{"id":21183,"date":"2019-11-10T08:12:30","date_gmt":"2019-11-10T11:12:30","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=21183"},"modified":"2019-11-11T08:41:00","modified_gmt":"2019-11-11T11:41:00","slug":"excelencias-majestades-mofo-centenario","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/excelencias-majestades-mofo-centenario\/","title":{"rendered":"Pronomes de tratamento: para qu\u00ea? X\u00f4!"},"content":{"rendered":"<p>A sess\u00e3o corria solta no Supremo Tribunal Federal. Discursos recheados de juridiqu\u00eas falavam da licen\u00e7a-maternidade. De repente, n\u00e3o mais que de repente, o advogado Renato Nunes disse que &#8220;o pedido de justi\u00e7a que estou fazendo aqui para voc\u00eas, excel\u00eancias, nunca foi t\u00e3o eloquente&#8221;. Marco Aur\u00e9lio Mello empinou-se. \u201cPara voc\u00eas?\u201d, perguntou. O advogado ficou confuso. O ministro explicou que se referia \u00e0 forma de tratamento.<\/p>\n<p><strong>Do ba\u00fa real<\/strong><\/p>\n<p>Dizem que tudo come\u00e7ou no s\u00e9culo 12. Exatamente em 1143, quando Portugal se tornou reino independente. Afonso Henriques, o primeiro rei, deu in\u00edcio \u00e0 hist\u00f3ria. Sentia-se t\u00e3o poderoso que dizia \u201cDeus sou eu\u201d. Era proibido dirigir-se a ele. Quem ousasse perdia a cabe\u00e7a. Da\u00ed, bem antes da guilhotina, surgiu o verbo decapitar, que significa cortar a cabe\u00e7a. Que med\u00e3o!<\/p>\n<p><strong>Enrascada<\/strong><\/p>\n<p>Como fazer? Se, no auge da paix\u00e3o, a amada dissesse ao monarca \u201cte amo\u201d, a cabe\u00e7a dela rolava. Se o m\u00e9dico perguntasse ao soberano o que estava sentindo, n\u00e3o recebia resposta. A degola vinha antes. O que fazer? O Conselho de S\u00e1bios se reuniu. Nasceu a\u00ed o jeitinho brasileiro. A m\u00e1gica era esta: ningu\u00e9m falaria ao rei, mas \u00e0 majestade do rei. Cham\u00e1-lo-iam de Vossa Majestade. As pessoas se dirigiam ao rei sem se dirigir a ele.<\/p>\n<p>O coroado ficou feliz. Os bajuladores, que existiam desde ent\u00e3o, come\u00e7aram a inventar pronomes. Dirigiam-se \u00e0 excel\u00eancia do rei, \u00e0 magnific\u00eancia do rei, \u00e0 senhoria do rei. E por a\u00ed vai. Os nobres, invejosos, reivindicaram privil\u00e9gios semelhantes. O clero tamb\u00e9m. Generoso, o rei se satisfez com a majestade. Os outros que se entendessem com a partilha dos demais.<\/p>\n<p><strong>Partilha<\/strong><\/p>\n<p>Oba! Pr\u00edncipes ficaram com alteza. Reitores, com magnific\u00eancia. Cardeais, com emin\u00eancia. Sacerdotes em geral, com reverend\u00edssima. Altas autoridades do Estado, com excel\u00eancia. Funcion\u00e1rios p\u00fablicos, com senhoria. E o papa? O pont\u00edfice contentou-se com santidade.<\/p>\n<p><strong>Concord\u00e2ncia<\/strong><\/p>\n<p>\u201cVossa Majestade <em>\u00e9<\/em> divino. Sou <em>sua<\/em> devota\u201d, dizia a futura rainha. Reparou? A namorada sabida fazia a concord\u00e2ncia como manda a gram\u00e1tica. Ela se dirigia \u00e0 majestade do amado. Por isso o verbo (\u00e9) e o pronome (sua) est\u00e3o na 3\u00aa pessoa. Vossa Excel\u00eancia, Vossa Senhoria &amp; cia. exibida jogam no mesmo time.<\/p>\n<p><strong>Pessoa<\/strong><\/p>\n<p>Vossa Excel\u00eancia ou Sua excel\u00eancia? Depende. Vossa Excel\u00eancia \u00e9 o ser com quem se fala. Sua Excel\u00eancia, de quem se fala: <em>Cumprimento Vossa Excel\u00eancia pelo<\/em> <em>belo gesto. O advogado dirigiu-se a Sua Excel\u00eancia com o respeito habitual<\/em>.<\/p>\n<p><strong>Jeitinho<\/strong><\/p>\n<p>E o adjetivo? N\u00e3o deveria concordar com majestade,\u00a0 substantivo feminino? Sim. Mas quem ousaria chamar o rei, t\u00e3o mach\u00e3o, de divina? Deu-se outro jeito. Criou-se a silepse, figura que permite seja feita a concord\u00e2ncia com a ideia, n\u00e3o com a palavra. O adjetivo concorda com o sexo da pessoa, n\u00e3o com o substantivo: Sua Majestade, a rainha Elizabeth, \u00e9 amada pelo povo. Sua Majestade, o rei Gustavo, tamb\u00e9m \u00e9 amado.<\/p>\n<p><strong>Bolsonaro<\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 excel\u00eancia pra c\u00e1. Magnific\u00eancia pra l\u00e1. Emin\u00eancia pracol\u00e1. Eta coisa velha! O mofo centen\u00e1rio incomodou o presidente. Sua Excel\u00eancia usou a caneta Bic e p\u00f4s fim aos salamaleques. Acabou com o tratamento cerimonioso a autoridades. Excel\u00eancias &amp; cias. entram na vala comum. Viram senhor e senhora. Como diz a Constitui\u00e7\u00e3o, todos s\u00e3o iguais perante a lei. Mas a iniciativa s\u00f3 vale para o Executivo. Legislativo e Judici\u00e1rio n\u00e3o est\u00e3o nem a\u00ed. O tempo passou na janela, s\u00f3 Carolina n\u00e3o viu.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A sess\u00e3o corria solta no Supremo Tribunal Federal. Discursos recheados de juridiqu\u00eas falavam da licen\u00e7a-maternidade. De repente, n\u00e3o mais que de repente, o advogado Renato Nunes disse que &#8220;o pedido de justi\u00e7a que estou fazendo aqui para voc\u00eas, excel\u00eancias, nunca foi t\u00e3o eloquente&#8221;. Marco Aur\u00e9lio Mello empinou-se. \u201cPara voc\u00eas?\u201d, perguntou. O advogado ficou confuso. O ministro explicou que se referia \u00e0 forma de tratamento. Do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":25,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[203],"tags":[3840,3839,3841,3842],"class_list":["post-21183","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-portugues","tag-cupremo-tribunal-federal","tag-pronomes-de-tratamento","tag-voces","tag-vossa-excelencia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21183","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/users\/25"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=21183"}],"version-history":[{"count":4,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21183\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":21190,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/21183\/revisions\/21190"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=21183"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=21183"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=21183"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}