{"id":1699,"date":"2008-06-01T22:00:00","date_gmt":"2008-06-02T01:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/estamos_mudando_para_melhor\/"},"modified":"2008-06-01T22:00:00","modified_gmt":"2008-06-02T01:00:00","slug":"estamos_mudando_para_melhor","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/estamos_mudando_para_melhor\/","title":{"rendered":"Estamos mudando para melhor"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n<BR>&nbsp;<BR>PODER JUDICI\u00c1RIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO <BR>COMARCA DE NITER\u00d3I &#8211; NONA VARA C\u00cdVEL <BR>Processo n\u00b0 2005.002.003424-4&nbsp;&nbsp; <BR>&nbsp; <BR><br \/>\nS E N T E N \u00c7 A&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <BR>&nbsp; <BR><br \/>\nCuidam-se os autos de a\u00e7\u00e3o de obriga\u00e7\u00e3o de fazer manejada por ANTONIO MARREIROS DA SILVA MELO NETO contra o CONDOM\u00cdNIO DO EDIF\u00cdCIO LU\u00cdZA VILLAGE e JEANETTE GRANATO, alegando o autor fatos precedentes ocorridos no interior do pr\u00e9dio que o levaram a pedir que fosse tratado formalmente de &#8216;senhor&#8217;.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nDisse o requerente que sofreu danos, e que esperava a proced\u00eancia do pedido inicial para dar a ele autor e suas visitas o tratamento de &#8216;Doutor&#8217;, &#8216;senhor&#8217; &#8216;Doutora&#8217;, &#8216;senhora&#8217;, sob pena de multa di\u00e1ria a ser fixada judicialmente, bem como requereu a condena\u00e7\u00e3o dos r\u00e9us em dano moral n\u00e3o inferior a 100 sal\u00e1rios m\u00ednimos. <BR>(&#8230;)&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nDECIDO.&nbsp;&nbsp; &#8216;O problema do fundamento de um direito apresenta-se diferentemente conforme se trate de buscar o fundamento de um direito que se tem ou de um direito que se gostaria de ter.&#8217; (Noberto Bobbio, in &#8216;A Era dos Direitos&#8217;, Editora Campus, pg. 15).&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nTrata-se o autor de Juiz digno, merecendo todo o respeito deste sentenciante e de todas as demais pessoas da sociedade, n\u00e3o se justificando tamanha publicidade que tomou este processo. Agiu o requerente como jurisdicionado, na cren\u00e7a de seu direito. Plaus\u00edvel sua conduta, na medida em que atribuiu ao Estado a solu\u00e7\u00e3o do conflito. N\u00e3o deseja o ilustre Juiz tola bajulice, nem esta a\u00e7\u00e3o pode ter conota\u00e7\u00e3o de incompreens\u00edvel futilidade. O cerne do inconformismo \u00e9 de cunho eminentemente subjetivo, e ningu\u00e9m, a n\u00e3o ser o pr\u00f3prio autor, sente tal dor, e este sentenciante bem compreende o que tanto incomoda o probo Requerente.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nEst\u00e1 claro que n\u00e3o quer, nem nunca quis o autor, impor medo de autoridade, ou que lhe dediquem cumprimento laudat\u00f3rio, posto que \u00e9 homem de notada grandeza e virtude. Entretanto, entendo que n\u00e3o lhe assiste raz\u00e3o jur\u00eddica na pretens\u00e3o deduzida.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\n&#8216;Doutor&#8217; n\u00e3o \u00e9 forma de tratamento, e sim t\u00edtulo acad\u00eamico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento. Emprega-se apenas \u00e0s pessoas que tenham tal grau, e mesmo assim no meio universit\u00e1rio.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nConstitui-se mera tradi\u00e7\u00e3o referir-se a outras pessoas de &#8216;doutor&#8217;, sem o ser, e fora do meio acad\u00eamico. Da\u00ed a express\u00e3o doutor honoris causa&nbsp;&nbsp; &#8211; para a honra -, que se trata de t\u00edtulo conferido por uma universidade \u00e0 guisa de homenagem a determinada pessoa, sem submet\u00ea-la a exame. Por outro lado, vale lembrar que &#8216;professor&#8217; e &#8216;mestre&#8217; s\u00e3o t\u00edtulos exclusivos dos que se dedicam ao magist\u00e9rio, ap\u00f3s conclu\u00eddo o curso de mestrado.&nbsp;&nbsp; <BR><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEmbora a express\u00e3o &#8216;senhor&#8217; confira a desejada formalidade \u00e0s comunica\u00e7\u00f5es &#8211; n\u00e3o \u00e9 pronome -, e possa at\u00e9 o autor aspirar distanciamento em rela\u00e7\u00e3o a qualquer pessoa, afastando intimidades, n\u00e3o existe regra legal que imponha obriga\u00e7\u00e3o ao empregado do condom\u00ednio a ele assim se referir.