{"id":1646,"date":"2018-08-17T15:43:27","date_gmt":"2018-08-17T18:43:27","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/consultoriosentimental\/?p=1646"},"modified":"2018-08-17T15:43:27","modified_gmt":"2018-08-17T18:43:27","slug":"como-eu-matei-minha-filha","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/consultoriosentimental\/como-eu-matei-minha-filha\/","title":{"rendered":"COMO EU MATEI A MINHA FILHA"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #0000ff\">Mais uma importante contribui\u00e7\u00e3o da <strong>ADRIANA ZILLER<\/strong>. Excelente texto!<\/span><strong><br \/>\n<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: center\"><span style=\"color: #ff0000\"><strong>COMO EU MATEI A MINHA FILHA<\/strong><\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: right\"><span style=\"color: #ff0000\">Por Cadu Castro<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Sou machista. Fui criado assim. Cresci, casei e tive uma filha. Sempre subjuguei a minha mulher, o que achava ser completamente natural. Afinal, o machismo \u00e9 t\u00e3o estrutural que se naturaliza. Usava adjetivos como incompetente, idiota, est\u00fapida, para criticar muitas de suas falas e posturas, e assim a diminuir, apequenar. Nunca a agredi fisicamente, mas praticava a viol\u00eancia psicol\u00f3gica. Minha filha foi criada nesse ambiente.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Eu ria das piadas que humilham ou desqualificam as mulheres, e as reproduzia. Quando alguma se ofendia e reclamava, eu perguntava se n\u00e3o tinha senso de humor, era s\u00f3 uma piada, uma brincadeira. Al\u00e9m disso, sempre fui muito moralista, especialmente quando via mulheres com roupas muito curtas. Tantas vezes disse que estavam pedindo para serem estupradas. Lembro de uma vez que me contaram sobre um caso de estupro de uma mo\u00e7a \u201cmoderninha\u201d do bairro onde moro, e questionei se foi estupro mesmo. Afinal, ela abusava, pedia, n\u00e9? Minha filha ouvia tudo isso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Defendia que homens e mulheres s\u00e3o muito diferentes e os direitos n\u00e3o poderiam ser iguais. Reproduzia as fal\u00e1cias de que homem \u00e9 mais racional, mulher \u00e9 mais sentimental; que um monte de mulher num mesmo ambiente de trabalho n\u00e3o d\u00e1 certo; que mulher fala demais; que mulher gosta de fofoca; que homens s\u00e3o mais competentes para gerir neg\u00f3cios; que tem mulher que gosta de apanhar; que crian\u00e7a mal educada \u00e9 culpa da m\u00e3e, etc. Minha filha aprendeu tudo isso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Uma vez um vizinho agrediu fisicamente sua mulher. Minha esposa e minha filha falaram em chamar a pol\u00edcia. lmpedi-as. Disse que \u201cem briga de marido e mulher n\u00e3o se mete a colher\u201d. Quem sabe o que ela fez pra ele perder a cabe\u00e7a? Minha filha introjetou essa ideia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Eu desumanizava a figura feminina. As mulheres mais independentes e desprendidas das regras morais as quais eu defendia, eu chamava de vaca, piranha, galinha. Dizia que feminismo \u00e9 coisa de mulher mal comida, feia, desajustada, recalcada. Ficava ofendido quando algu\u00e9m me chamava de machista, dizia, \u201cnem machismo, nem feminismo, nada de ismos\u201d. Minha filha chegou at\u00e9 a reproduzir algumas dessas minhas falas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Recordo quando ela me apresentou a ele. Estavam come\u00e7ando a namorar. Uma vez a ouvi conversando com uma amiga e dizia que ele era meio grosseiro \u00e0s vezes, mas homem era assim mesmo, n\u00e9? Eu era a sua refer\u00eancia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Outra vez falava com uma prima sobre ter encontrado ele com outra, mas ele se desculpou e disse que a amava. Lembrou que h\u00e1 alguns anos, a m\u00e3e tamb\u00e9m havia descoberto algumas puladas de cerca minhas, e que isso era coisa de homens mesmo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Eu gostava dele. Era um cara muito simp\u00e1tico e trabalhador. Ria muito das piadas que eu contava sobre mulheres e at\u00e9 trouxe algumas novas que ampliaram meu repert\u00f3rio.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Casaram-se. Com a minha b\u00ean\u00e7\u00e3o. Uma vez ela reclamou para a m\u00e3e que ele era muito ciumento e a cerceava. Envolvi-me na conversa e disse que ele era o homem da casa e ela tinha de respeit\u00e1-lo, e que ci\u00fame era sinal de amor. Ela concordou. Percebi que algumas vezes ele falava com ela de uma forma agressiva. Chamei-o para uma conversa. Pediu-me desculpas, disse que ia se policiar, \u201cmas que mulher falava demais, sabe como \u00e9, acaba deixando a gente nervoso\u201d\u2026 Acabei concordando com ele.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">H\u00e1 pouco tempo ela chegou em casa com um hematoma no olho, o rosto inchado e marcas nos bra\u00e7os. Perguntei o que era aquilo e ela respondeu que havia ca\u00eddo das escadas, mas estava bem, que eu n\u00e3o precisava me preocupar. Perguntei se estava tudo bem entre ela e o marido. Ela disse que sim, que ele a amava.