{"id":16180,"date":"2018-06-04T11:46:11","date_gmt":"2018-06-04T14:46:11","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=16180"},"modified":"2018-06-04T11:46:11","modified_gmt":"2018-06-04T14:46:11","slug":"quem-pode-escrever-na-internet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/quem-pode-escrever-na-internet\/","title":{"rendered":"Quem pode escrever na internet?"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">N\u00e3o sei por que reclamam que brasileiro n\u00e3o l\u00ea, n\u00e3o escreve. As pessoas se esbaldaram de ler e escrever. Afinal, as redes sociais encontraram clientes ideais no Brasil. E elas aceitam tudo. N\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o consiga juntar os primos e tios em um grupo para o WhatsApp, ou agregar ex-colegas para formar um conjunto de amigos no Facebook. Quem n\u00e3o consegue est\u00e1 virtualmente morto. Virtualmente, fique claro. Afinal, como j\u00e1 se disse, hoje n\u00e3o se escreve para deixar um legado, para partilhar descobertas, inventos ou simples achados, mas para participar da rede. A unidade b\u00e1sica da sociedade n\u00e3o \u00e9 mais o indiv\u00edduo, mas o grupo, a comunidade virtual, a rede. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">O importante n\u00e3o \u00e9 mais ter ideias, o significativo n\u00e3o \u00e9 ter viv\u00eancias, mas compartilhar o que quer que seja: uma paisagem, o namorado novo, a blusinha que se experimentou na loja do shopping, o som incrementado do show em que se conseguiu entrar, viagens para Disney (e suas filas quilom\u00e9tricas de brasileiros dispostos a curtir qualquer atra\u00e7\u00e3o e dizer que est\u00e3o no Primeiro Mundo) ou Mendoza (e seus vinhos pesados, para tomar com churrasco quase cru). O importante n\u00e3o \u00e9 viver, \u00e9 postar. Outro dia, na Sala S\u00e3o Paulo, duas senhoras embebidas em perfume doce moviam-se, inquietas, enquanto a orquestra atacava, com compet\u00eancia, um concerto de Bach. Enquanto o p\u00fablico aplaudia Alsop e Baldini pelo desempenho feliz, as doces senhoras fotografaram a orquestra, enviaram as fotos pelo celular, felizes por colaborar com a rede, mesmo que em sua ansiedade n\u00e3o tenham apreciado devidamente a m\u00fasica do g\u00eanio de Leipzig. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, ouvir m\u00fasica era uma viv\u00eancia, uma experi\u00eancia na \u00e1rea da sensibilidade que enriquecia, de uma forma ou de outra, a personalidade. Hoje ningu\u00e9m pensa nisso, mas em fotografar os artistas, gravar seu som e envi\u00e1-lo aos membros da rede. Eu mesmo vivi uma experi\u00eancia desse tipo em uma cidade do interior em que fiz uma palestra: os jovens chegavam com livros de minha autoria e n\u00e3o se preocupavam com aut\u00f3grafo, queriam mesmo era um selfie que, imediatamente, postavam \u201cprovando\u201d terem assistido \u00e0 palestra. O importante n\u00e3o era viver uma experi\u00eancia intelectual, mas fazer com que os amigos soubessem que ele tinha ouvido aquela palestra, e a foto existia para documentar o ocorrido. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">Enquanto o conhecimento supostamente adquirido em uma palestra poderia passar a fazer parte do patrim\u00f4nio cultural do estudante, o post que ele colocou n\u00e3o \u00e9 destinado a durar. N\u00e3o s\u00f3 ele \u00e9 entrevisto rapidamente, como logo ser\u00e1 superado por outros posts de outros participantes do grupo que falar\u00e3o sobre algo que experimentaram \u2014 uma m\u00fasica, um namorado novo, uma paisagem, uma comida e, em rar\u00edssimos casos, um livro. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">Assim a rede se transforma em unidade da qual os indiv\u00edduos fazem parte. Na verdade o indiv\u00edduo passa a ser a rede, pois ela n\u00e3o \u00e9 um conjunto de unidades, mas a pr\u00f3pria unidade. Aquela rede, aquele grupo s\u00e3o indivis\u00edveis, s\u00e3o os pr\u00f3prios indiv\u00edduos e eles n\u00e3o passam de componentes da nova unidade. \u00c9 por isso que as pessoas ficam ansiosas para enviar tudo para a sua rede, pois \u00e9 fundamental n\u00e3o deixar o indiv\u00edduo morrer de inani\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">A facilidade de postar fotos e textos, frases e conceitos, faz que as pessoas cometam, com frequ\u00eancia, um equ\u00edvoco importante. Sim, todas as pessoas t\u00eam o direito de expressar suas ideias. Mas n\u00e3o, n\u00e3o temos a obriga\u00e7\u00e3o de respeitar ideias idiotas, mal fundamentadas, racioc\u00ednios equivocados ou, simplesmente, not\u00edcias falsas. N\u00e3o se deve confundir o direito democr\u00e1tico de todos se expressarem do jeito que quiserem com o respeito que as pessoas precisam ter com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 compet\u00eancia e \u00e0 legitimidade da manifesta\u00e7\u00e3o expressa. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">Sim, voc\u00ea pode dizer o que quiser, redes sociais aceitam tudo, voc\u00ea est\u00e1 no seu direito, mas se voc\u00ea afirma as coisas sem refletir, reproduz not\u00edcias falsas, tenta legitimar reflex\u00f5es imbecis atribuindo-as a nomes famosos, \u00e9 raso e xucro quando emite as pr\u00f3prias opini\u00f5es&#8230;n\u00e3o temos nenhuma obriga\u00e7\u00e3o de lev\u00e1-lo a s\u00e9rio. Na verdade, voc\u00ea deveria tomar mais cuidado ao postar suas coisas. No final das contas, embora voc\u00ea se perceba como parte de uma rede fechada e protegida, isso n\u00e3o existe na internet. Sua imbecilidade n\u00e3o ficar\u00e1 mais restrita a \u00e2mbito limitado, mas alcan\u00e7ar\u00e1 o mundo. Para o bem e para o mal. Ent\u00e3o se poupe. E, principalmente, nos poupe.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">JAIME PINSKY<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">Historiador, professor titular da Unicamp e diretor da Editora Contexto <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif\">jaimepinsky@gmail.com<\/span><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>N\u00e3o sei por que reclamam que brasileiro n\u00e3o l\u00ea, n\u00e3o escreve. As pessoas se esbaldaram de ler e escrever. Afinal, as redes sociais encontraram clientes ideais no Brasil. E elas aceitam tudo. N\u00e3o h\u00e1 quem n\u00e3o consiga juntar os primos e tios em um grupo para o WhatsApp, ou agregar ex-colegas para formar um conjunto de amigos no Facebook. Quem n\u00e3o consegue est\u00e1 virtualmente morto. 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