&nbsp;&nbsp; <BR><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO empregado que se refere ao autor por &#8216;voc\u00ea&#8217;,&nbsp;&nbsp; pode estar sendo cort\u00eas, posto que &#8216;voc\u00ea&#8217; n\u00e3o \u00e9 pronome depreciativo. Isso \u00e9 formalidade, decorrente do estilo de fala, sem quebra de hierarquia ou incid\u00eancia de insubordina\u00e7\u00e3o. Fala-se segundo sua classe social.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nO brasileiro tem tend\u00eancia na variedade coloquial relaxada, em especial a classe &#8216;semi-culta&#8217;, que sequer se importa com isso.&nbsp;&nbsp; Na verdade &#8216;voc\u00ea&#8217; \u00e9 variante &#8211; contra\u00e7\u00e3o da alocu\u00e7\u00e3o &#8211; do tratamento respeitoso &#8216;Vossa Merc\u00ea&#8217;.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nA professora de lingu\u00edstica Eliana Pitombo Teixeira ensina que os textos liter\u00e1rios que apresentam altas freq\u00fc\u00eancias do pronome &#8216;voc\u00ea&#8217;, devem ser classificados como formais.&nbsp; Em qualquer lugar desse pa\u00eds, \u00e9 usual as pessoas serem chamadas de &#8216;seu&#8217; ou &#8216;dona&#8217;, e isso \u00e9 tratamento formal. <BR><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEm recente pesquisa universit\u00e1ria, constatou-se que o simples uso do nome da pessoa substitui o senhor\/ a senhora e voc\u00ea quando usados como prenome, isso porque soa como pejorativo tratamento diferente.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nNa edi\u00e7\u00e3o promovida por Jorge Amado &#8216;Cr\u00f4nica&nbsp; de Viver Baiano Seiscentista&#8217;, nos poemas de Greg\u00f3rio de Matos, destacou o escritor que Mi\u00e9rcio T\u00e1ti anotara que &#8216;voc\u00ea&#8217; \u00e9 tratamento cerimonioso (Rio de Janeiro\/S\u00e3o Paulo, Record, 1999).&nbsp;&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nUrge ressaltar que tratamento cerimonioso \u00e9 reservado a c\u00edrculos fechados da diplomacia, clero, governo, judici\u00e1rio e meio acad\u00eamico, como j\u00e1 se disse. A pr\u00f3pria Presid\u00eancia da Rep\u00fablica fez publicar Manual de Reda\u00e7\u00e3o instituindo o protocolo interno entre os demais Poderes. <BR><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nMas na rela\u00e7\u00e3o social n\u00e3o h\u00e1 ritual lit\u00fargico a ser obedecido. Por isso que se diz que a altern\u00e2ncia de &#8216;voc\u00ea&#8217; e &#8216;senhor&#8217; traduz-se numa quest\u00e3o socioling\u00fc\u00edstica, de dif\u00edcil equa\u00e7\u00e3o num pa\u00eds como o Brasil de v\u00e1rias influ\u00eancias regionais.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp;<br \/>\nAo Judici\u00e1rio n\u00e3o compete decidir sobre a rela\u00e7\u00e3o de educa\u00e7\u00e3o, etiqueta, cortesia ou coisas do g\u00eanero, a ser estabelecida entre o empregado do condom\u00ednio e o cond\u00f4mino, posto que isso \u00e9 tema interna corpore daquela pr\u00f3pria comunidade.&nbsp;&nbsp; <BR><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nIsto posto, por estar convicto de que inexiste direito a ser agasalhado, mesmo que lamentando o inc\u00f4modo pessoal experimentado pelo ilustre autor, julgo improcedente o pedido inicial, condenando o postulante no pagamento de custas e honor\u00e1rios de 10% sobre o valor da causa. P.R.I.&nbsp;&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nALEXANDRE EDUARDO SCISINIO <BR><br \/>\nJuiz de Direito&nbsp;<BR>&nbsp;&nbsp;<BR>&nbsp; <BR><br \/>\nN\u00e3o \u00e9 que, neste pa\u00eds, ainda existem juristas honrados e cultos! Nem tudo est\u00e1 perdido&#8230;! <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp;PODER JUDICI\u00c1RIO DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO COMARCA DE NITER\u00d3I &#8211; NONA VARA C\u00cdVEL Processo n\u00b0 2005.002.003424-4&nbsp;&nbsp; &nbsp; S E N T E N \u00c7 A&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp; Cuidam-se os autos de a\u00e7\u00e3o de obriga\u00e7\u00e3o de fazer manejada por ANTONIO MARREIROS DA SILVA MELO NETO contra o CONDOM\u00cdNIO DO EDIF\u00cdCIO LU\u00cdZA VILLAGE e JEANETTE GRANATO, alegando o autor fatos precedentes ocorridos no interior do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-1699","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1699","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1699"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1699\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1699"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1699"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1699"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}