{"id":68,"date":"2021-03-12T07:00:02","date_gmt":"2021-03-12T10:00:02","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=68"},"modified":"2021-03-12T13:10:10","modified_gmt":"2021-03-12T16:10:10","slug":"sextou-e-uma-expressao-que-nao-existe-para-cuidadoras-familiares","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/03\/12\/sextou-e-uma-expressao-que-nao-existe-para-cuidadoras-familiares\/","title":{"rendered":"#Sextou n\u00e3o existe para cuidadoras familiares"},"content":{"rendered":"<p><strong>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/strong><\/p>\n<p>Bras\u00edlia &#8211; Em tempos de pandemia, a hashtag\u00a0<em>sextou<\/em> perdeu o\u00a0\u00a0 sentido para \u00a0as pessoas que t\u00eam amor \u00e0 vida e sabem os riscos do Covid-19 e suas variantes. Para cuidadoras e cuidadores familiares \u00a0a express\u00e3o\u00a0<em>sextou<\/em> \u00a0sequer existe, pois o fim-de-semana costuma ser pesado, solit\u00e1rio e de muito trabalho.<\/p>\n<p>Quem n\u00e3o pode contar com outro familiar ou com cuidadora profissional para ter um al\u00edvio no final da semana, sabe que n\u00e3o h\u00e1 folga.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso aproveitar o s\u00e1bado e domingo (principalmente se a pessoa que cuida\u00a0 tamb\u00e9m trabalhar fora de casa) para comprar rem\u00e9dio, ir ao supermercado, lavar, estender e passar roupa, preparar comida, limpar casa. E, claro, cuidar de um ou mais familiares, que podem pertencer a diferentes gera\u00e7\u00f5es &#8211; \u00a0de crian\u00e7as,\u00a0 a idosos ou enfermos. Ufaa!<\/p>\n<p>Por um bom tempo \u2013 muito antes de nos conhecermos &#8211; \u00a0trabalh\u00e1vamos durante a semana e viaj\u00e1vamos no fim-de-semana. Uma fazendo o trajeto \u00a0S\u00e3o Paulo &#8211; Bras\u00edlia (Ana) ou Bras\u00edlia &#8211; \u00a0Porto Alegre (Cosette) \u00a0para atender as m\u00e3es, \u00a0ambas com diagn\u00f3stico de Alzheimer. A ideia era garantir que elas pudessem viver o m\u00e1ximo poss\u00edvel em suas casas.<\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o era uma visita id\u00edlica, de turismo ou pra se divertir. Eram visitas para pagar contas, resolver problemas com as\u00a0 cuidadoras da semana (ou com familiares), prover alimentos e rem\u00e9dios. N\u00e3o havia descanso nem a remota possibilidade de dormir at\u00e9 mais tarde. E muitas vezes, o fim-de-semana era estendido para\u00a0 conseguir conversar com m\u00e9dicos e outros profissionais.<\/p>\n<p>Mas isso n\u00e3o era o mais pesado. O mais dif\u00edcil era a solid\u00e3o.<\/p>\n<p>N\u00e3o havia cuidadoras nem cuidadores \u00a0no final de semana em Bras\u00edlia ou nas viagens a Porto Alegre . A responsabilidade ca\u00eda sobre n\u00f3s. Quase n\u00e3o receb\u00edamos visitas, porque era um trabalho a mais, desde pensar a comida at\u00e9 a limpeza, sem contar o cansa\u00e7o e a poss\u00edvel\u00a0 irrita\u00e7\u00e3o de um paciente com Alzheimer com barulhos, risadas e tons de voz alterados.<\/p>\n<p>Os encontros em geral aconteciam fora de casa tanto em Bras\u00edlia como em Porto Alegre.\u00a0 Podiam ser\u00a0 caminhadas no sol, uma visita ao caf\u00e9 ao lado de casa, um piquenique no jardim ou no parque. \u00a0De prefer\u00eancia a \u00a0tarde, com direito a \u00a0lanchinho, picol\u00e9, pipoca ou\u00a0 p\u00e3o de queijo.<\/p>\n<p>Visitas r\u00e1pidas ao shopping para lanchar tamb\u00e9m deram certo por um bom tempo em Porto Alegre e em Bras\u00edlia, mas\u00a0 o avan\u00e7o do Alzheimer acabou por tirar o sentido do passeio, assim como ir ao cinema,\u00a0 que ficava assustadoramente\u00a0 escuro;\u00a0 tentar acompanhar um espet\u00e1culo musical ou de teatro. Ou mesmo assistir uma mostra de arte.