{"id":18755,"date":"2019-02-07T10:02:50","date_gmt":"2019-02-07T12:02:50","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=18755"},"modified":"2019-02-07T10:02:50","modified_gmt":"2019-02-07T12:02:50","slug":"este-esse-aquele-emprego","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/este-esse-aquele-emprego\/","title":{"rendered":"Este, esse, aquele: emprego"},"content":{"rendered":"<p>Voc\u00ea leu? Saiu no jornal. Paulo, funcion\u00e1rio do Banco Central, quis mudar de ares. Amigo do ministro, deu um jeito de ser requisitado para a Fazenda. No of\u00edcio de encaminhamento, o BC frisava que \u201cos \u00f4nus correr\u00e3o por conta dessa institui\u00e7\u00e3o\u201d. Chegou o fim do m\u00eas. Cad\u00ea sal\u00e1rio?<\/p>\n<p>O banco dizia que o minist\u00e9rio deveria pagar. O minist\u00e9rio dizia que era o banco. E da\u00ed? O xis da resposta estava no pronome demonstrativo: \u201dOs \u00f4nus correr\u00e3o por conta dessa institui\u00e7\u00e3o\u201d. Qual? Adivinhar \u00e9 proibido. Imp\u00f5e-se conhecer as manhas do emprego do <em>este, esta, esse, essa, aquele, aquela<\/em>. Eles s\u00e3o dedos-duros. Indicam situa\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o, no tempo e no texto. Desvendado o mist\u00e9rio, oba! A resposta brilha.<\/p>\n<p><strong>Manhas <\/strong><\/p>\n<p>Para entender o assunto, lembre-se das pessoas do discurso. Discurso, no caso, n\u00e3o tem nada a ver com com\u00edcio ou fala\u00e7\u00e3o de pol\u00edtico. Discurso significa conversa. As pessoas do discurso s\u00e3o as que tomam parte em um bate-papo. S\u00e3o tr\u00eas. Algumas interessantes, outras nem tanto. Uma fala (1\u00aa pessoa). Outra escuta (2\u00aa pessoa). A \u00faltima \u00e9 o assunto, sobre o que se fala (3\u00aa pessoa).<\/p>\n<p><strong>Exemplo<\/strong><\/p>\n<p>Imagine que Rafael telefone para Jo\u00e3o e lhe pergunte se foi ao cinema. No caso, Rafael fala. \u00c9 a 1\u00aa pessoa. Jo\u00e3o escuta. \u00c9 a 2\u00aa. Do que eles falam? Da ida ao cinema. \u00c9 a 3\u00aa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>1. Situa\u00e7\u00e3o no espa\u00e7o <\/strong><\/p>\n<p><strong>Este<\/strong> indica que o objeto est\u00e1 perto da pessoa que fala (pode ser refor\u00e7ado com o adv\u00e9rbio <em>aqui<\/em>): <em>esta<\/em> <em>bolsa<\/em> (aqui); <em>este jornal<\/em> (referindo-se ao jornal que est\u00e1 perto); <em>esta sala<\/em> (a sala onde a pessoa que fala ou escreve est\u00e1).<\/p>\n<p><strong>Esse<\/strong> informa que o objeto est\u00e1 perto da pessoa com quem se fala (pode ser refor\u00e7ado com o adv\u00e9rbio <em>a\u00ed<\/em>): <em>esse<\/em> <em>livro<\/em> (o livro est\u00e1 perto da pessoa com quem se fala); <em>essa sala<\/em> (a sala onde a pessoa com quem se fala ou a quem se escreve est\u00e1).<\/p>\n<p><strong>Aquele<\/strong> diz que o objeto est\u00e1 longe tanto da pessoa que fala quanto da pessoa com quem se fala (pode ser refor\u00e7ado pelos adv\u00e9rbios <em>l\u00e1<\/em> ou <em>ali<\/em>): <em>Aquele quadro l\u00e1; aquele livro ali<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Eureca!<\/strong><\/p>\n<p>A solu\u00e7\u00e3o do drama do Paulo est\u00e1 nesse emprego. O <strong>essa<\/strong> se refere ao ser com quem se fala. No caso, o Minist\u00e9rio da Fazenda. Se fosse o Banco Central, o texto diria que os \u00f4nus correriam por conta \u201cdesta institui\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>2. Situa\u00e7\u00e3o no tempo <\/strong><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><strong>Este<\/strong> indica tempo presente: <em>este ano, este m\u00eas, esta semana<\/em> (o ano, o m\u00eas e a semana em que estamos); <em>este fim de semana<\/em> (o fim de semana pr\u00f3ximo, que o falante considera presente).<\/p>\n<p><strong>Esse<\/strong> ou <strong>aquele<\/strong> exprimem tempo passado (esse, passado pr\u00f3ximo; aquele, distante): <em>Visitei Santos pela primeira vez em 1970. Nesse (ou naquele) tempo, eu morava em Porto Alegre.<\/em><\/p>\n<p><strong>Eis um n\u00f3<\/strong><\/p>\n<p>Como saber se o passado \u00e9 pr\u00f3ximo ou remoto? Depende de cada um. O tempo \u00e9 psicol\u00f3gico. Uma hora com dor de dente \u00e9 uma eternidade. Se for \u00e0 noite, nem se fala. S\u00e3o duas eternidades.<\/p>\n<p><strong>Superdica<\/strong><\/p>\n<p>Guarde isto: presen<strong>t<\/strong>e se escreve com <strong>t<\/strong>. Es<strong>t<\/strong>e e es<strong>t<\/strong>a tamb\u00e9m. Pa<strong>ss<\/strong>ado se grafa com <strong>ss<\/strong>. E<strong>ss<\/strong>e e e<strong>ss<\/strong>a idem.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>3. Situa\u00e7\u00e3o no texto <\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong>Este<\/strong> indica refer\u00eancia anterior: <em>Paul Val\u00e8ry deu <strong>esta<\/strong> sugest\u00e3o aos escritores: &#8220;Entre duas palavras, escolha sempre a mais simples; entre duas palavras simples, escolha a mais curta&#8221;<\/em> (a sugest\u00e3o \u00e9 anunciada antes e expressa depois).<\/p>\n<p><strong>Esse<\/strong> anuncia refer\u00eancia posterior: <em>&#8220;Entre duas palavras, escolha sempre a mais simples; entre duas palavras simples, escolha a mais curta.&#8221; <strong>Essa<\/strong> sugest\u00e3o, escrita por Paul Val\u00e8ry no in\u00edcio do s\u00e9culo 20, \u00e9 um dos mandamentos do texto contempor\u00e2neo.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Voc\u00ea leu? Saiu no jornal. Paulo, funcion\u00e1rio do Banco Central, quis mudar de ares. Amigo do ministro, deu um jeito de ser requisitado para a Fazenda. 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