{"id":19083,"date":"2019-03-10T16:00:03","date_gmt":"2019-03-10T19:00:03","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=19083"},"modified":"2019-03-10T16:00:03","modified_gmt":"2019-03-10T19:00:03","slug":"deve-haver-trombadas-devem-haver-trombadas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/deve-haver-trombadas-devem-haver-trombadas\/","title":{"rendered":"Deve haver trombadas? Devem haver trombadas?"},"content":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Silva \u00e9 voraz leitor de jornais. Na viagem por letras, palavras, per\u00edodos e par\u00e1grafos, presta aten\u00e7\u00e3o ao fato e ao texto. Nada escapa ao olhar atento e \u00e0 cr\u00edtica perspicaz. \u00c9 dele o coment\u00e1rio: \u201cConstato que, gradativamente, h\u00e1 aumento consider\u00e1vel no n\u00famero de erros grosseiros de portugu\u00eas em reportagens, cr\u00f4nicas e at\u00e9 em editoriais. Os deslizes s\u00e3o tantos que n\u00e3o me animo a apont\u00e1-los a cada dia. Hoje, por\u00e9m, h\u00e1 um imperdo\u00e1vel na capa. Ei-lo: `O diretor admitiu que devem haver mais confrontos com bandidos\u00b4. Baita trombada, n\u00e3o?\u201d<\/p>\n<p><b>O verbo singular<\/b><\/p>\n<p>L\u00e1 longe, no curso prim\u00e1rio, nossos professores ensinavam: \u201cO verbo haver, no sentido de <i>existir e ocorrer<\/i>, \u00e9 impessoal\u201d. O que isso quer dizer? A maioria dos verbos \u2014 comuns, rotineiros, sem charme \u2013 <i>\u00e9 pessoal<\/i>. Conjuga-se em todas as pessoas (eu, tu, ele, n\u00f3s, v\u00f3s, eles). Veja, por exemplo, o laborioso <i>trabalhar: eu trabalho, tu trabalhas, ele trabalha, n\u00f3s trabalhamos, v\u00f3s trabalhais, eles trabalham. <\/i><\/p>\n<p>O <strong>haver<\/strong> detesta fazer parte de rebanho. Quer ser especial. E consegue. No sentido de <i>ocorrer<\/i> e <i>existir<\/i>, \u00e9 <i>impessoal<\/i>. Sem sujeito, s\u00f3 se conjuga 3<sup><span lang=\"pt-BR\">a<\/span><\/sup> pessoa do singular. Por isso recebe o apelido de verbo singular. Exemplos n\u00e3o faltam: <i>H\u00e1 (existem) 10 pessoas na sala. No leil\u00e3o, havia (existiam) antiguidades pra dar e vender.<\/i> <i>Acompanhamos as tentativas que houve <\/i>(existiram) <i>at\u00e9 aqui. Houve <\/i>(ocorreram) <i>dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es. A demanda \u00e9 por habita\u00e7\u00f5es que n\u00e3o h\u00e1 <\/i>(existem) <i>no mercado. <\/i><\/p>\n<p><b>A raz\u00e3o<\/b><\/p>\n<p>Vamos combinar? N\u00e3o \u00e9 nada do outro mundo. Por que, ent\u00e3o, se faz tanta confus\u00e3o com a criatura? \u00c9 poss\u00edvel que muitos n\u00e3o tenham prestado aten\u00e7\u00e3o \u00e0s palavras do professor. Ou n\u00e3o tenham entendido a li\u00e7\u00e3o. Ou, ainda, tenham deixado a explica\u00e7\u00e3o entrar por um ouvido e sair por outro.<\/p>\n<p>Resultado: at\u00e9 hoje, barbudos e carecas pensam que o sofisticado <i>haver<\/i> \u00e9 igual aos demais membros da tribo. Esquecem que ele n\u00e3o tem sujeito.Com medo de errar, imaginam que o objeto direto \u00e9 o sujeito. Bobeiam. Quando se diz \u201chouve poucos dist\u00farbios\u201d, <i>dist\u00farbios<\/i> n\u00e3o \u00e9 sujeito como pensam os desavisados. \u00c9 objeto direto. N\u00e3o tem nada a ver com a concord\u00e2ncia.<\/p>\n<p><b>Cont\u00e1gio<\/b><\/p>\n<p>A impessoalidade \u00e9 contagiosa. Os <strong>auxiliares do haver<\/strong> tamb\u00e9m se tornam impessoais. Foi a\u00ed que o jornal trope\u00e7ou: <em><strong>Haver\u00e1<\/strong> mais confrontos com bandidos. <strong>Deve haver<\/strong> mais confrontos com bandidos. <strong>Vai haver<\/strong> mais confrontos com bandidos. <strong>Pode haver<\/strong> mais confrontos com bandidos. Talvez <strong>v\u00e1 haver<\/strong> mais confrontos com bandidos<\/em>.<\/p>\n<p><b>Mais exemplos<\/b><\/p>\n<p>Olho no cont\u00e1gio:<em> Houve dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es. Talvez tenha havido dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es. Vai haver dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es em Caracas? Pode haver dist\u00farbios nas manifesta\u00e7\u00f5es. Tor\u00e7o para que n\u00e3o haja dist\u00farbios durante as manifesta\u00e7\u00f5es. E voc\u00ea?<\/em><\/p>\n<p><b>Conselho<\/b><\/p>\n<p>Dizem que, se conselho fosse t\u00e3o bom, a gente n\u00e3o dava. Vendia. V\u00e1 l\u00e1. Mas eis um de gra\u00e7a: sempre que pintar a tenta\u00e7\u00e3o de flexionar o haver, pare e pense. No sentido de ocorrer e de existir, ele \u00e9 invari\u00e1vel, irremediavelmente fiel \u00e0 3<sup><span lang=\"pt-BR\"><u>a<\/u><\/span><\/sup> pessoa. Por via das d\u00favidas, risque o <i>houveram <\/i>do seu vocabul\u00e1rio. Voc\u00ea nunca o usar\u00e1.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>M\u00e1rio Silva \u00e9 voraz leitor de jornais. Na viagem por letras, palavras, per\u00edodos e par\u00e1grafos, presta aten\u00e7\u00e3o ao fato e ao texto. Nada escapa ao olhar atento e \u00e0 cr\u00edtica perspicaz. \u00c9 dele o coment\u00e1rio: \u201cConstato que, gradativamente, h\u00e1 aumento consider\u00e1vel no n\u00famero de erros grosseiros de portugu\u00eas em reportagens, cr\u00f4nicas e at\u00e9 em editoriais. 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