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Ontem recebi uma liga\u00e7\u00e3o da pol\u00edcia. Soube que minha filha estava morta. O seu companheiro a havia atirado da varanda do apartamento no d\u00e9cimo andar, ou a esfaqueado, ou a alvejado, ou a estrangulado, ou a agredido at\u00e9 a morte, durante uma briga conjugal.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Vizinhos ouviram os gritos de socorro dela, mas ningu\u00e9m se envolveu ou chamou a pol\u00edcia, afinal, em briga de marido e mulher n\u00e3o se mete a colher.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Eu cai, ou fui esfaqueado, ou agredido, ou estrangulado, ou alvejado, junto com minha filha. Agora jazo neste ch\u00e3o frio. A queda, ou o tiro, ou o estrangulamento, ou a agress\u00e3o, ou a facada, que destro\u00e7ou minha alma, agu\u00e7ou meus sentidos. Consigo ver, consigo ouvir. Vejo agora com uma clareza e lucidez que me lancinam: o machismo, que sempre naturalizei e reproduzi, oprime, fere, mata. Ou\u00e7o o grito dos feminismos. \u00c9 um grito de dor. \u00c9 um grito ancestral. \u00c9 um grito por igualdade de direitos e oportunidades. \u00c9 um grito por respeito. \u00c9 um grito pela vida. \u00c9 o grito da minha fila, e da sua.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Agora \u00e9 tarde para mim. Agora \u00e9 tarde para ela. Matei minha filha. A cada ato machista eu matei minha filha. Matei tamb\u00e9m outras filhas, irm\u00e3s, m\u00e3es\u2026 Reproduzir o machismo \u00e9 sujar as m\u00e3os de sangue.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Aja antes que seja tarde.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">*Deve estar se perguntando se esta hist\u00f3ria \u00e9 ver\u00eddica. Respondo: sim e n\u00e3o. Sim porque ela acontece todos os dias, em muitos lugares, com muitas fam\u00edlias. Criamos uma s\u00e9rie de feminicidas, e alguns feminicidas em s\u00e9rie. O Brasil est\u00e1 entre os pa\u00edses com maior \u00edndice de feminic\u00eddios: ocupa a quinta posi\u00e7\u00e3o em um ranking de 83 na\u00e7\u00f5es. Morrem 13 mulheres por dia vitimadas pelo feminic\u00eddio. Quase 80% das mortes s\u00e3o causadas pelo companheiro.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">E n\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 ver\u00eddica porque n\u00e3o aconteceu comigo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Apenas escrevi esta cr\u00f4nica tocado por uma grave quest\u00e3o social: o machismo.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Tenho a felicidade de estar cercado por mulheres feministas. Esposa, filha, sobrinha, nora, primas, amigas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Criei uma filha feminista. Desde pequena a ensinei a s\u00f3 aceitar um N\u00c3O com uma justificativa coerente, de quem quer que fosse, inclusive eu.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Quando se criou a expectativa de que ela fosse bailarina, dei o apoio que ela queria para treinar Taekwondo. Ela \u00e9 faixa preta segundo dan. Foi campe\u00e3 brasileira disputando com homens (n\u00e3o havia mulheres para disputar com ela na \u00e9poca) e campe\u00e3 panamericana. \u00c9 casada com um cara maravilhoso. E agora esperamos a Mel, filha deles e minha primeira neta, que s\u00f3 de pensar me encho de amor e ternura.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Preciso lutar por um mundo melhor para ela. Preciso lutar por um mundo melhor para todas as mulheres. Ali\u00e1s, presenteei minha filha, sobrinha e prima com o livro Uma breve hist\u00f3ria do feminismo, da professora Carla Cristina Garcia. Quero um mundo melhor para todas as pessoas.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">E para isso, n\u00f3s, homens, temos de travar uma luta ferrenha, que come\u00e7a dentro de cada um de n\u00f3s, contra o machismo nosso de cada dia.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">Temos de (des)aprender o que somos.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">S\u00f3 os feminismos salvam! Essa luta \u00e9 de todos n\u00f3s. Ensino isso para o meu filho, que \u00e9 um cara maravilhoso.<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\"><span style=\"color: #ff0000\">#NemUmaaMenos<\/span><\/p>\n<p style=\"text-align: justify\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mais uma importante contribui\u00e7\u00e3o da ADRIANA ZILLER. Excelente texto! \u00a0 COMO EU MATEI A MINHA FILHA Por Cadu Castro Sou machista. Fui criado assim. Cresci, casei e tive uma filha. 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Excelente texto! \u00a0 COMO EU MATEI A MINHA FILHA Por Cadu Castro Sou machista. Fui criado assim. Cresci, casei e tive uma filha. Sempre subjuguei a minha mulher, o que achava ser completamente natural. Afinal, o machismo \u00e9 t\u00e3o estrutural que se naturaliza. 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