{"id":1648,"date":"2008-05-26T13:30:00","date_gmt":"2008-05-26T16:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/as_linguas_da_lingua\/"},"modified":"2008-05-26T13:30:00","modified_gmt":"2008-05-26T16:30:00","slug":"as_linguas_da_lingua","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/as_linguas_da_lingua\/","title":{"rendered":"As l\u00ednguas da l\u00edngua"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u00c9 um susto atr\u00e1s do outro. M\u00e3es e pais est\u00e3o com o cabelo em p\u00e9. Por qu\u00ea? Filhos, afilhados e agregados n\u00e3o desgrudam do computador. Passam horas nas salas de bate-papo. Nas conversas, usam l\u00edngua pr\u00f3pria: abreviaturas estranhas, palavras inventadas \u2014 tudo aos peda\u00e7os, sem come\u00e7o nem fim, sem p\u00e9 nem cabe\u00e7a.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOutro dia, Paula Aparecida parou atr\u00e1s da mo\u00e7ada. Como quem n\u00e3o quer nada, deu uma espiada na tela. N\u00e3o acreditou nos pr\u00f3prios olhos. Ali estava, sem tirar nem p\u00f4r, esta pe\u00e7a cibern\u00e9tica:<br \/>\n&nbsp;<I><br \/>\nLas diz:<br \/>\nAlan&#8230;<br \/>\nLas diz:<br \/>\ndiga&#8230;<br \/>\nLas diz:<br \/>\nbixo&#8230;<br \/>\nLas diz:<br \/>\nq vai rolar hj?<br \/>\nAlan diz:<br \/>\nKara, a galera vai sair a\u00ea<br \/>\nLas diz:<br \/>\nHum&#8230; legal!<br \/>\nLas diz:<br \/>\nolha soh&#8230; c tu quiser ir&#8230; d\u00e1 um toke<br \/>\nAlan diz:<br \/>\nBlz&#8230; qq coisa ligo<br \/>\nEspero ter ajudado.<br \/>\nAtenciosamente,<br \/>\nAndr\u00e9 Luiz<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nPreocupada, a m\u00e3e&nbsp;perguntou: O que que eu fa\u00e7o? Finjo que n\u00e3o vejo? Ou pro\u00edbo a farra? Se deixo tudo como est\u00e1, daqui a pouco meus filhos v\u00e3o escrever cachorro com k e x. Ou ser\u00e1 que j\u00e1 chegaram l\u00e1?<br \/>\n&nbsp;<B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO xis da quest\u00e3o<br \/>\n<\/B>&nbsp;<br \/>\nLer e escrever s\u00e3o habilidades. Nadar, correr e datilografar tamb\u00e9m. Para desenvolver-se, exigem treino. Gustavo Borges \u00e9 campe\u00e3o ol\u00edmpico de nata\u00e7\u00e3o. Ele n\u00e3o ganhou a medalha de ouro. Conquistou-a. Foram milhares de horas de bra\u00e7adas, outras tantas de muscula\u00e7\u00e3o e n\u00e3o menos de ren\u00fancias. Hoje, ele se exibe de frente, de costas, de lado. D\u00e1 cambalhotas. Faz malabarismos dentro d\u2019\u00e1gua. Pode tudo.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA aquisi\u00e7\u00e3o da leitura e da escrita passa por processo semelhante. Quando se alfabetiza, a crian\u00e7a entra no universo da l\u00edngua escrita. No come\u00e7o, l\u00ea com dificuldade e escreve com (muitos) trope\u00e7os. Troca, acrescenta, suprime letras. \u00c0 medida que se familiariza com esses, z\u00eas, jotas e ag\u00e1s, os enganos diminuem. A tend\u00eancia \u00e9 baterem asas e sumirem.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nParece milagre. Pirralhinhos de 8-9 anos grafam hospital com h. Desenho, com s. Cachorro, com ch e dois erres. Como chegaram l\u00e1? N\u00e3o foi com o estudo da etimologia. Nem com regras ou palmat\u00f3rias. A chave do \u00eaxito se chama familiaridade. A crian\u00e7a v\u00ea a palavra. Fixa-a. E a reproduz. Da\u00ed a \u00edntima rela\u00e7\u00e3o entre a leitura e a escrita. Quanto mais se l\u00ea, melhor se escreve.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA l\u00edngua \u00e9 um conjunto de possibilidades. Com o tempo nos tornamos poliglotas no nosso idioma. Se estamos com a turma, usamos a g\u00edria do grupo. Se na entrevista da sele\u00e7\u00e3o de emprego, outra. Se nos bate-papos da internet, mais uma. Todas t\u00eam hora e vez. Trocar as bolas? D\u00e1 o samba da l\u00edngua doida.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEis o risco das salas de bate-papo. Elas t\u00eam um c\u00f3digo pr\u00f3prio. Quem quiser participar das conversas, precisa domin\u00e1-lo. Ali a velocidade \u00e9 a lei. Regras de ortografia, sintaxe ou pontua\u00e7\u00e3o perdem-se sob o teclado. Na tela m\u00e1gica, impera o vale-tudo. O analfabeto cibern\u00e9tico n\u00e3o tem vez no jogo. Cai fora.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOs que dominam as v\u00e1rias l\u00ednguas da l\u00edngua, entram e saem sem problema. Mas os que engatinham na aprendizagem do b\u00e1sico podem entrar em parafuso. \u00c9 como o brasileiro que resolve aprender ingl\u00eas, franc\u00eas, italiano, espanhol e romeno ao mesmo tempo. H\u00e1 um momento em que a confus\u00e3o se instala.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nE da\u00ed? Proibir a meninada de teclar? \u00c9 dif\u00edcil. Melhor fazer um trato: a cada minuto diante da tela, deve corresponder uma hora de leitura. A troca vale a pena.<br \/>\n<A name=\"Save1\"><\/A><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; \u00c9 um susto atr\u00e1s do outro. 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