{"id":1465,"date":"2008-04-23T01:00:00","date_gmt":"2008-04-23T04:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/pastel_pra_que_te_quero\/"},"modified":"2008-04-23T01:00:00","modified_gmt":"2008-04-23T04:00:00","slug":"pastel_pra_que_te_quero","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/pastel_pra_que_te_quero\/","title":{"rendered":"Pastel. pra que te quero?"},"content":{"rendered":"<p><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-dad\/0757fa2f1b4007c63dc81f7857b3bb2e.jpg\"><STRONG><br \/>\nPastel, pra que te quero?<\/STRONG><br \/>\nA iguaria d\u00e1 \u00e1gua na boca. Feita com massa de farinha de trigo, recheada com doce ou salgado e depois frita, tira qualquer um do s\u00e9rio. Nas feiras se formam filas pra comprar a del\u00edcia. Morder a quentinha crocante \u00e9 puro prazer. Os paulistas aproveitam o h\u00e1bito quatrocent\u00e3o pra fazer piada ling\u00fc\u00edstica. Dizem que o morador local se distingue do forasteiro porque pede &#8220;dois pastel e um chopes&#8221;.<br \/>\nOs barrigas-verdes sobressaem. Ao ver uma pastelaria, n\u00e3o se confundem com ga\u00fachos, cariocas ou pernambucanos. Estejam onde estiverem, metem a m\u00e3o no bolso, tiram o dinheiro e, olhos firmes no caixa, ordenam salivando: &#8220;Quero um envelope de boi ralado&#8221;.<br \/>\nBras\u00edlia n\u00e3o foge \u00e0 regra. Na constru\u00e7\u00e3o, atraiu gente das cinco regi\u00f5es do Brasil. Todos, claro, loucos por pastel. Com a capital nasceu a Pastelaria Vi\u00e7osa, que aliou a del\u00edcia frita ao caldo de cana. Pra qu\u00ea? A Rodovi\u00e1ria, endere\u00e7o da casa, tornou-se parada obrigat\u00f3ria de homens, mulheres e crian\u00e7as. A mo\u00e7ada desviava o rumo para apreciar o banquete popular.<br \/>\nO tempo passou. O estabelecimento inaugurou filiais. A mais recente abrir\u00e1 as portas hoje. A festa ser\u00e1 homenagem ao anivers\u00e1rio de Bras\u00edlia, com clima de anos 60 e convidados especiais. Ao escrever o convite, uma d\u00favida tomou conta da equipe. Ei-la: &#8220;Pastel e caldo de cana \u00e9 a cara de Bras\u00edlia&#8221; ou &#8220;Pastel e caldo de cana s\u00e3o a cara de Bras\u00edlia&#8221;? Sem acordo, a turma fez o que deve ser feito. Trocou a estrutura da frase: &#8220;Pastel com caldo de cana \u00e9 a cara de Bras\u00edlia&#8221;. Acertou. Mas a d\u00favida permaneceu.<B><br \/>\nO permissivo ser<\/B><br \/>\nConcord\u00e2ncia \u00e9 um calo no p\u00e9. Os pormenores s\u00e3o tantos que d\u00e3o n\u00f3 nos miolos. Mas, lidos com aten\u00e7\u00e3o, descobre-se que o le\u00e3o \u00e9 manso. Os casos a\u00e3o muitos; as regras, poucas. Com o tempo, ganha-se familiaridade. Com a familiaridade, a fera vira o gatinho l\u00e1 de casa.<br \/>\n<img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/wp-content\/uploads\/blog-dad\/9bd0dc37b34a439873186b83fc650735.jpg\">O verbo ser \u00e9 caso \u00e0 parte. Ele tem vantagem em rela\u00e7\u00e3o aos demais. Pode concordar n\u00e3o s\u00f3 com o sujeito, mas tamb\u00e9m com o predicativo \u2014 o termo que indica o modo de ser do sujeito. A gente pode dizer: <I>Na inf\u00e2ncia, tudo \u00e9 alegrias. Na inf\u00e2ncia, tudo s\u00e3o alegrias. O mundo \u00e9 ilus\u00e3o. O mundo s\u00e3o ilus\u00f5es. Pastel e caldo de cana \u00e9 a cara de Bras\u00edlia. Pastel e caldo de cana s\u00e3o a cara de Bras\u00edlia.<\/I><STRONG><br \/>\nOlho vivo<\/STRONG><br \/>\nN\u00e3o existem escolhas inocentes. A op\u00e7\u00e3o pelo singular ou plural d\u00e1 um recado. Diz que a pessoa valoriza o termo eleito pra fazer a concord\u00e2ncia. Ao dizer &#8220;pastel e caldo de cana \u00e9 a cara de Bras\u00edlia&#8221;, o destaque fica com cara de Bras\u00edlia. Ao preferir &#8220;pastel e caldo de cana s\u00e3o a cara de Bras\u00edlia&#8221;, o realce fica com pastel e caldo de cana.