conceito que leva em conta padr\u00f5es morais?<\/strong><br \/>\nA \u00e9tica p\u00fablica n\u00e3o deve ser confundida com um projeto de perfei\u00e7\u00e3o moral individual; ela \u00e9, essencialmente, um mecanismo de autoconten\u00e7\u00e3o do poder. O limite \u00e9tico n\u00e3o reside na subjetividade do magistrado, mas na estrita observ\u00e2ncia da lei e da paridade de armas. \u00c9 um erro crer que a \u00e9tica nasce do isolamento em uma &#8216;torre de marfim&#8217;. Pelo contr\u00e1rio: uma regra moral que apenas blinda o juiz do contato social pode ferir o princ\u00edpio democr\u00e1tico da acessibilidade. O verdadeiro limite \u00e9tico deve ser a garantia objetiva da imparcialidade. O magistrado goza de liberdade em sua esfera privada, desde que preserve a equidist\u00e2ncia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s partes. \u00c9tica, na magistratura, traduz-se no dever de dispensar o mesmo tempo, o mesmo acesso e a mesma aten\u00e7\u00e3o a todos os atores do processo, independentemente de sobrenome, influ\u00eancia ou prest\u00edgio. Em \u00faltima an\u00e1lise, a \u00e9tica serve para assegurar que o julgamento seja fruto exclusivo da dial\u00e9tica processual, e n\u00e3o de assimetrias constru\u00eddas fora dos autos.<\/p>\n<p><strong>\u00c9 certo que h\u00e1 alguns conflitos evidentes entre interesses de c\u00f4njuges e outros parentes com o trabalho do magistrado. Precisa colocar isso no papel?<\/strong><\/p>\n<p>A resposta exige equil\u00edbrio entre o pragmatismo e o rigor \u00e9tico. Por um lado, o recente julgamento do STF na ADI 5953 foi corret\u00edssimo ao derrubar o impedimento &#8216;por tabela&#8217; (Art. 144, VIII do CPC). N\u00e3o se pode exigir que um magistrado seja onisciente sobre a carteira sigilosa de clientes de um parente; a \u00e9tica n\u00e3o pode impor o imposs\u00edvel, sob pena de gerar inseguran\u00e7a jur\u00eddica e permitir que as partes manipulem a escolha dos ju\u00edzes. Contudo, n\u00e3o podemos cair no extremo oposto do &#8216;vale-tudo&#8217;. \u00c9 inadmiss\u00edvel ignorar que, em muitos casos, escrit\u00f3rios s\u00e3o contratados n\u00e3o pelo brilho das teses, mas pelo &#8216;brilho&#8217; do sobrenome ou pelo acesso privilegiado que ostentam. Portanto, colocar no papel \u00e9 necess\u00e1rio, mas o foco deve mudar: em vez de tentarmos proibir o imponder\u00e1vel, devemos punir o desvio de finalidade. A \u00e9tica deve atuar onde a influ\u00eancia vira mercadoria. Se a contrata\u00e7\u00e3o de um parente visa apenas capturar a vontade e influ\u00eancia do julgador, estamos diante de um problema que ultrapassa a etiqueta e entra no campo da integridade institucional. Enfim, a solu\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 criar impedimentos cegos que inviabilizam a Justi\u00e7a, mas fortalecer mecanismos que identifiquem e sancionem o uso do parentesco como atalho para o \u00eaxito judicial<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>At\u00e9 que ponto a vida privada do magistrado deveria ser alcan\u00e7ada pelo C\u00f3digo de \u00c9tica?<\/strong><\/p>\n<p>A privacidade do magistrado \u00e9 um direito, mas a credibilidade da fun\u00e7\u00e3o \u00e9 um dever. O magistrado n\u00e3o \u00e9 um monge enclausurado, e tentar impor-lhe um &#8216;distanciamento ass\u00e9ptico&#8217; \u00e9 um erro que o descola da realidade social que ele tem o dever de julgar. Contudo, o exerc\u00edcio da jurisdi\u00e7\u00e3o imp\u00f5e uma etiqueta de poder e um \u00f4nus de exemplaridade. A vida privada passa a interessar ao Direito e \u00e0 \u00e9tica no exato momento em que ela transborda para a esfera p\u00fablica, comprometendo a apar\u00eancia de imparcialidade ou criando atalhos de influ\u00eancia. O problema n\u00e3o \u00e9 o magistrado frequentar ambientes sociais, mas o risco de esses espa\u00e7os se tornarem balc\u00f5es de neg\u00f3cios ou zonas de acesso privilegiado, inacess\u00edveis ao balc\u00e3o do f\u00f3rum. Portanto, o C\u00f3digo n\u00e3o deve policiar a intimidade, mas sim o conflito de interesses. A \u00e9tica deve garantir que o prest\u00edgio do cargo n\u00e3o seja convertido em capital privado ou pol\u00edtico. O term\u00f4metro \u00e9 a confian\u00e7a p\u00fablica: se um ato da vida privada permite que o cidad\u00e3o comum duvide, com raz\u00e3o, da equidist\u00e2ncia do juiz, a fronteira \u00e9tica foi rompida. Em suma, o magistrado tem o direito \u00e0 sua individualidade, mas tem o dever funcional de n\u00e3o permitir que ela se converta em um privil\u00e9gio processual.