{"id":1767,"date":"2008-06-12T01:00:00","date_gmt":"2008-06-12T04:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_amor_e_cego_mas_nao_e_surdo\/"},"modified":"2008-06-12T01:00:00","modified_gmt":"2008-06-12T04:00:00","slug":"o_amor_e_cego_mas_nao_e_surdo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/o_amor_e_cego_mas_nao_e_surdo\/","title":{"rendered":"O amor \u00e9 cego, mas n\u00e3o \u00e9 surdo"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nHoje&nbsp;\u00e9 Dia dos Namorados. Comerciantes esfregam as m\u00e3os. Esperam o terceiro faturamento do ano. O 12 de junho s\u00f3 perde para o Natal e o Dia das M\u00e3es. As vitrines apresentam tenta\u00e7\u00f5es pra todos os bolsos e gostos. Restaurantes fazem card\u00e1pio especial pra noite pra l\u00e1 de especial. Massagistas, cabeleireiros, maquiadores completam a agenda com muiiiiiiiiiiiiiita anteced\u00eancia. Tanto esfor\u00e7o tem explica\u00e7\u00e3o. Todos querem conjugar o verbo namorar. Mas nem sempre conseguem. \u00c0s vezes, falta parceiro. Outras vezes, o companheiro n\u00e3o \u00e9 a cara-metade dos sonhos. H\u00e1 os casos em que o ouvido conta mais que o cora\u00e7\u00e3o. Descobre-se, ent\u00e3o, que o amor \u00e9 cego, mas n\u00e3o \u00e9 surdo. Hist\u00f3rias n\u00e3o faltam.<br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\n<STRONG>Maria e Pedro<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nMaria estava sem namorado. Moderna, joga no time das personagens de <I>Sex in the City<\/I>. Vai atr\u00e1s. Na balada de s\u00e1bado, aconteceu. Encontrou o homem dos sonhos. Lindo como Brad Pitt, Pedro chamava a aten\u00e7\u00e3o da mo\u00e7ada solit\u00e1ria e acompanhada. Ela partiu pro ataque. Provocante, buscou o olhar dele. Sorriu. Encaminhou-se at\u00e9 a mesa em que o bonit\u00e3o estava. Chegou-se com mal\u00edcia e lhe ofereceu um gole de vinho na mesma ta\u00e7a em que bebia. O charmoso agradeceu:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Muito obrigada.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA mo\u00e7a murchou. Decepcionada, deu-lhe as costas com o decote at\u00e9 a cintura. O at\u00f4nito desprezado n\u00e3o entendeu nada. Nem desconfiou de que, ao agradecer, p\u00f4s a masculinidade em xeque. A raz\u00e3o: o homem diz obrigado. A mulher, obrigada. Ambos respondem por nada.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\n<STRONG>Clarice e Paulo<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nClara nasceu com muitos talentos. Pinta, dan\u00e7a, representa, declama, escreve. Por sugest\u00e3o de amigos, concorreu ao Pr\u00eamio Nestl\u00e9 de Poesia. Ganhou. O livro teve edi\u00e7\u00e3o de 100 mil exemplares. Num pa\u00eds em que a tiragem raramente ultrapassa os 2 mil, o n\u00famero assusta.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nOs amigos aproveitaram pra festejar. Que tal uma festinha em Buenos Aires? A viagem seria por ades\u00e3o. Dez pessoas se inscreveram na hora. Ela, feliz, contou o plano pro namorado. &#8220;Eu adero&#8221;, vibrou, entusiasmado, o senhor de meia idade.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nClara estremeceu. Parou o carro no meio da avenida movimentada e mandou-o descer. O coitado, desapontado, obedeceu. Eles nunca mais se falaram. Ao comentar o epis\u00f3dio, Paulo desdenha: &#8220;Caprichos de poeta&#8221;. N\u00e3o se deu conta de que aderir se conjuga como preferir. Pra fazer parte da comitiva, ele deveria ter dito &#8220;eu adiro&#8221;, do mesmo jeito que &#8220;eu prefiro&#8221;. Bobeou. Adeus, grande amor!<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n<STRONG><\/STRONG>&nbsp;<br \/>\n<STRONG>Tati e Jo\u00e3o<\/STRONG><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nRec\u00e9m-separado, Jo\u00e3o viveu um luto doloroso. O tempo passou. A tristeza bateu asas e se foiiiiiiiiiiiiiiiiiiii. Ele acordou leve e alegre. Cantou durante o banho. Fez a barba com cuidado, vestiu roupa nova e ganhou a rua. No bar, encontrou amigos. Entre um chope e outro, pintou a paquera.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEle sorriu pra ela. Ela sorriu pra ele. Minutos depois, l\u00e1 foi ele. Copo na m\u00e3o e dentes \u00e0 mostra, chegou-se sem pressa. Olhos nos olhos, perguntou sedutor:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Posso me sentar na sua mesa?<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 De jeito nenhum. Pega mal.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Voc\u00ea tem compromisso?<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 N\u00e3o.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Ent\u00e3o\u2026<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Se voc\u00ea se sentar na mesa, vai disputar o espa\u00e7o com a cerveja, os past\u00e9is e o queijo. N\u00e3o h\u00e1 lugar pra tanto.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEle se lembrou de valha li\u00e7\u00e3o da dona Valci. A professora repetia sem se cansar:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Pra indicar proximidade ou vizinhan\u00e7a, s\u00f3 a preposi\u00e7\u00e3o <STRONG>a<\/STRONG> tem vez. Por isso, uma pessoa s\u00f3 pode estar ao volante, \u00e0 janela, \u00e0 porta. Estar no volante, na m\u00e1quina, na porta? Nem pensar. Maltrata o bumbum.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEle soltou uma risada pra l\u00e1 de gostosa. Divertido, disse baixinho:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\n\u2014 Desculpe-me. Estou de porre. Eu quero p\u00f4r o copo na mesa e sentar-me \u00e0 mesa. Posso?<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEles se sentam \u00e0 mesma mesa at\u00e9 hoje. Falam ao telefone todos os dias. Em casa, ficam um temp\u00e3o \u00e0 porta conversando. No avi\u00e3o, disputam o lugar \u00e0 janela. Volta e meia, cochicham ao ouvido um do outro. Juntos, descobriram que a felicidade \u00e9 para quem a faz, n\u00e3o para quem a procura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Hoje&nbsp;\u00e9 Dia dos Namorados. Comerciantes esfregam as m\u00e3os. Esperam o terceiro faturamento do ano. O 12 de junho s\u00f3 perde para o Natal e o Dia das M\u00e3es. As vitrines apresentam tenta\u00e7\u00f5es pra todos os bolsos e gostos. Restaurantes fazem card\u00e1pio especial pra noite pra l\u00e1 de especial. Massagistas, cabeleireiros, maquiadores completam a agenda com muiiiiiiiiiiiiiita anteced\u00eancia. Tanto esfor\u00e7o tem explica\u00e7\u00e3o. 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