{"id":1543,"date":"2008-05-13T00:30:00","date_gmt":"2008-05-13T03:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/acordo_ortografico_entre_amigos\/"},"modified":"2008-05-13T00:30:00","modified_gmt":"2008-05-13T03:30:00","slug":"acordo_ortografico_entre_amigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/acordo_ortografico_entre_amigos\/","title":{"rendered":"Acordo ortogr\u00e1fico entre amigos"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ningu\u00e9m esperava. Mas aconteceu. Em 2009, entra em vigor o Acordo Ortogr\u00e1fico da L\u00edngua Portuguesa. A hist\u00f3ria come\u00e7ou em 1990. Em dezembro, os sete pa\u00edses lus\u00f3fonos assinaram o acerto em Lisboa. Impuseram uma condi\u00e7\u00e3o para as mudan\u00e7as entrarem em vigor: a ratifica\u00e7\u00e3o do total de signat\u00e1rios.<br \/>\n&nbsp;&nbsp;<br \/>\nO tempo passou. Angola e Mo\u00e7ambique enfrentavam guerras civis. N\u00e3o estavam nem a\u00ed pra tremas e acentos. Mas o Brasil tinha pressa. O dicion\u00e1rio <I>Houaiss <\/I>estava em gesta\u00e7\u00e3o. O autor mexia os pauzinhos pra promover a explos\u00e3o de vendas. Se sa\u00edsse com as mudan\u00e7as, mandaria o <I>Aur\u00e9lio <\/I>pra fogueira.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOs parceiros n\u00e3o tinham nada com a urg\u00eancia. Deu-se um jeitinho. Em 1998, fizeram um remendozinho no texto. Em 2004, outro. Resultado: tr\u00eas pa\u00edses seriam suficientes para p\u00f4r a moda na rua. No mesmo ano, n\u00f3s ratificamos as modifica\u00e7\u00f5es. Em 2006, Cabo Verde e S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe foram atr\u00e1s. Bras\u00edlia, Praia e S\u00e3o Tom\u00e9 adotar\u00e3o as novas regras em janeiro. Os demais ficam de fora.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<B>&nbsp;<\/B><br \/>\n<B>&nbsp;<\/B><B>DIRETA<\/B><B>O que muda?<\/B><br \/>\n<B>&nbsp;<\/B><br \/>\n<STRONG>&nbsp;<\/STRONG><br \/>\nO acordo \u00e9 ortogr\u00e1fico. O nome n\u00e3o deixa d\u00favida. Ortografia \u00e9 a parte da gram\u00e1tica que trata da grafia correta das palavras. Abrange o emprego das letras e das nota\u00e7\u00f5es l\u00e9xicas (acentos, til, trema, ap\u00f3strofo, cedilha e h\u00edfen). O que muda com as novas regras? Pouca coisa.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n1. O alfabeto abre as portas para o k, o we o y. De 23, passa a ter 26 letras.<br \/>\n&nbsp;&nbsp;<br \/>\n2. O trema morre. Assim, em lugar de ling\u00fci\u00e7a ou freq\u00fcente, escrever-se-\u00e1 lingui\u00e7a e frequente. Mas a pron\u00fancia se conserva.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n3. As parox\u00edtonas (s\u00f3 elas) perderam acentos:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\na. O hiato \u00f4o vira oo. V\u00f4o, enj\u00f4os e aben\u00e7\u00f4o? Nem pensar. Doravante ser\u00e1 voo, enjoos e aben\u00e7oo.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nb. O agudo dos ditongos abertos \u00e9i e \u00f3i ganha a porta da rua.&nbsp; Assembl\u00e9ia e j\u00f3ia passam a grafar-se assembleia e joia.<br \/>\n&nbsp;&nbsp;<br \/>\nN\u00e3o comemore. A despedida deles \u00e9 at\u00e9 logo, n\u00e3o adeus. As ox\u00edtonas e os monoss\u00edlabos t\u00f4nicos n\u00e3o mereceram a aten\u00e7\u00e3o da reforma. Manter-se-\u00e3o antigos como os casar\u00f5es de Olinda e Ouro Preto: <I>s\u00f3is, pap\u00e9is, constr\u00f3i<\/I>.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;c. O \u00eaem vai pra terra do nunca. Em vez de eles v\u00eaem, l\u00eaem, cr\u00eaem, d\u00eaem, as formas veem, leem, creem, deem pedem passagem.