{"id":1464,"date":"2008-04-22T00:00:00","date_gmt":"2008-04-22T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/hipocondriacos_em_polvorosa\/"},"modified":"2008-04-22T00:00:00","modified_gmt":"2008-04-22T03:00:00","slug":"hipocondriacos_em_polvorosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/hipocondriacos_em_polvorosa\/","title":{"rendered":"Hipocondr\u00edacos em polvorosa"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-dad\/efc95695baa0ee0855cc9460cabe2852.jpg\"><br \/>\n\u00c9 uma guerra de foice. De um lado, os inimigos da propaganda de cerveja. As pe\u00e7as s\u00e3o t\u00e3o charmosas que incentivam o consumo do \u00e1lcool. De outro, os partid\u00e1rios de Zeca Pagodinho &amp; Juliana Paes. Eles querem faturar com a loura gelada. Que tal p\u00f4r lenha na fogueira? A campanha pode ir al\u00e9m \u2014 abarcar os medicamentos. Na tev\u00ea, astros e estrelas prometem milagres. Com um rem\u00e9dio, a enxaqueca desaparece. Com outro, o des\u00e2nimo vai pro brejo. Mais um, adeus, quilinhos a mais. A impot\u00eancia? J\u00e1 era.<BR><BR>A generosidade \u00e9 muita? O santo desconfia. Consumidor bobo nasceu morto. Os laborat\u00f3rios sabem disso. Com medo do Procon, cercam-se de cautelas. No fim do mundo cor-de-rosa desenhado nas telinhas, o fabricante avisa que o deus n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderoso quanto parece.&nbsp;Depois&nbsp;das imagens charmosas, pinta advert\u00eancia r\u00e1pida como alegria de pobre. Ora aparece &#8220;Ao persistirem os sintomas, consulte o m\u00e9dico&#8221;. Ora, &#8220;A persistirem os sintomas, consulte o m\u00e9dico&#8221;.<BR><BR>Ops! Instala-se a d\u00favida. As duas mensagens est\u00e3o corretas? Os hipocondr\u00edacos torcem pelo sim. Com o aval, oba! Ampliar\u00e3o o estoque da farmacinha de casa. Os adeptos da automedica\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m vibram. Mais um remedinho dando sopa significa possibilidade de variar. Se um n\u00e3o der certo, o outro dar\u00e1. O m\u00e9dico?&nbsp;Qual o qu\u00ea!&nbsp;Mas&#8230;e a d\u00favida?<BR><BR><B>Diagn\u00f3stico<BR><BR><\/B>Relaxa, mo\u00e7ada. Ambas as frases merecem nota 10. Mas os recados s\u00e3o diferentes:<BR><BR><B>Ao persistirem os sintomas, consulte o m\u00e9dico.<BR><BR><\/B>A ora\u00e7\u00e3o reduzida &#8220;ao persistirem os sintomas&#8221; indica tempo. Desenvolvida, seria escrita assim:<BR><BR><I>Quando persistirem os sintomas, consulte o m\u00e9dico.<BR><BR><\/I>Exemplos n\u00e3o faltam:<BR><BR><I>Ao sair, apague a luz. (Quando sair, apague a luz.)<BR><BR><\/I><I>Ao chegar, encontrou as gavetas abertas. (Quando chegou, encontrou as janelas abertas.)<\/I><I><BR><BR>Machucou-se ao cair. (Machucou-se quando caiu.)<BR><BR><\/I><B>A persistirem os sintomas, consulte o m\u00e9dico.<BR><BR><\/B>Ao substituir o <STRONG>ao<\/STRONG>, por <STRONG>a<\/STRONG>, os marqueteiros mudaram a mensagem. Em vez de tempo, transmitem a id\u00e9ia de condi\u00e7\u00e3o:<BR><BR>A persistirem os sintomas, consulte o m\u00e9dico. (Se persistirem os sintomas, consulte o m\u00e9dico.)