{"id":19293,"date":"2019-04-05T14:59:54","date_gmt":"2019-04-05T17:59:54","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=19293"},"modified":"2019-04-05T14:59:54","modified_gmt":"2019-04-05T17:59:54","slug":"coesao-como-dizer-coisa-com-coisa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/coesao-como-dizer-coisa-com-coisa\/","title":{"rendered":"Coes\u00e3o: como dizer coisa com coisa"},"content":{"rendered":"<p>&#8220;Socooooooooooooooooooooooooorro!&#8221;, gritam vestibulandos e concurseiros de Europa, Fran\u00e7a e Bahia. O motivo: perdem pontos a rodo num tal item chamado coes\u00e3o. Eles procuram o assunto nas gram\u00e1ticas. N\u00e3o encontram. Celsos Cunhas, Becharas, Cegallas n\u00e3o dedicam nenhum cap\u00edtulo ao tema. Por qu\u00ea?<\/p>\n<p>A raz\u00e3o \u00e9 simples. Coes\u00e3o est\u00e1 presente na morfologia, na sintaxe, nas figuras de linguagem. Ao estudar substantivos, verbos, pronomes, conjun\u00e7\u00f5es, preposi\u00e7\u00f5es, coordena\u00e7\u00e3o, subordina\u00e7\u00e3o, etc. e tal, indiretamente estudamos coes\u00e3o. Eles oferecem recursos pra ligar palavras, ligar per\u00edodos, ligar par\u00e1grafos. Em suma: juntar partes soltas em unidades coerentes.<\/p>\n<p><strong>Preposi\u00e7\u00f5es e conjun\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p><em>Anel<\/em> e <em>ouro<\/em> s\u00e3o duas palavras que n\u00e3o se conhecem nem de elevador. Mas formam unidade com a ajuda da preposi\u00e7\u00e3o <em>de<\/em>: <em>anel de ouro<\/em>.<\/p>\n<p><em>Cozinho, estamos sem empregada. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Que rela\u00e7\u00e3o existe entre enunciados assim independentes? A conjun\u00e7\u00e3o se encarrega de p\u00f4r os pontos nos ii. Ela pode indicar <em>causa<\/em> (cozinho porque estamos sem empregada). Pode indicar <em>tempo<\/em> (cozinho quando estamos sem empregada). Pode indicar <em>dura\u00e7\u00e3o<\/em> (cozinho enquanto estamos sem empregada). Pode indicar <em>condi\u00e7\u00e3o<\/em> (cozinho se estamos sem empregada).<\/p>\n<p><strong>\u00a0Pronomes<\/strong><\/p>\n<p>Pronomes exercem duplo papel. Al\u00e9m de auxiliar a coes\u00e3o, contribuem para a eleg\u00e2ncia. Como? Evitam repeti\u00e7\u00f5es. Veja:<\/p>\n<p><em>Rafael e Jo\u00e3o Marcelo s\u00e3o irm\u00e3os. Este estuda medicina; aquele, direito.<\/em> (Este substitui Jo\u00e3o Marcelo; aquele, Rafael.)<\/p>\n<p><em>Oscar Niemeyer se casou aos 99 anos. Ele e a noiva se conheceram anos antes. <\/em>(<em>Ele <\/em>substitui Niemeyer)<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong>Por falar em repeti\u00e7\u00e3o\u2026<\/strong><\/p>\n<p>Nem toda repeti\u00e7\u00e3o \u00e9 m\u00e1. A estil\u00edstica, que d\u00e1 liga e charme ao texto, longe est\u00e1 de indicar pobreza vocabular. \u00c9 o caso do &#8220;\u00e9 preciso\u201d reiterado neste par\u00e1grafo:<\/p>\n<p><em>Como acabar com a cultura do desperd\u00edcio? Ela tem de ser desmontada por dentro. \u00c9 preciso que os brasileiros n\u00e3o joguem fora restos de comida aproveit\u00e1veis nem deixem as l\u00e2mpadas acesas quando saem de um aposento. \u00c9 preciso que os livros escolares sejam aproveitados pelos irm\u00e3os menores. \u00c9 preciso n\u00e3o destruir os bens p\u00fablicos. \u00c9 preciso, enfim, martelar insistentemente na necessidade de poupar.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o caso, tamb\u00e9m, deste trecho de Barack Obama:<\/p>\n<p><em>Sim, n\u00f3s podemos. N\u00f3s podemos recuperar a economia do pa\u00eds. N\u00f3s podemos legar uma p\u00e1tria melhor pra nossos filhos e netos. N\u00f3s podemos respeitar os direitos humanos. N\u00f3s podemos zelar pelo meio ambiente. N\u00f3s podemos construir um mundo mais justo e democr\u00e1tico. Sim, n\u00f3s podemos.<\/em><\/p>\n<p><strong>\u00a0Mais<\/strong><\/p>\n<p>Viu? O entrela\u00e7amento das ideias se d\u00e1 por meio de v\u00e1rios mecanismos. Examinamos alguns. H\u00e1 mais. A manuten\u00e7\u00e3o do tema figura entre os mais importantes. Trata-se da persegui\u00e7\u00e3o do tema sem desvios. \u00c9 a tal hist\u00f3ria: quem se ajoelha tem de rezar. Examine este par\u00e1grafo do livro <em>Sonhos de Einstein<\/em>, de Alan Lightma:<\/p>\n<p><em>\u00a0Min\u00fasculos sons da cidade flutuam pela sala. Uma garrafa de leite tilinta contra uma pedra. Um toldo \u00e9 esticado em uma loja. Uma carro\u00e7a de verduras transita lentamente por uma rua. Um homem e uma mulher sussurram em um apartamento pr\u00f3ximo.<\/em><\/p>\n<p>Que responsabilidade! O t\u00f3pico frasal (1\u00ba per\u00edodo) amarrou as ideias. Sem ele, os exemplos de sons da cidade ficariam sem elo. O leitor n\u00e3o saberia aonde as frases querem chegar. Em suma: um amontoado de ideias e nenhum recado. (Duvida? Banque o S\u00e3o Tom\u00e9. Leia o par\u00e1grafo sem o t\u00f3pico frasal. E da\u00ed?)<\/p>\n<p><strong>Moral da hist\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p>Em bom portugu\u00eas, coes\u00e3o \u00e9 dizer coisa com coisa. Op\u00f5e-se ao samba do texto doido.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;Socooooooooooooooooooooooooorro!&#8221;, gritam vestibulandos e concurseiros de Europa, Fran\u00e7a e Bahia. O motivo: perdem pontos a rodo num tal item chamado coes\u00e3o. Eles procuram o assunto nas gram\u00e1ticas. N\u00e3o encontram. Celsos Cunhas, Becharas, Cegallas n\u00e3o dedicam nenhum cap\u00edtulo ao tema. Por qu\u00ea? A raz\u00e3o \u00e9 simples. Coes\u00e3o est\u00e1 presente na morfologia, na sintaxe, nas figuras de linguagem. 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