{"id":1669,"date":"2008-05-29T00:10:00","date_gmt":"2008-05-29T03:10:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/puro_prazer\/"},"modified":"2008-05-29T00:10:00","modified_gmt":"2008-05-29T03:10:00","slug":"puro_prazer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/puro_prazer\/","title":{"rendered":"Puro prazer"},"content":{"rendered":"<p><BR>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEm grego, \u00e9 hedone. Em portugu\u00eas, hedonismo. Numa e noutra l\u00edngua, o significado se mant\u00e9m. \u00c9 prazer. A sensa\u00e7\u00e3o gostosa fez escola. Virou doutrina da filosofia. Segundo ela, o prazer deve ser considerado o objetivo principal dos atos humanos. Alguns concordam. Outros n\u00e3o. Mas uma coisa \u00e9 certa. Ningu\u00e9m gosta de sofrer.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA regra vale para a leitura. Texto dif\u00edcil n\u00e3o tem vez. E n\u00e3o \u00e9 de hoje. Montaigne, no s\u00e9culo XVI, disse com todas as letras: \u201cAo encontrar um trecho dif\u00edcil, deixo o livro de lado\u201d. Por qu\u00ea? \u201cA leitura \u00e9 forma de felicidade\u201d, respondeu ele. \u201cSe lemos algo com dificuldade, o autor fracassou\u201d, completou Jorge Lu\u00eds Borges quatro s\u00e9culos depois.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>A observa\u00e7\u00e3o n\u00e3o se restringe a livros. Engloba jornais, revistas, cartas comerciais, reda\u00e7\u00f5es escolares, receitas de comida gostosa. Sem fisgar o leitor, adeus, emprego! Adeus, nota boa! Adeus, sobremesa dos deuses! Por isso, roguemos ao Senhor. Que Ele ilumine mentes, penas e teclados. E cada um fa\u00e7a a sua parte.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEscrever \u00e9 verbo transitivo. Escreve-se para algu\u00e9m. O algu\u00e9m \u00e9 o leitor. N\u00e3o o perca de vista. Seja natural. Imagine que ele esteja \u00e0 sua frente ou conversando com voc\u00ea. Fique \u00e0 vontade. Espaceje suas frases com pausas. Sempre que poss\u00edvel, fa\u00e7a perguntas diretas. Confira ao texto um toque humano. Voc\u00ea est\u00e1 se dirigindo a gente de carne e osso.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>Sobretudo use frases curtas. O leitor s\u00f3 consegue dominar determinado n\u00famero de palavras. Depois, os olhos pedem uma pausa. Uma frase longa, j\u00e1 dizia Vin\u00edcius, n\u00e3o \u00e9 nada mais que duas curtas.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nPreste aten\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras. Palavras longas e pomposas funcionam como cortina de fuma\u00e7a entre quem escreve e quem l\u00ea. Est\u00e1 em d\u00favida entre dois<BR>voc\u00e1bulos? Prefira o mais curto. Entre dois curtos? O mais expressivo.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nComo avaliar o \u00edndice de dificuldade do texto? Existe o teste de legibilidade. Quer tentar? Pegue um escrito seu. Pode ser uma carta, um artigo, uma reda\u00e7\u00e3o. Depois, siga a receita. Com um cuidado: fa\u00e7a par\u00e1grafo por par\u00e1grafo.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>1. Conte as palavras do par\u00e1grafo.<br \/>\n<BR>2. Conte as frases (cada frase termina por ponto).<br \/>\n<BR>3. Divida o n\u00famero de palavras pelo n\u00famero de frases. Assim, voc\u00ea ter\u00e1 a m\u00e9dia da palavra\/frase do texto.<br \/>\n<BR>4. Some a m\u00e9dia da palavra\/frase do texto com o n\u00famero de poliss\u00edlabos.<br \/>\n<BR>5. Multiplique o resultado por 0,4 (m\u00e9dia de letras da palavra na frase de l\u00edngua portuguesa).<br \/>\n<BR>6. O produto da multiplica\u00e7\u00e3o \u00e9 o \u00edndice de legibilidade.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>Eis os poss\u00edveis resultados:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>1 a 7: hist\u00f3ria em quadrinhos<br \/>\n<BR>8 a 10: excepcional<br \/>\n<BR>11 a 15: \u00f3timo<br \/>\n<BR>16 a 19: pequena dificuldade<br \/>\n<BR>20 a 30: muito dif\u00edcil<br \/>\n<BR>31 a 40: linguagem t\u00e9cnica<br \/>\n<BR>acima de 41: nebulosidade<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>Dif\u00edcil? Deixe a pregui\u00e7a pra l\u00e1. Avalie o par\u00e1grafo abaixo:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>&#8220;Em boca fechada n\u00e3o entra mosca\u201d, diz a vov\u00f3 repressora. \u201cQuem n\u00e3o erra perde a chance de acertar\u201d, responde o neto sabido. Ele aprendeu que, nas organiza\u00e7\u00f5es modernas, a competi\u00e7\u00e3o \u00e9 o primeiro mandamento. E, cada vez mais, imp\u00f5e-se a necessidade de falar em p\u00fablico. Muitos servidores, por\u00e9m, concordam com a vov\u00f3. Estremecem s\u00f3 de imaginar a hip\u00f3tese de abrir a boca diante de uma plat\u00e9ia. Dizem que n\u00e3o nasceram para os refletores. Falta-lhes voca\u00e7\u00e3o. A ci\u00eancia prova o contr\u00e1rio. Falar bem n\u00e3o \u00e9 dom divino. Falar bem \u2013 como nadar bem, escrever bem, saltar bem \u2013 \u00e9 habilidade. Exige treino.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>Veja se estudamos na mesma escola:<br \/>\n<BR>1. Palavras do par\u00e1grafo: 101<br \/>\n2. N\u00famero de frases: 12<br \/>\n3. M\u00e9dia da palavra-frase (101dividido por 12): 8,41<br \/>\n4. 8,41 + 12 (n\u00famero de poliss\u00edlabos) = 20,41<br \/>\n5. 20,41 x 0,4 = 8,16<br \/>\nResultado: legibilidade excepcional<br \/>\n<BR>Agora, o seu texto. Se o resultado ficou acima de 15, abra o olho. Facilite a vida do leitor. Voc\u00ea tem dois caminhos. Um: diminua o tamanho das frases. O outro: mande algumas proparox\u00edtonas dar umas voltinhas. Abuse dos dois.<br \/>\n<BR><br \/>\n&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<BR>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Em grego, \u00e9 hedone. Em portugu\u00eas, hedonismo. Numa e noutra l\u00edngua, o significado se mant\u00e9m. \u00c9 prazer. A sensa\u00e7\u00e3o gostosa fez escola. Virou doutrina da filosofia. Segundo ela, o prazer deve ser considerado o objetivo principal dos atos humanos. Alguns concordam. Outros n\u00e3o. Mas uma coisa \u00e9 certa. Ningu\u00e9m gosta de sofrer. &nbsp; A regra vale para a leitura. 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