{"id":2044,"date":"2008-07-14T00:00:00","date_gmt":"2008-07-14T03:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/ja_eram\/"},"modified":"2008-07-14T00:00:00","modified_gmt":"2008-07-14T03:00:00","slug":"ja_eram","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/ja_eram\/","title":{"rendered":"J\u00e1 eram"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nImagine a cena: dia ap\u00f3s dia, ano ap\u00f3s ano, voc\u00ea encontra a mesma pessoa, com a mesma roupa, o mesmo sapato, o mesmo corte de cabelo, o mesmo sorriso, a mesma conversa. \u00c9 a mesmeira.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>Ser sempre igual n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio do reino dos homens. No reino da palavra tamb\u00e9m existem os mesmeiros. Chamam-se chav\u00f5es, clich\u00eas ou lugares-comuns. De tanto se repetidos, perdem a for\u00e7a original. Criaturas altamente previs\u00edveis, d\u00e3o a impress\u00e3o de roupa desgastada, batida, sem novidade.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>Como surgem esses seres? Ningu\u00e9m sabe ao certo. Aparecem inicialmente como grande novidade. A televis\u00e3o os divulga, o r\u00e1dio os propaga, os jornais os difundem. Ganham a boca do povo. Viram moda. Depois passam.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>Mas alguns fazem como a Carolina do Chico Buarque: \u201cO tempo passou na janela \/ s\u00f3 Carolina n\u00e3o viu\u201d. Acomodados, nem se d\u00e3o conta de que a onda mudou. T\u00eam pregui\u00e7a de descartar a antiga. E continuam a repeti-la.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>Os chav\u00f5es detestam andar sozinhos. \u00c0s vezes o substantivo se junta ao adjetivo e forma uma dupla. S\u00e3o os casaizinhos: calor escaldante, cr\u00edtica construtiva, esposa dedicada, filho exemplar, infla\u00e7\u00e3o galopante, obra fara\u00f4nica, perda irrepar\u00e1vel, sil\u00eancio sepulcral, singela homenagem, sol escaldante, vaias estrepitosas, singela homenagem, precioso l\u00edquido (\u00e1gua), astro-rei (sol), soldado do fogo (bombeiro), profissional do volante (motorista), mestre Aur\u00e9lio (dicion\u00e1rio).<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;Outras vezes, os clich\u00eas v\u00e3o al\u00e9m. Formam frases ou locu\u00e7\u00f5es: inserido no contexto, abrir com chave de ouro, dar o pontap\u00e9 inicial, acertar os ponteiros, ao apagar das luzes, cair como uma bomba, depois de longo e tenebroso inverno, dizer cobras e lagartos, desbaratar a quadrilha, do Oiapoque ao Chu\u00ed, fugir da raia, hora da verdade, morrer de amores, passar em brancas nuvens, perder o bonde da hist\u00f3ria, pomo da disc\u00f3rdia, sagrar-se campe\u00e3o, t\u00e1bua de salva\u00e7\u00e3o, tiro de miseric\u00f3rdia, voltar \u00e0 estaca zero, a mil, a mil por hora, arrebentar a boca do bal\u00e3o.<br \/>\n&nbsp;<\/p>\n<p>Lembre-se: o que \u00e9 escrito sem esfor\u00e7o \u00e9 lido sem prazer. Os chav\u00f5es envelhecem o texto. Livre-se deles. Sua reda\u00e7\u00e3o agradece. Seu professor tamb\u00e9m. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Imagine a cena: dia ap\u00f3s dia, ano ap\u00f3s ano, voc\u00ea encontra a mesma pessoa, com a mesma roupa, o mesmo sapato, o mesmo corte de cabelo, o mesmo sorriso, a mesma conversa. \u00c9 a mesmeira. &nbsp; Ser sempre igual n\u00e3o \u00e9 privil\u00e9gio do reino dos homens. No reino da palavra tamb\u00e9m existem os mesmeiros. Chamam-se chav\u00f5es, clich\u00eas ou lugares-comuns. De tanto se repetidos, [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-2044","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-geral"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2044","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2044"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2044\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2044"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2044"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2044"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}