{"id":94,"date":"2021-03-24T07:00:21","date_gmt":"2021-03-24T10:00:21","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/?p=94"},"modified":"2021-03-23T20:40:46","modified_gmt":"2021-03-23T23:40:46","slug":"cuidadoras-nem-santas-nem-missionarias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/coletivo-filhas-da-mae\/2021\/03\/24\/cuidadoras-nem-santas-nem-missionarias\/","title":{"rendered":"Cuidadoras,\u00a0 Nem Santas, Nem Mission\u00e1rias"},"content":{"rendered":"<p><b>Ana Castro &amp; Cosette Castro<\/b><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Bras\u00edlia &#8211; O cuidado familiar\u00a0n\u00e3o \u00e9 considerado um trabalho, embora diariamente\u00a0 exija muito de quem cuida, tanto em termos f\u00edsicos quanto emocionais. Isso ocorre por, pelo menos, duas raz\u00f5es. A primeira, pela rela\u00e7\u00e3o afetiva com a pessoa que necessita de ser cuidada.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">No imagin\u00e1rio popular ecoam frases do tipo \u201cquem ama, cuida\u201d, ou\u00a0 \u201camor\u00a0 com amor se paga\u201d, estabelecendo implicitamente\u00a0regras de comportamento social\u00a0t\u00e3o ou mais fortes que o pr\u00f3prio regime jur\u00eddico brasileiro. Essas regras impl\u00edcitas recaem majoritariamente sobre as mulheres.<\/span><span style=\"font-weight: 400\"><br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E por ser um cuidado por amor muitas fam\u00edlias defendem que n\u00e3o se trata de trabalho. Acreditam que seja uma &#8220;obriga\u00e7\u00e3o amorosa&#8221;. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">M<\/span><span style=\"font-weight: 400\">uitos familiares acreditam \u2013 mesmo sem explicitar &#8211;\u00a0 que a escolhida ou o escolhido t\u00eam uma miss\u00e3o quase divina pela frente. E miss\u00f5es divinas\u00a0 encontram-se em outro patamar. Est\u00e3o imaginariamente fora do mundo terreno do dinheiro, dos gastos, do consumo e principalmente, da sobreviv\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Esse papel quase mission\u00e1rio da cuidadora familiar, coloca as mulheres em outro lugar,\u00a0 pr\u00f3ximo a santidade. Em alguns casos, dependendo da idade, do n\u00edvel de religiosidade, elas mesmo se posicionam como abnegadas salvadoras, \u00e0 espera de um milagre, ainda que as dem\u00eancias n\u00e3o tenham cura.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Uma esperan\u00e7a que se renova a cada an\u00fancio da ind\u00fastria farmac\u00eautica alardeado pelos meios de comunica\u00e7\u00e3o e ampliado na internet. Mesmo que muitas medica\u00e7\u00f5es sequer tenham chegado a fase de testes em humanos. Ou que n\u00e3o tenham obtido resultados conclusivos ou satisfat\u00f3rios.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Mas esse papel quase mission\u00e1rio de boa parte das cuidadoras cobra a conta. De um lado, nos projetos pessoais e profissionais, fragilizados, desmontados ou postergados pelo trabalho di\u00e1rio e\u00a0 invis\u00edvel\u00a0 \u00a0do cuidado. E que, \u00e0s vezes, jamais s\u00e3o retomados. Apenas lembrados com amargura e saudade.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">De outro lado, aparece no apagamento da sexualidade. Ela vai sendo colocada de lado, em segundo ou terceiro plano, j\u00e1 que o cansa\u00e7o toma conta dos dias e das noites e o que as mulheres mais desejam nessa situa\u00e7\u00e3o desgastante \u00e9 ter algumas\u00a0 horas de sono tranquilo. Al\u00e9m disso, a santidade n\u00e3o se mistura com os prazeres terrenos.