{"id":17977,"date":"2018-12-02T10:15:39","date_gmt":"2018-12-02T12:15:39","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=17977"},"modified":"2018-12-02T10:15:39","modified_gmt":"2018-12-02T12:15:39","slug":"foi-deus-que-fez-o-livro-jaime-pinsky","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/foi-deus-que-fez-o-livro-jaime-pinsky\/","title":{"rendered":"Foi Deus que fez o livro (Jaime Pinsky)"},"content":{"rendered":"<p>Qual \u00e9 a principal diferen\u00e7a entre os homens e os demais animais que habitam o nosso planeta? Vantagens apregoadas durante muito tempo, como a capacidade de amar, a mem\u00f3ria, a organiza\u00e7\u00e3o social, os la\u00e7os familiares duradouros, n\u00e3o podem mais ser considerados. V\u00eddeos mostrando cenas \u201chumanas\u201d entre elefantes, golfinhos, le\u00f5es, para n\u00e3o falar de c\u00e3es e gatos est\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de todos e a dist\u00e2ncia entre os chamados irracionais e n\u00f3s parece-nos muito mais pr\u00f3xima do que parecia h\u00e1 algum tempo. Fica, contudo, a quest\u00e3o: o que fez com que o ser humano, desprovido de garras para ca\u00e7ar (como o le\u00e3o), talento inato para construir (como o castor), agilidade para perseguir ou fugir (como o leopardo ou o veado), casaco natural para se aquecer (como o urso), se tornasse o verdadeiro rei dos animais?<\/p>\n<p>A resposta \u00e9 simples: o homem \u00e9 o \u00fanico habitante deste planeta capaz de produzir, guardar e consumir cultura. Cada achado, cada descoberta, cada poema, cada m\u00fasica, cada teorema descoberto, deduzido ou criado por qualquer homem em qualquer canto da Terra \u00e9 devidamente anotado em linguagem acess\u00edvel aos demais habitantes do planeta (ou boa parte deles) de modo a formar um conjunto fant\u00e1stico de informa\u00e7\u00f5es, de dados. A conex\u00e3o que h\u00e1 entre os seres humanos de diferentes partes do mundo n\u00e3o existe entre nenhum outro tipo de animal, mesmo considerando que baleias e muitas esp\u00e9cies de aves atravessam continentes mais rapidamente e com mais autonomia do que qualquer um de n\u00f3s.<\/p>\n<p>A\u00ed est\u00e1 a diferen\u00e7a: enquanto os outros animais s\u00e3o mais dotados, naturalmente (ou seja, pela natureza), n\u00f3s somos muito mais capazes, socialmente (ou seja, por causa de nossa organiza\u00e7\u00e3o social). Em outras palavras, a superioridade do ser humano n\u00e3o \u00e9 definida pela natureza, ou por qualquer deus, mas pela hist\u00f3ria. N\u00e3o nascemos assim, mas assim nos tornamos. N\u00e3o somos o que somos por decis\u00e3o divina, mas por causa do nosso esfor\u00e7o. Para ser preciso, porque sabemos criar cultura, armazenar cultura e utilizar cultura se e quando achamos conveniente.<\/p>\n<p>Armazenar cultura pressup\u00f5e, preferencialmente, o dom\u00ednio da escrita. Mais precisamente, das letras e dos n\u00fameros. H\u00e1 poucas d\u00favidas de que tanto a escrita quanto os n\u00fameros surgiram em fun\u00e7\u00e3o da necessidade que antigos imp\u00e9rios do M\u00e9dio Oriente tinham para controlar a produ\u00e7\u00e3o (principalmente de gr\u00e3os) e o pagamento de impostos. \u00c9 poss\u00edvel que a escrita tenha surgido em mais de uma regi\u00e3o de modo simult\u00e2neo, mas ainda n\u00e3o se pode afirmar se isso aconteceu ou se, por ser muito pr\u00e1tica, a inven\u00e7\u00e3o se espalhou por difus\u00e3o cultural. O fato \u00e9 que, aos poucos, a escrita vai se aperfei\u00e7oando at\u00e9 chegar \u00e0 alfab\u00e9tica, bem pr\u00f3xima da que utilizamos at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p>Aos poucos, tamb\u00e9m, o local em que se escreve vai mudando. \u00c9 em blocos de pedras, depois em peda\u00e7os de barro, em plantas (como o papiro), em pele de animais (como o pergaminho), no papel. Neste, escrevia-se com penas naturais, depois com simulacros de penas (os mais velhos talvez se lembrem das canetas e penas escolares, dos tinteiros port\u00e1teis e fixos). As canetas esferogr\u00e1ficas foram substitu\u00eddas pelas m\u00e1quinas de escrever, estas pelo computador, pelo smartphone.<\/p>\n<p>Nesse processo todo, o homem criou o livro. O livro passou, com justi\u00e7a, a ser o s\u00edmbolo mais acabado da cultura humana. \u00c9 no livro que o cientista apresenta suas descobertas, que o historiador narra e explica o que aconteceu, que o escritor cria as narrativas que nos permitem viver aventuras sem correr risco, que o poeta expressa a dor que n\u00e3o sente, mas que n\u00f3s sentimos. \u00c9 no livro que o urbanista apresenta a cidade que n\u00e3o existe, mas que deveria existir, que lembramos a saga de nossa fam\u00edlia, de nossa cidade, de nosso povo. \u00c9 nos livros que discordamos de forma civilizada, que opomos ideia a ideia, sem guerrear, sem derramar sangue.<\/p>\n<p>\u00c9 nos livros que viajamos sem sair do lugar, que nos igualamos, jovens e velhos. Quando lemos, n\u00e3o temos perna quebrada, n\u00e3o estamos presos no leito, n\u00e3o estamos impedidos de viajar, pois, com o livro, podemos viajar para qualquer lugar. Somos o bicho mais h\u00e1bil e inteligente porque s\u00f3 n\u00f3s conseguimos ler livros.<\/p>\n<p>Agora, mais do que nunca, \u00e9 importante ler livros. Com eles, e s\u00f3 com eles, atravessaremos as piores tempestades. Se a capacidade intelectual do homem foi, como querem alguns, um dom de Deus, sem d\u00favida foi Deus que criou o livro.<\/p>\n<p>(JAIME PINSKY \u00e9 historiador, professor titular da Unicamp \u2014 Email: jaimepinsky@gmail.com)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Qual \u00e9 a principal diferen\u00e7a entre os homens e os demais animais que habitam o nosso planeta? Vantagens apregoadas durante muito tempo, como a capacidade de amar, a mem\u00f3ria, a organiza\u00e7\u00e3o social, os la\u00e7os familiares duradouros, n\u00e3o podem mais ser considerados. 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