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nd. Caem fora os acentos diferenciais (das parox\u00edtonas, lembre-se) que escaparam da reforma de 1971 por cochilo do legislador. \u00c9 o caso de p\u00e1ra, p\u00f3lo, p\u00e9lo, p\u00e9la, p\u00ealo, p\u00eara. N\u00e3o se enquadra, a\u00ed, a forma p\u00f4de, passado do verbo poder. Nem o <I>p\u00f4r <\/I>(ele n\u00e3o \u00e9<br \/>\nparox\u00edtono).<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; e. Averig\u00fae, apazig\u00fae, arg\u00faem jogam o acento no lixo. Tornam-se averigue, apazigue, arguem.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n4. O h\u00edfen conserva a fama. \u00c9 castigo de Deus. Era, \u00e9 e continuar\u00e1 ca\u00f3tico. Nem o Todo-Poderoso domina a manha do tracinho. Com o troca-troca, a confus\u00e3o (nossa e do Senhor) permanece.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<STRONG>&nbsp;<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG><br \/>\n<STRONG>Qual \u00e9 a dela?<\/STRONG><br \/>\n<STRONG>&nbsp;<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<B><\/B><br \/>\nOs defensores dos retoques alegaram causas nobres para a reforma. Segundo eles, a expuls\u00e3o do pobre trema e dos acentinhos daqui e dali promoveriam milagres dignos de Cristo. Pra come\u00e7o de conversa, tra\u00e7aram quatro objetivos. Um: melhorar o interc\u00e2mbio cultural entre os pa\u00edses lus\u00f3fonos. Dois: reduzir o custo da produ\u00e7\u00e3o e tradu\u00e7\u00e3o de livros. Tr\u00eas: facilitar a difus\u00e3o bibliogr\u00e1fica e de novas tecnologias. O \u00faltimo: aproximar as na\u00e7\u00f5es de l\u00edngua portuguesa.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<STRONG>&nbsp;<\/STRONG><br \/>\n<STRONG><\/STRONG><br \/>\n<STRONG>Vale a pergunta<\/STRONG><br \/>\n<STRONG>&nbsp;<\/STRONG><br \/>\n<STRONG>&nbsp;<\/STRONG><br \/>\nSer\u00e1 que a queda do trema e mudan\u00e7a de um acentinho aqui e ali t\u00eam poder de competir com Jesus? N\u00f3s chamaremos mo\u00e7a de rapariga e rapaz de gajo? Os portugueses chamar\u00e3o comboio de trem? N\u00f3s passaremos a ler os autores africanos e eles a lerem os brasileiros? Ser\u00e1 que os 230 milh\u00f5es de pessoas que povoam Brasil, Portugal, Angola, Cabo Verde, Guin\u00e9-Bissau, Mo\u00e7ambique, S\u00e3o Tom\u00e9 e Pr\u00edncipe e o rec\u00e9m-agregado Timor Leste (os integrantes da Comunidade de Pa\u00edses de L\u00edngua Portuguesa, ou CPLP) invadir\u00e3o a cultura uns dos outros?<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEm compensa\u00e7\u00e3o, faremos fogueira de dicion\u00e1rios, gram\u00e1ticas &amp; cia. letrada. O MEC prepara licita\u00e7\u00e3o pra troca dos livros did\u00e1ticos. Pais ter\u00e3o de substituir as obras das estantes pra garotada estudar. A farra tem pre\u00e7o. Quem pagar\u00e1 a conta? \u00c9 por essas e outras que os portugueses ficaram de fora. Deixam como est\u00e1 pra ver como \u00e9 que fica.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<B>Stendhal alertou:<\/B><br \/>\n&nbsp;<B><\/B><br \/>\n<B>&nbsp;<\/B><br \/>\n\u201cA ortografia n\u00e3o faz o g\u00eanio.\u201d<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ningu\u00e9m esperava. Mas aconteceu. Em 2009, entra em vigor o Acordo Ortogr\u00e1fico da L\u00edngua Portuguesa. A hist\u00f3ria come\u00e7ou em 1990. Em dezembro, os sete pa\u00edses lus\u00f3fonos assinaram o acerto em Lisboa. Impuseram uma condi\u00e7\u00e3o para as mudan\u00e7as entrarem em vigor: a ratifica\u00e7\u00e3o do total de signat\u00e1rios. &nbsp;&nbsp; O tempo passou. Angola e Mo\u00e7ambique enfrentavam guerras civis. 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