<\/p>\n<p><strong>O ministro Edson Fachin se orienta no C\u00f3digo de \u00c9tica alem\u00e3o. Quais s\u00e3o os principais fundamentos?<\/strong><\/p>\n<p>O modelo alem\u00e3o \u00e9 centrado na doutrina da autoconten\u00e7\u00e3o (judicial restraint) e na transpar\u00eancia absoluta de v\u00ednculos. Seus fundamentos residem na regula\u00e7\u00e3o rigorosa de recep\u00e7\u00e3o de vantagens, na publicidade de atividades extrajudiciais e em quarentenas estritas para o p\u00f3s-carreira. Contudo, a base alem\u00e3 \u00e9 deontol\u00f3gica: ela opera em uma sociedade de cultura luterana, onde a norma \u00e9tica possui uma for\u00e7a org\u00e2nica de cumprimento. Tentar transplantar essa &#8216;Alemanha cinza&#8217; para a complexidade do &#8216;Brasil solar&#8217; e patrimonialista, sem ajustar os mecanismos de san\u00e7\u00e3o, \u00e9 um erro de perspectiva. O risco do transplante jur\u00eddico \u00e9 focar na est\u00e9tica da norma \u2014 a &#8216;vitrine&#8217; \u2014 e ignorar o ecossistema onde ela ser\u00e1 aplicada. Sem enfrentar a hipertrofia do Judici\u00e1rio e o sistema de freios e contrapesos, o c\u00f3digo inspirado na Alemanha corre o risco de ser apenas uma tradu\u00e7\u00e3o elegante de uma realidade que n\u00e3o nos pertence.<\/p>\n<p><strong>Hoje em dia ministros de tribunais superiores convivem em eventos, jantares e festas com advogados de processos que tramitam na Justi\u00e7a e at\u00e9 com os pr\u00f3prios r\u00e9us. Isso \u00e9 \u00e9tico?<\/strong><br \/>\nA \u00e9tica n\u00e3o reside no isolamento social, mas na equidade de acesso. O que \u00e9 profundamente problem\u00e1tico n\u00e3o \u00e9 o encontro em si, mas a assimetria que ele revela. Existe hoje uma &#8216;aristocracia do acesso&#8217; que separa o advogado com timbre consagrado do jovem profissional de balc\u00e3o, e ambos em rela\u00e7\u00e3o ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, que historicamente goza de uma proximidade f\u00edsica e institucional com a magistratura. O conv\u00edvio s\u00f3 deixa de ser \u00e9tico quando se transforma em um filtro de exclusividade. \u00c9 inaceit\u00e1vel que o di\u00e1logo t\u00e9cnico flua em jantares fechados, enquanto o gabinete permanece blindado sob o pretexto de um &#8216;distanciamento ass\u00e9ptico&#8217;. A \u00e9tica deve servir para democratizar a voz das partes, n\u00e3o para criar zonas de influ\u00eancia inacess\u00edveis ao cidad\u00e3o comum. O que fere a integridade n\u00e3o \u00e9 a presen\u00e7a do magistrado na sociedade, mas a aus\u00eancia da mesma abertura de di\u00e1logo para todos os atores do processo.<\/p>\n<p><strong>Como seria poss\u00edvel impedir esse conv\u00edvio?<\/strong><\/p>\n<p>Impedir o conv\u00edvio em uma democracia \u00e9 uma pretens\u00e3o irreal e, sob certo aspecto, autorit\u00e1ria. O foco n\u00e3o deve ser a interdi\u00e7\u00e3o do encontro, mas a neutraliza\u00e7\u00e3o do privil\u00e9gio. A solu\u00e7\u00e3o para o lobby n\u00e3o \u00e9 o isolamento em torres de marfim, mas a transpar\u00eancia e a paridade de armas. Se um magistrado tem tempo para a vida social com grandes litigantes, ele deve ter, por dever de of\u00edcio, a mesma disponibilidade para o despacho t\u00e9cnico em seu gabinete com qualquer advogado. Em vez de tentarmos criar muros f\u00edsicos imposs\u00edveis de policiar, devemos fortalecer a publicidade do acesso. A \u00e9tica judicial moderna deve garantir que o &#8216;balc\u00e3o do f\u00f3rum&#8217; tenha a mesma for\u00e7a e efic\u00e1cia que o &#8216;sal\u00e3o de jantar&#8217;. O combate ao acesso privilegiado se faz com luz, n\u00e3o com sombras. A verdadeira \u00e9tica \u00e9 aquela que assegura que o destino de um processo seja decidido pela for\u00e7a das teses, e n\u00e3o pela proximidade dos brindes.&#8221;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ANA MARIA CAMPOS\/EIXO CAPITAL Diante do debate sobre a conduta de magistrados, a coluna Eixo Capital ouviu especialista em direito processual penal sobre como evitar que a proximidade e o conv\u00edvio social na comiss\u00e3o jur\u00eddica acabe se tornando um meio de lobby que outros atores do processo n\u00e3o t\u00eam acesso. 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