<BR><BR>O mestre Machado de Assis recorreu \u00e0 mesma estrutura: &#8220;Contava muita vez uma viagem que fizera \u00e0 Europa e confessava que, a n\u00e3o sermos n\u00f3s, j\u00e1 teria voltado para casa&#8221;. (Contava muita vez uma viagem que fizera \u00e0 Europa e confessava que, se n\u00e3o f\u00f4ssemos n\u00f3s, j\u00e1 teria voltado para casa.)<BR><BR>Mais? L\u00e1 vai:<BR><BR><I>A continuar em queda livre, o d\u00f3lar vai se encostar no real. (Se continuar em queda livre, o d\u00f3lar vai se encostar no real.)<BR><BR><\/I><I>A desaparecer a causa, cessar\u00e1 o efeito. (Se desaparecer a causa, cessar\u00e1 o efeito.)<BR><BR><\/I><STRONG>Olha as v\u00edrgulas<BR><BR><\/STRONG>Reparou nas v\u00edrgulas? As ora\u00e7\u00f5es que indicam tempo e condi\u00e7\u00e3o s\u00e3o adverbiais. Elas t\u00eam um lugar na frase. S\u00e3o as lanterninhas. V\u00eam l\u00e1 no fim. Mas as mocinhas s\u00e3o superativas. Mudam de lugar. A l\u00edngua, generosa, aceita o vaiv\u00e9m. Mas cobra um pre\u00e7o. Quando as passeadeiras d\u00e3o suas voltinhas, deixam marca. \u00c9 a v\u00edrgula. O sinal denuncia: a ora\u00e7\u00e3o&nbsp;se deslocou. Compare:<BR><BR>Consulte o m\u00e9dico ao persistirem os sintomas. (Ao persistirem os sintomas, consulte o m\u00e9dico.)<BR><BR>Feche a porta quando sair. (Quando sair, feche a porta.)<BR><BR>Chorou ao se despedir. (Ao se despedir, chorou.)<BR><BR>Consulte o m\u00e9dico a persistirem os sintomas. (A persistirem os sintomas, consulte o m\u00e9dico.)<BR><BR>Irei se puder. (Se puder, irei).<BR><BR><STRONG>Dica<\/STRONG>&nbsp;<STRONG>estil\u00edstica<BR><BR><\/STRONG>No come\u00e7o? No fim? Qual o melhor lugar? As ora\u00e7\u00f5es adverbiais s\u00e3o acess\u00f3rias. Se ficarem no fim do per\u00edodo, mant\u00eam a insignific\u00e2ncia. Se voc\u00ea quer destac\u00e1-las, d\u00ea-lhes uma colher de ch\u00e1. Ponha-as na frente. A\u00ed, elas crescem e aparecem.<BR><BR><B><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-dad\/c86bb86b37c70d56d0080c0bfb6dc01d.jpg\">Vem, dor<BR><BR><\/B>Hipocondr\u00edaco \u00e9 o louco por rem\u00e9dio. Pra justificar a tara, a criatura inventa doen\u00e7as a torto e a direito. D\u00e1 preju\u00edzo ao plano de sa\u00fade, mas faz a festa de&nbsp;drogarias. Torna-se \u00edntima de farmac\u00eauticos e&nbsp;balconistas. Sente-se t\u00e3o \u00e0 vontade entre bulas, comprimidos, c\u00e1psulas e seringas que perde a cerim\u00f4nia e pergunta ao vendedor: &#8220;Alguma novidade?&#8221;<BR><BR>O hipocondr\u00edaco n\u00e3o se conforma s\u00f3 com o conhecimento. Vai al\u00e9m. Automedica-se. Por isso sabe de cor o salteado as manhas do prefixo auto-. O diss\u00edlabo pede h\u00edfen quando seguido de vogal, h, r, s. No mais, \u00e9 tudo coladinho: auto-ajuda, auto-retrato, auto-sugest\u00e3o, auto-hipnose, autodidata, autoconhecimento.<BR><BR><B>Quero saber<BR><BR><\/B>Enzo Carlos est\u00e1 numa enrascada. Ao se apresentar, gosta de dizer o estado civil. Mas treme nas bases todas as vezes que abre a boca. Por qu\u00ea? N\u00e3o sabe se diz &#8220;estou solteiro&#8221; ou &#8220;sou solteiro&#8221;.