{"id":20096,"date":"2019-06-30T08:50:17","date_gmt":"2019-06-30T11:50:17","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=20096"},"modified":"2019-06-30T08:50:17","modified_gmt":"2019-06-30T11:50:17","slug":"crase-objeto-direto-adjunto-adverbial-e-superdica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/crase-objeto-direto-adjunto-adverbial-e-superdica\/","title":{"rendered":"Crase: objeto direto, adjunto adverbial e superdica"},"content":{"rendered":"<p>\u201cA crase n\u00e3o foi feita pra humilhar ningu\u00e9m.\u201d A frase de Ferreira Gullar fez escola. Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Carvalho adaptou-a para o sinalzinho de pontua\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel por um mar de v\u00edtimas. \u201cA v\u00edrgula\u201d, escreveu ele, \u201cn\u00e3o foi feita pra humilhar ningu\u00e9m\u201d. \u00c9 verdade. Uma e outra t\u00eam papel definido. Contribuem para a clareza da mensagem. Dois casos servem de exemplo.<\/p>\n<p><strong>Um<\/strong><\/p>\n<p>Circula na internet uma brincadeirinha divertida. Ela joga com os diferentes sentidos decorrentes da presen\u00e7a ou da aus\u00eancia da crase. Veja:<\/p>\n<p><strong>Se voc\u00ea me desse a tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase.<\/strong><\/p>\n<p>Do jeito que est\u00e1, <em>a tarde<\/em> funciona como objeto direto. Ela completa o sentido do verbo dar. A gente d\u00e1 alguma coisa \u2014 dinheiro, presente, boa not\u00edcia. No caso, a pessoa d\u00e1 a parte do dia em que o Sol come\u00e7a a voltar pra casa. Belo e po\u00e9tico presente. Mas o receptor se disp\u00f5e a abrir m\u00e3o dele. Prefere troc\u00e1-lo por algo que n\u00e3o est\u00e1 expresso, mas apenas subentendido:<\/p>\n<p><strong>\u00a0Se voc\u00ea me desse \u00e0 tarde, eu alegremente a trocaria por uma crase<\/strong><em>.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c0 tarde<\/em>, assim, com acentinho grave, muda o enredo da novela. Em vez de complemento rom\u00e2ntico, torna-se adjunto adverbial de tempo. O objeto fica em aberto, entregue ao gosto do fregu\u00eas. Marcelo Abreu comentou: \u201cComo se diz no Maranh\u00e3o, \u00e9 crase cheia de sali\u00eancia. Com ela, a hist\u00f3ria mudaria completamente\u201d.<\/p>\n<p><strong>Dois<\/strong><\/p>\n<p><em>O amor bate \u00e0 porta<\/em><\/p>\n<p><em>E tudo \u00e9 festa.<\/em><\/p>\n<p><em>O amor bate a porta<\/em><\/p>\n<p><em>E nada resta.<\/em><\/p>\n<p>A quadra, do piauiense Cineas Santos, tamb\u00e9m brinca com o acento grave. Como no exemplo anterior, o autor joga com as possibilidades da l\u00edngua. <em>\u00c0 porta<\/em> funciona como adjunto adverbial de lugar. Toc, toc, toc, anuncia ele, louco para entrar.<\/p>\n<p>Em \u201cbate a porta\u201d, <em>porta<\/em> funciona como complemento do verbo bater. Podemos bater o bolo, bater o ponto, bater o prego. Ele pummmmmmm! Adeus, para nunca mais.<\/p>\n<p><strong>Por falar em crase&#8230;<\/strong><\/p>\n<p>Vamos combinar? S\u00f3 pode brincar com crases &amp; cia. quem conhece as possibilidades da l\u00edngua. \u00c9 o caso dos autores analisados. Eles dominam as manhas do acento grave. N\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil. Quer ver?<\/p>\n<ol>\n<li>S\u00f3 ocorre crase se dois aa se encontrarem. O cas\u00f3rio se d\u00e1 quando a preposi\u00e7\u00e3o <strong>a<\/strong> encontra outro <strong>a<\/strong>. Pode ser o artigo definido, o pronome demonstrativo <strong>a<\/strong>, ou o <strong>a<\/strong> inicial dos pronomes <strong><em>a<\/em><\/strong><em>quele, <strong>a<\/strong>quela, <strong>a<\/strong>quilo: O c\u00e3o \u00e9 fiel \u00e0 dona. Entreguei o relat\u00f3rio \u00e0quele senador. Fez refer\u00eancia \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o \u00e0 qual nos temos dedicado.<\/em><\/li>\n<\/ol>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 2. <\/em>Excluindo-se o caso dos demonstrativos, s\u00f3 haver\u00e1 crase antes de palavra feminina, clara ou subentendida: <em>Obedecemos \u00e0 lei. Fui \u00e0 Editora Nacional e \u00e0 (editora) Globo. Canta \u00e0 (moda de, maneira de) Julio Iglesias.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0 \u00a0 \u00a0 3. <\/em>Use a crase em locu\u00e7\u00f5es adverbiais, prepositivas e conjuntivas formadas por palavras femininas: <em>\u00e0 vista, \u00e0s vezes, \u00e0s escuras, \u00e0s pressas, \u00e0 noite, \u00e0 tarde, \u00e0 moda de, \u00e0s apalpadelas, \u00e0s tontas, \u00e0s claras, \u00e0 direita, \u00e0 esquerda, \u00e0 uma hora, \u00e0 base de, \u00e0 custa de, \u00e0 for\u00e7a de, \u00e0 espera de, \u00e0 medida que, \u00e0 propor\u00e7\u00e3o que.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><strong>Superdica<\/strong><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>Forma f\u00e1cil de descobrir se ocorre crase \u00e9 substituir a palavra feminina por uma masculina (n\u00e3o precisa ser sin\u00f4nima). Apareceu <strong>ao<\/strong>? Sinal de acento grave:<\/p>\n<p><em>Fiel \u00e0 dona. <\/em>Fiel<em> <strong>ao<\/strong><\/em> <em>dono. <\/em><\/p>\n<p><em>Fez refer\u00eancia \u00e0 tradu\u00e7\u00e3o (ao texto) \u00e0 qual (texto ao qual) nos temos dedicado.<\/em><\/p>\n<p><em>Saiu <strong>\u00e0<\/strong> uma hora. Saiu <strong>ao<\/strong> meio-dia.<\/em><\/p>\n<p><em>Visitou <strong>a<\/strong> amiga. Visitou <strong>o<\/strong> amigo.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cA crase n\u00e3o foi feita pra humilhar ningu\u00e9m.\u201d A frase de Ferreira Gullar fez escola. Jos\u00e9 C\u00e2ndido de Carvalho adaptou-a para o sinalzinho de pontua\u00e7\u00e3o respons\u00e1vel por um mar de v\u00edtimas. \u201cA v\u00edrgula\u201d, escreveu ele, \u201cn\u00e3o foi feita pra humilhar ningu\u00e9m\u201d. \u00c9 verdade. Uma e outra t\u00eam papel definido. Contribuem para a clareza da mensagem. Dois casos servem de exemplo. 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