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">A ado\u00e7\u00e3o desse papel quase divino, por escolha consciente ou n\u00e3o, exige abnega\u00e7\u00e3o e\u00a0 pode\u00a0incluir\u00a0dor,\u00a0 sofrimento e at\u00e9 mart\u00edrio. \u00c9 muito duro assistir as pessoas queridas irem perdendo as fun\u00e7\u00f5es f\u00edsicas, cognitivas e se distanciando cada vez mais de suas mem\u00f3rias e do mundo real.\u00a0\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">H\u00e1 ainda o receio de n\u00e3o conseguir a perfei\u00e7\u00e3o no cuidado familiar. Autocobran\u00e7as\u00a0 que, em geral, n\u00e3o est\u00e3o relacionadas ao cuidar no momento presente. Mas podem ecoar cobran\u00e7as ouvidas\u00a0 na inf\u00e2ncia.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Definitivamente n\u00e3o somos santas, n\u00e3o somos mission\u00e1rias, nem vivemos no Olimpo, ainda que muitas assumam este papel.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Vivemos neste momento\u00a0em um Brasil pand\u00eamico onde a doen\u00e7a e a\u00a0morte\u00a0deixaram\u00a0 de ser a realidade privada de cada\u00a0 fam\u00edlia que convive com as dem\u00eancias. A doen\u00e7a e as mortes passaram a ser uma dor coletiva, de todo um pa\u00eds,\u00a0 e sequer h\u00e1 perspectivas de que isso melhore a curto ou m\u00e9dio prazo. No caso de fam\u00edlias com parentes com dem\u00eancia, uma dor duplicada,\u00a0 constantemente.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E aqui chegamos \u00e0 segunda raz\u00e3o do cuidado familiar n\u00e3o ser considerado um trabalho. Ele \u00e9 realizado no \u00e2mbito privado, no lar, espa\u00e7o desvalorizado onde todo trabalho \u00e9 gratuito, repetitivo, an\u00f4nimo. E, de novo, executado majoritariamente por mulheres.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Se as m\u00e3es trabalham gratuitamente desde que nascemos e elas cuidam de n\u00f3s como empregadas amorosas, sem remunera\u00e7\u00e3o,\u00a0 por\u00a0 que cuidadoras familiares deveriam ser pagas?\u00a0 Por que deveriam contar com o apoio\u00a0 da fam\u00edlia ? Ou com pol\u00edticas p\u00fablicas de cuidado por parte do Estado, como\u00a0 j\u00e1 ocorre em outros pa\u00edses?<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">Primeiro porque est\u00e1 mais do que na hora do cuidado (do lar ou de pessoas) ser dividido responsavelmente\u00a0 entre a fam\u00edlia sem que\u00a0 isso seja considerado uma\u00a0 ajuda ofertada de vez em quando.\u00a0 E a pandemia tem mostrado que isso \u00e9 poss\u00edvel. \u00a0 Segundo, porque n\u00e3o \u00e9 justo que\u00a0 mulheres assumam essa responsabilidade sozinhas quando existem outras pessoas na fam\u00edlia.\u00a0<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-weight: 400\">E em terceiro lugar, porque falta ao \u00a0 Estado o cumprimento de sua fun\u00e7\u00e3o social e de responsabilidade com\u00a0 seus cidad\u00e3os e cidad\u00e3s. Falta assumir como direito humano os\u00a0 direitos\u00a0 ao cuidado, a ser cuidado e ao autocuidado.<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ana Castro &amp; Cosette Castro Bras\u00edlia &#8211; O cuidado familiar\u00a0n\u00e3o \u00e9 considerado um trabalho, embora diariamente\u00a0 exija muito de quem cuida, tanto em termos f\u00edsicos quanto emocionais. Isso ocorre por, pelo menos, duas raz\u00f5es. A primeira, pela rela\u00e7\u00e3o afetiva com a pessoa que necessita de ser cuidada. 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