<\/p>\n<p>Na agenda, adaptada a rotina de pacientes com dem\u00eancias, nada de visitas a noite, nem jantares. Pessoas com dem\u00eancias cansam r\u00e1pido, se irritam, estranham\u00a0 e precisam manter suas rotinas. Com a rotina, elas ficam (relativamente) tranquilas e quem cuida, \u00a0tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>Uma das coisas que mais dava certo nesses s\u00e1bados e domingos era a m\u00fasica. No caso da Normita, \u00a0em Bras\u00edlia, v\u00eddeos de m\u00fasica com direito a sess\u00e3o de\u00a0 pipoca e dan\u00e7a at\u00e9 os 84 anos (isso que n\u00e3o existia\u00a0<em>Spotify\u00a0<\/em>e era demorado fazer <em>playlists<\/em>).<\/p>\n<p>No caso da Carmencita, primeiro em Porto Alegre e depois em Bras\u00edlia, \u00a0a m\u00fasica foi importante e as cole\u00e7\u00f5es de CDs ajudaram, \u00a0mas n\u00e3o podia se alongar muito tempo porque passava a ser ru\u00eddo e ela se incomodava. Dan\u00e7a, s\u00f3 alguns minutos em alguma festa especial.<\/p>\n<p>E voc\u00ea,\u00a0 aproveita pelo menos uma hora do dia para ouvir m\u00fasica com seu familiar?<\/p>\n<p>A m\u00fasica \u00e9 a \u00faltima mem\u00f3ria a ser perdida em pacientes com Alzheimer. \u00c9 saud\u00e1vel\u00a0 estimular essas mem\u00f3rias a partir dos\u00a0 diferentes ritmos\u00a0 musicais \u00a0levando em conta \u00a0a hist\u00f3ria pessoal da\/o familiar.<\/p>\n<p>Uma\u00a0 ideia \u00e9\u00a0 estimular a cantoria de m\u00fasicas antigas. Ou\u00a0 m\u00fasicas dan\u00e7\u00e1veis, caso elas ou eles gostem e tenham possibilidade de se mexer\u00a0 mesmo de forma restrita: cabe\u00e7a,\u00a0 bra\u00e7os ou m\u00e3os. Ou simplesmente ficar\u00a0 escutando o ritmo fluir pelo corpo. N\u00e3o existe uma \u00fanica f\u00f3rmula de partilhar a m\u00fasica; cada pessoa tem personalidade, gostos e temporalidades diferenciadas.<\/p>\n<p>Momentos musicais tamb\u00e9m \u00a0podem ser divertidos e\u00a0 fazer bem para quem cuida de um (ou mais) familiares.<\/p>\n<p>J\u00e1 imaginou quantas lembran\u00e7as podem vir a tona ao selecionar <em>playlists<\/em> com m\u00fasicas da \u00a0sua inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia? \u00a0J\u00e1 pensou\u00a0 cantar e dan\u00e7ar na frente da pessoa querida \u00a0com plumas e paet\u00eas, com fantasia,\u00a0 ou saltitando, s\u00f3 pra rir a toa e \u00a0fazer palha\u00e7ada?<\/p>\n<p>Sugerimos ainda aproveitar uma hora do dia s\u00f3 para voc\u00ea.<\/p>\n<p>Se der para ver o p\u00f4r-do-sol, \u00f3timo. Mas tamb\u00e9m vale um banho demorado, daqueles que aliviam dores no corpo.<\/p>\n<p>Ou a noite, quando o sil\u00eancio chegar, aproveite para chamar \u2013 virtualmente &#8211; \u00a0uma pessoa querida pra beber algo, contar hist\u00f3rias, chorar, rir,\u00a0 cantar ou dan\u00e7ar. Tamb\u00e9m d\u00e1 para\u00a0 compartilhar m\u00fasicas antigas ou a dica musical mais recente que voc\u00ea recebeu.<\/p>\n<p>Se por acaso voc\u00ea tiver muito cansada, aproveite as m\u00fasicas de medita\u00e7\u00e3o, com sons da natureza, para simplesmente desfrutar (ainda que por pouco tempo) a cama.<\/p>\n<p>PS1: Que tal fazer uma nova experi\u00eancia? Participar de aulas de canto, mesmo que acredite que n\u00e3o tenha \u201cboa\u201d voz.<\/p>\n<p>PS2: J\u00e1 pensou nas m\u00fasicas que te fazem bem? Pe\u00e7a ajuda e crie uma ou mais <em>playlists<\/em>.<\/p>\n<p>PS3: Conte para n\u00f3s que m\u00fasica voc\u00ea est\u00e1 escutando ou gostaria de escutar. Para deixar coment\u00e1rios, role a p\u00e1gina at\u00e9 o final.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; Em tempos de pandemia, a hashtag\u00a0sextou perdeu o\u00a0\u00a0 sentido para \u00a0as pessoas que t\u00eam amor \u00e0 vida e sabem os riscos do Covid-19 e suas variantes. Para cuidadoras e cuidadores familiares \u00a0a express\u00e3o\u00a0sextou \u00a0sequer existe, pois o fim-de-semana costuma ser pesado, solit\u00e1rio e de muito trabalho. 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