{"id":13416,"date":"2017-08-18T13:38:29","date_gmt":"2017-08-18T16:38:29","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=13416"},"modified":"2017-08-18T13:38:29","modified_gmt":"2017-08-18T16:38:29","slug":"nota-funebre-futuro-do-subjuntivo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/nota-funebre-futuro-do-subjuntivo\/","title":{"rendered":"Nota f\u00fanebre: futuro do subjuntivo"},"content":{"rendered":"<p>Machado de Assis, E\u00e7a de Queir\u00f3s, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Jos\u00e9 Saramago, Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro, Mill\u00f4r Fernandes (in memoriam), Marina Colassanti, L\u00edgia Fagundes Telles, Luiz Fernando Verissimo, Roberto Pompeu de Toledo, Elio Gaspari, Arnaldo Niskier, eu, voc\u00ea e todos os cultores da boa linguagem cumprem o doloroso dever de comunicar o falecimento do futuro do subjuntivo.<\/p>\n<p>V\u00edtima de abandono e maus-tratos, ele deixa a fam\u00edlia verbal enlutada. Os amigos se unem nesse ato de piedade cultural e protestam contra t\u00e3o prematura e insubstitu\u00edvel partida. N\u00e3o h\u00e1 escapat\u00f3ria. Os jornais esnobam essa forma verbal h\u00e1 algum tempo. A TV provoca um arrepio depois do outro. Os charmosos apresentadores dizem sem corar \u201cquando ele p\u00f4r, se ele ver, assim que ele reter\u201d. Os produzidos personagens das novelas n\u00e3o ficam atr\u00e1s. Erram todas. O futuro do subjuntivo est\u00e1\u00a0l\u00e1, confundido com o infinitivo.<\/p>\n<p><b>Paternidade<\/b><\/p>\n<p>\u201cAfinal, o que aconteceu?\u201d, perguntam os amigos. \u201cUma grande confus\u00e3o\u201d, reconhecem. O futuro morreu da insidiosa mol\u00e9stia chamada semelhan\u00e7a.<\/p>\n<p>O azar desse tempo, que, frise-se, sempre cumpriu suas obriga\u00e7\u00f5es a tempo e a hora, foi um s\u00f3: ser parecido com o infinitivo (a forma que d\u00e1\u00a0nome ao verbo: cantar, vender, partir). Os simplistas acham que ele \u00e9 filho do infinitivo (quando eu chegar, voc\u00ea chegar, n\u00f3s chegarmos, eles chegarem).<\/p>\n<p>Mas o pai dele \u00e9 outro. N\u00e3o muito conhecido, mas o exame do DNA \u00e9 categ\u00f3rico. Est\u00e1\u00a0 registrado em todas as gram\u00e1ticas. \u00c9\u00a0o pret\u00e9rito perfeito do indicativo. Mais precisamente: a 3\u00aa pessoa do plural. Sem o -am final.<\/p>\n<p><b>D\u00favidas<\/b><\/p>\n<p>Quando eu p\u00f4r ou puser? Se eu vir ou ver? Se eu vier ou vir? Assim que ele reter ou retiver? D\u00favidas. D\u00favidas. D\u00favidas.<\/p>\n<p>Qual a sa\u00edda? S\u00f3\u00a0h\u00e1\u00a0uma. Recorrer ao pai. Conjugar o verbo no pret\u00e9rito perfeito, velho conhecido de todos. Depois, fixar-se s\u00f3 na 3\u00aa pessoa do plural. Sem o -am final, temos o filho leg\u00edtimo. Quando ele p\u00f4r ou puser?<\/p>\n<p>Pret\u00e9rito perfeito: <i>eu pus, ele p\u00f4s, n\u00f3s pusemos, eles puser(am).<\/i><\/p>\n<p>Futuro do subjuntivo: <i>quando eu puser, voc\u00ea puser, n\u00f3s pusermos, voc\u00eas puserem.<\/i><\/p>\n<p><b>Sem exce\u00e7\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1\u00a0exce\u00e7\u00e3o. Que o digam os maltratados.<\/p>\n<p>Se eu vir ou vier? O pai: <i>eu vim, voc\u00ea veio, n\u00f3s viemos, eles vier(am)<\/i>.<\/p>\n<p>O filho: <i>se eu vier, ele vier, n\u00f3s viermos, eles vierem<\/i>.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Assim que n\u00f3s virmos ou vermos? O primitivo: <i>eu vi, ele viu, n\u00f3s vimos, eles vir(am)<\/i>.<\/p>\n<p>O derivado: <i>assim que eu vir, ele vir, n\u00f3s virmos, eles virem<\/i>.<\/p>\n<p>*<\/p>\n<p>Se eu reter ou retiver? Sem pregui\u00e7a, conjuguemos o pret\u00e9rito perfeito: <i>eu retive, ele reteve, n\u00f3s retivemos, eles retiver(am).<\/i><\/p>\n<p>O futuro do subjuntivo: <i>se eu retiver, ele retiver, n\u00f3s retivermos, eles retiverem<\/i>.<\/p>\n<p><b>Protesto<\/b><\/p>\n<p>Sabe quem est\u00e1\u00a0esperneando? \u00c9\u00a0o trazer. O coitado luta com todas as for\u00e7as para n\u00e3o descer \u00e0\u00a0sepultura. N\u00e3o quer ser enterrado na vala comum dos deserdados. \u201cSocorro!\u201d, grita. \u201cTrarei muita sorte a quem me salvar\u201d. In\u00fatil. Traga o que trouxer, ningu\u00e9m o escuta. Descanse em paz.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Machado de Assis, E\u00e7a de Queir\u00f3s, Graciliano Ramos, Jorge Amado, Jos\u00e9 Saramago, Jo\u00e3o Ubaldo Ribeiro, Mill\u00f4r Fernandes (in memoriam), Marina Colassanti, L\u00edgia Fagundes Telles, Luiz Fernando Verissimo, Roberto Pompeu de Toledo, Elio Gaspari, Arnaldo Niskier, eu, voc\u00ea e todos os cultores da boa linguagem cumprem o doloroso dever de comunicar o falecimento do futuro do subjuntivo. 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