<BR><BR>A d\u00favida lembra Eduardo Portela. Quando dep\u00f4s na C\u00e2mara, o ent\u00e3o ministro da Educa\u00e7\u00e3o disse:<BR><BR>\u2014 N\u00e3o sou ministro. Estou ministro.<BR><BR>Tradu\u00e7\u00e3o: o cargo era transit\u00f3rio. Da\u00ed o estar que a gente usa em &#8220;estou com pressa&#8221;, &#8220;estou doente&#8221;, &#8220;estou feliz da vida&#8221;. N\u00e3o \u00e9 sempre \u2014 as 24 horas dos 365 dias do ano \u2014 que eu estou sem tempo, estou sem sa\u00fade, estou rindo de orelha a orelha. S\u00e3o todos estados passageiros. \u00c9 diferente de quando dizemos &#8220;sou mulher&#8221;, &#8220;sou homem&#8221;, &#8220;sou calado&#8221;. O verbo ser indica estado permanente. Ou com larga dura\u00e7\u00e3o.<BR><BR>O Enzo tem de decidir. Ao&nbsp;dizer &#8220;estou solteiro&#8221;,&nbsp;afirma que n\u00e3o era nem continuar\u00e1 dando sopa. Na primeira oportunidade, p\u00f5e a alian\u00e7a no anular. O &#8220;sou solteiro&#8221; joga em outro time. Diz que a criatura n\u00e3o mudar\u00e1 de estado civil t\u00e3o cedo nem t\u00e3o f\u00e1cil. <BR><BR><STRONG><img decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.dzai.com.br\/static\/user\/\/18\/18971\/07d0287e47fe9803a51b16f3ad53b247.jpg\" align=\"right\">O que consultar?<BR><BR><\/STRONG>Voc\u00ea est\u00e1 revisando a disserta\u00e7\u00e3o de mestrado, a tese de doutorado, os originais que v\u00e3o pra editora? Ent\u00e3o precisa conhecer as normas t\u00e9cnicas. O livro <I>Al\u00e9m da<\/I> <I>revis\u00e3o<\/I>, de Aristides Coelho Neto (Ed. Senac), d\u00e1 uma senhora ajuda. L\u00e1 est\u00e3o pormenores que contam pontos. \u00c9 o caso de express\u00f5es latinas, indica\u00e7\u00e3o bibliogr\u00e1fica, notas de rodap\u00e9. Al\u00e9m das informa\u00e7\u00f5es preciosas e o texto&nbsp;caprichado, o livro tem sofisticado projeto gr\u00e1fico.<BR><BR><B>Ser determinado \u00e9\u2026<BR><BR><\/B>Escrever todos os dias uma p\u00e1gina. Pode ser sobre qualquer assunto: a receita do bolo, o coment\u00e1rio da novela, o sonho da noite, a conversa com o chefe, o artigo lido, o encontro inesperado, as tarefas do dia-a-dia. Depois, jogar no lixo. Em um m\u00eas, a cabe\u00e7a e as m\u00e3os estar\u00e3o desinibidas. O medo? Far\u00e1 companhia aos pap\u00e9is descartados. J\u00e1 vai tarde.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00c9 uma guerra de foice. De um lado, os inimigos da propaganda de cerveja. As pe\u00e7as s\u00e3o t\u00e3o charmosas que incentivam o consumo do \u00e1lcool. De outro, os partid\u00e1rios de Zeca Pagodinho &amp; Juliana Paes. Eles querem faturar com a loura gelada. Que tal p\u00f4r lenha na fogueira? A campanha pode ir al\u00e9m \u2014 abarcar os medicamentos. Na tev\u00ea, astros e estrelas prometem milagres. Com [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1464","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1464","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1464"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1464\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1464"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1464"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1464"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}