{"id":3846,"date":"2026-02-27T08:28:08","date_gmt":"2026-02-27T11:28:08","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=3846"},"modified":"2026-02-27T08:28:08","modified_gmt":"2026-02-27T11:28:08","slug":"quando-a-demencia-bate-na-porta","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2026\/02\/27\/quando-a-demencia-bate-na-porta\/","title":{"rendered":"Quando a Dem\u00eancia Bate na Porta"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left\">Cosette Castro<\/p>\n<p>Bras\u00edlia \u2013 N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil identificar os primeiros sinais de dem\u00eancia. Ainda mais em um pa\u00eds sem campanhas p\u00fablicas nacionais sobre o tema.<\/p>\n<p>O envelhecimento costuma escamotear os primeiros sinais das dem\u00eancias, s\u00edndromes neurodegenerativas progressivas e ainda sem cura. O preconceito e a falta de informa\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>O familiar pode estar esquecendo atividades b\u00e1sicas que dominava (datas, vestimenta, uso de senhas, do cart\u00e3o). Ou mudando de comportamento. Mas, em geral, a primeira rea\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia \u00e9 colocar a responsabilidade na idade.<\/p>\n<p>Trata-se de falta de conhecimento e informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m \u00e9 preconceito por idade. Preconceito conhecido por idadismo, etarismo, age\u00edsmo, ou velhofobia.<\/p>\n<p>Isso faz com que os ind\u00edcios de uma poss\u00edvel perda cognitiva ou de dem\u00eancia sejam minimizados e colocados de lado. Em muitos casos, parte da fam\u00edlia se nega a aceitar que h\u00e1 algo errado.<\/p>\n<p>Mesmo quando h\u00e1 sinais que deveriam acender uma luz de alerta. Entre eles, esquecimentos de situa\u00e7\u00f5es recentes, objetos que s\u00e3o guardados em locais estranhos, mudan\u00e7as repentinas de humor ou de comportamento.<\/p>\n<p>H\u00e1 sinais diferentes para cada caso. Isso ocorre porque h\u00e1 diferentes tipos de velhices e de hist\u00f3rias de vida. E diferentes tipos de dem\u00eancias. A mais conhecida \u00e9 o Alzheimer.<\/p>\n<p>O que pouca gente sabe \u00e9 que existe, em 6% dos casos, a Dem\u00eancia Precoce, que atinge pessoas com 38, 40 anos. Ou seja, as dem\u00eancias n\u00e3o acontecem apenas depois dos 60 anos, como aponta o Relat\u00f3rio Nacional de Dem\u00eancias de 2024.<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas que, depois de desenvolverem algum tipo de dem\u00eancia, ficam mais ansiosas. Outras, mais agitadas e at\u00e9 violentas. Ou ainda podem ficar alheias ao que ocorre ao seu redor.<\/p>\n<p>O familiar pode passar o dia perguntando ou comentando repetidamente sobre os mesmos temas, sem se dar conta que j\u00e1 falou sobre isso anteriormente. Alguns familiares podem pensar que \u00e9 s\u00f3 \u201cchatice de gente velha\u201d, que \u201cn\u00e3o tem o que fazer\u201d.\u00a0 Mas \u00e0s vezes, \u00e9 muito mais do que solid\u00e3o e falta de aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No caso de familiares independentes, como profissionais que viajavam muito, \u00e9 poss\u00edvel que comecem a arrumar a mala com uma semana de anteced\u00eancia. Mas esque\u00e7am itens b\u00e1sicos, como calcinhas,\u00a0 cuecas escova e pasta de dentes.<\/p>\n<p>Pode ser que levem na viagem vestimentas inadequadas ao clima. Ou muitas blusas e nenhuma cal\u00e7a. Ou seja, h\u00e1 um comprometimento no planejamento que indica que o familiar precisa de ajuda. E muita aten\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem, ainda sem diagn\u00f3stico, se negue a levar o celular em uma viagem para \u201cn\u00e3o ser controlada\u201d. Ou desligue o telefone na viagem, causando preocupa\u00e7\u00e3o \u00e0 fam\u00edlia e \u00e0s pessoas que viajam juntas.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem chegue ao aeroporto de madrugada para uma viagem na hora do almo\u00e7o, com receio de perder o v\u00f4o. E h\u00e1 quem se esque\u00e7a da viagem. Esquecimentos podem levar a atos repetitivos como a compra de v\u00e1rias passagens a\u00e9reas sem utilizar.<\/p>\n<p>Ou ir a consultas m\u00e9dicas e repetir os exames sem buscar resultado. Outra possibilidade \u00e9 a pessoa fazer exames como ultrassonografia e Holter a cada dois, tr\u00eas\u00a0 meses. Por isso, \u00e9 importante que os familiares tenham companhia na hora de ir a consultas e fazer exames.<\/p>\n<p>Pacientes com dem\u00eancia ainda sem diagn\u00f3stico, ou em est\u00e1gio inicial, muitas vezes desenvolvem estrat\u00e9gias para disfar\u00e7ar suas fragilidades. Isso pode dificultar a percep\u00e7\u00e3o de que algo est\u00e1 errado.<\/p>\n<p>Entre pacientes, principalmente aqueles com maior n\u00edvel educacional, o que se tornou dif\u00edcil de executar passa a ser contornado, considerado chato at\u00e9 ser deixado de lado. Exemplos: alimenta\u00e7\u00e3o que passa a ser feita s\u00f3 fora de casa. Deixar de usar redes sociais porque n\u00e3o lembra mais como fazer. Ou abandonar um hobby.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem se perca dirigindo. H\u00e1 quem esque\u00e7a para onde estava indo ou como voltar.\u00a0\u00a0Outros se perdem no trajeto do \u00f4nibus que fizeram a vida toda, especialmente no caso de pessoas idosas que moram no mesmo bairro.<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 incomum a pessoa se perder na rua ou at\u00e9 mesmo dentro de casa, sem reconhecer m\u00f3veis ou objetos que, muitas vezes, elas e eles mesmos compraram.<\/p>\n<p>No mundo, a cada tr\u00eas segundos, uma pessoa \u00e9 diagnosticada com Alzheimer ou outros tipos de dem\u00eancias. E a tend\u00eancia do n\u00famero de casos \u00e9 aumentar. Ainda mais em pa\u00edses em desenvolvimento como o Brasil, com tanta desigualdade social.<\/p>\n<p>No Distrito Federal, por exemplo, os diagn\u00f3sticos\u00a0 na sa\u00fade p\u00fablica demoram cerca de 03 ou 04 anos\u00a0 e de 02 a 03 anos na sa\u00fade privada, como aponta estudo do IPE-DF,\u00a0\u00a0de 2022.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso\u00a0 muita informa\u00e7\u00e3o e campanhas nacionais para as fam\u00edlias acreditarem que, sim, pode ser perda cognitiva ou dem\u00eancia. E que pode acontecer antes dos 60 anos.<\/p>\n<p>PS: Este texto foi publicado em 2021 sendo atualizado para est\u00e1 edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cosette Castro Bras\u00edlia \u2013 N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil identificar os primeiros sinais de dem\u00eancia. Ainda mais em um pa\u00eds sem campanhas p\u00fablicas nacionais sobre o tema. 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