{"id":340,"date":"2021-07-22T07:00:40","date_gmt":"2021-07-22T10:00:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=340"},"modified":"2021-07-23T08:29:22","modified_gmt":"2021-07-23T11:29:22","slug":"quando-o-cuidar-sera-masculino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/07\/22\/quando-o-cuidar-sera-masculino\/","title":{"rendered":"Quando o cuidar ser\u00e1 masculino?"},"content":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Segundo o IBGE (2019), no Brasil 96% da atividade do cuidado \u00e9 desempenhado por mulheres. Mas, ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, isso n\u00e3o ocorre de forma natural, apesar de ter sido naturalizado.<\/p>\n<p>Historicamente o trabalho de cuidar foi imposto como uma responsabilidade das mulheres, proibidas de estudar e trabalhar at\u00e9 o s\u00e9culo XIX.\u00a0Desde cedo, meninas foram (e ainda s\u00e3o) estimuladas ao cuidado. Todos os presentes levam ao cuidado: bonecas, casinhas, materiais de limpeza, comidinhas. Anos de treino at\u00e9\u00a0 as adolescentes e mulheres considerarem\u00a0 &#8220;natural&#8221; o cuidado.<\/p>\n<p>No Brasil,\u00a0 as mulheres s\u00f3 puderam trabalhar sem ter de pedir autoriza\u00e7\u00e3o para o marido, para o pai ou o irm\u00e3o mais velho a partir da Constitui\u00e7\u00e3o de 1962. At\u00e9 ent\u00e3o, at\u00e9 mesmo para viajar elas precisavam de autoriza\u00e7\u00e3o do marido, assim como para abrir uma conta no banco.<\/p>\n<p>Quando conseguiram estudar, foram estimuladas a fazer Pedagogia, Enfermagem,\u00a0 Servi\u00e7o Social, Nutri\u00e7\u00e3o, entre outras atividades de apoio e cuidado.\u00a0 Ainda hoje s\u00e3o pouco estimuladas a fazer Engenharia, F\u00edsica ou Ci\u00eancias da Terra.<\/p>\n<p>No n\u00edvel m\u00e9dio, elas\u00a0 est\u00e3o presentes no cuidado profissional das fam\u00edlias, desde o\u00a0 beb\u00ea, os doentes e\u00a0 os idosos. Est\u00e3o\u00a0 nas creches, nas institui\u00e7\u00f5es de longa perman\u00eancia para idosos (ILPIs) e nos servi\u00e7os profissionais de limpeza e alimenta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>J\u00e1 os homens, em sua maioria, tem sido educados para receber cuidado. N\u00e3o \u00e9 por acaso que representem apenas 4% da atividade de cuidado, seja familiar ou profissional.<\/p>\n<p>Algumas pessoas ainda se surpreendem quando um homem assume ser cuidador da companheira, da m\u00e3e ou av\u00f3. Em muitos casos,\u00a0 foram homens criados por mulheres como chefe de fam\u00edlia ou em fam\u00edlias com muitas mulheres, sejam irm\u00e3s, tias, av\u00f3s ou primas onde a atividade de cuidar era compartilhada.<\/p>\n<p>O ator Alexandre Borges agitou as redes sociais ao se declarar cuidador da m\u00e3e com Alzheimer em recente entrevista a Ana Maria Braga. Um homem que assume dar banho e trocar fraldas infelizmente ainda causa espanto. At\u00e9 mesmo \u00e0s mulheres,\u00a0 pouco acostumadas a estimular o cuidado em meninos, adolescentes ou homens.<\/p>\n<p>As novas gera\u00e7\u00f5es parecem ter algo a ensinar a homens adultos e idosos, principalmente para aqueles que acreditam que cuidar &#8220;\u00e9 coisa de mulher&#8221;.<\/p>\n<p>Um exemplo \u00e9 o\u00a0 jovem Fernando Aguzolli, acostumado a lidar com a sua av\u00f3 Nilva, que tinha dem\u00eancia.\u00a0Driblar a resist\u00eancia do banho da av\u00f3 entrando com ela no chuveiro foi apenas uma de suas aventuras,\u00a0\u00a0\u00a0compartilhadas no perfil <a href=\"https:\/\/pt-br.facebook.com\/vovonilva\/\">Vov\u00f3 Nilva<\/a> do Facebook.<\/p>\n<p>O bom humor e desprendimento do jovem renderam o livro &#8220;Quem, eu? Um neto. Uma av\u00f3. Uma li\u00e7\u00e3o de vida&#8221;, pela Editora Belas Artes.\u00a0A atitude do Fernando, que deixou a faculdade para ajudar a av\u00f3,\u00a0 ajuda a reduzir preconceitos sobre as dem\u00eancias, sobre cuidado e g\u00eanero.<\/p>\n<p>Na mesma sintonia, um dos irm\u00e3os da Carmem ( nome fict\u00edcio), que mora em Bras\u00edlia,\u00a0 deixa uma sunga na casa da irm\u00e3 cuidadora para dar\u00a0 banho da m\u00e3e, diagnosticada com Alzheimer.<\/p>\n<p>Os mais jovens parecem ter maior facilidade em lidar com os tabus do corpo. N\u00e3o ficam t\u00e3o preocupados em ver a m\u00e3e ou av\u00f3\u00a0 nua e desprotegida. Est\u00e3o ali para acolher, sem se prender a preconceitos. Por outro lado,\u00a0\u00a0boa parte dos homens adultos e idosos se envergonham do corpo que lhes trouxe a vida ou embalou, principalmente na hora do banho e nas trocas de fraldas geri\u00e1tricas.<\/p>\n<p>Os exemplos citados s\u00e3o ainda raros, mesmo fora do\u00a0 Brasil. Mas podem\u00a0 contribuir para mudar o desequil\u00edbrio existente. A responsabilidade do cuidado \u00e9 de toda fam\u00edlia, independente de g\u00eanero.<\/p>\n<p>Uma iniciativa do governo japon\u00eas levou ao aumento\u00a0 da participa\u00e7\u00e3o masculina no contingente de cuidadoras profissionais. Com est\u00edmulo financeiro \u00e0 capacita\u00e7\u00e3o para o cuidado e oferta de emprego nas institui\u00e7\u00f5es de longa perman\u00eancia para idosos, 40% das equipes passaram a integradas por homens.<\/p>\n<p>Aqui a profiss\u00e3o de cuidador\/a, ainda n\u00e3o reconhecida, cresceu 547%,\u00a0 segundo dados do final de 2018 do antigo Minist\u00e9rio do Trabalho. A experi\u00eancia japonesa pode ser multiplicada\u00a0 no\u00a0 Brasil, um pa\u00eds que envelhece rapidamente em meio a um cen\u00e1rio de desemprego.<\/p>\n<p>Dentro de casa, tamb\u00e9m\u00a0 \u00e9 preciso mudan\u00e7a. Meninos merecem aprender a cuidar desde cedo, como as meninas.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Segundo o IBGE (2019), no Brasil 96% da atividade do cuidado \u00e9 desempenhado por mulheres. Mas, ao contr\u00e1rio do que muitos pensam, isso n\u00e3o ocorre de forma natural, apesar de ter sido naturalizado. 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