<br \/>\nResumo da \u00f3pera: generosa, a l\u00edngua d\u00e1 op\u00e7\u00f5es. Mas cobra compromissos. A escolha por esta ou aquela estrutura mostra a cara e o cora\u00e7\u00e3o do autor.<B><br \/>\nInflexibilidade<\/B><br \/>\nCom o ser, quase sempre as duas constru\u00e7\u00f5es est\u00e3o corretas. H\u00e1 s\u00f3 tr\u00eas casos em que ele \u00e9 inflex\u00edvel. S\u00f3 abre uma porta:<br \/>\n1. Na indica\u00e7\u00e3o de horas o verbo s\u00f3 tem olhos para o n\u00famero expresso: <I>\u00c9 uma hora. S\u00e3o tr\u00eas horas. \u00c9 meio-dia e meia. Seriam umas tr\u00eas horas da tarde. Eram quase 11horas.<\/I><br \/>\n2. Nas express\u00f5es de quantidade, medida, peso, valor, tempo (\u00e9 muito, \u00e9 pouco, suficiente, \u00e9 caro, \u00e9 barato) \u00e9 invari\u00e1vel: <I>Um \u00e9 pouco, dois \u00e9 bom, tr\u00eas \u00e9 demais. Dois mil reais \u00e9 muito. Vinte quilos \u00e9 suficiente. Dois minutos \u00e9 muito tempo pra quem est\u00e1 com dor de dente. Vinte reais \u00e9 menos do que o produto vale.<\/I><br \/>\n3. Na express\u00e3o expletiva &#8220;\u00e9 que&#8221;, mant\u00e9m-se invari\u00e1vel: <I>Eu \u00e9 que digo. N\u00f3s \u00e9 que sabemos. As rosas \u00e9 que s\u00e3o belas. N\u00f3s \u00e9 que somos patriotas.<\/I><br \/>\n\u00c9 isso. O verbo ser tem a cintura mais flex\u00edvel do portugu\u00eas. Ora acha o sujeito simp\u00e1tico. Vai pro lado dele. Ora o predicativo o atrai mais. Passa pra l\u00e1. Mas, volta e meia, se lembra do coment\u00e1rio da vov\u00f3: &#8220;Quem muito se abaixa mostra os fundilhos&#8221;. Ele, ent\u00e3o, banca o mach\u00e3o. Bate p\u00e9 e se imp\u00f5e. <B><br \/>\nFriedrich Nietzsche ensina<\/B><br \/>\n&#8220;Esquecemos nosso erro quando o confessamos a algu\u00e9m, mas, em geral, o outro n\u00e3o esquece.&#8221;<B><br \/>\nQuero saber<\/B><br \/>\nC\u00e9sar Mesquita, de Jo\u00e3o Pessoa, pergunta: &#8220;Passar\u00e3o a chuva e o vento? Passar\u00e1 a chuva e o vento? Eta rolo!&#8221;<br \/>\nC\u00e9sar, observe dois pontos. Um: o sujeito \u00e9 composto (chuva e vento). Dois: est\u00e1 anteposto ao verbo. No caso, voc\u00ea tem duas sa\u00eddas. Uma: o verbo concorda com todos os sujeitos. A outra: o verbo concorda com o sujeito mais pr\u00f3ximo: <I>Passar\u00e3o o c\u00e9u e a terra (<\/I>com os dois)<I>. Passar\u00e1 o c\u00e9u e a terra (<\/I>com c\u00e9u, que fica mais perto do verbo). Viu? \u00c9 acertar. Ou acertar.<br \/>\n<B>Ser concreto \u00e9\u2026<\/B><br \/>\nSeguir o exemplo de Franklin Roosevelt. Um assessor queria fazer bonito. Apresentou-lhe esta frase num discurso: &#8220;Esfor\u00e7ar-nos-emos para criar uma sociedade mais inclusiva&#8221;. O presidente americano leu-a em voz alta. Achou-a pretensiosa e oca. Substitui-a por &#8220;Vamos construir um pa\u00eds em que ningu\u00e9m fique de fora&#8221;. Que tal? <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pastel, pra que te quero? A iguaria d\u00e1 \u00e1gua na boca. Feita com massa de farinha de trigo, recheada com doce ou salgado e depois frita, tira qualquer um do s\u00e9rio. Nas feiras se formam filas pra comprar a del\u00edcia. Morder a quentinha crocante \u00e9 puro prazer. Os paulistas aproveitam o h\u00e1bito quatrocent\u00e3o pra fazer piada ling\u00fc\u00edstica. Dizem que o morador local se distingue do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1465","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1465","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1465"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1465\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1465"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1465"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1465"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}