{"id":21304,"date":"2019-11-28T15:30:40","date_gmt":"2019-11-28T18:30:40","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=21304"},"modified":"2019-11-28T15:30:40","modified_gmt":"2019-11-28T18:30:40","slug":"violencia-contra-a-mulher-e-midia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/violencia-contra-a-mulher-e-midia\/","title":{"rendered":"Viol\u00eancia contra a mulher e m\u00eddia"},"content":{"rendered":"<p>Conta a mitologia que Agamenon foi lutar na guerra de Troia. L\u00e1 ficou 10 anos. Sem correios ou internet, a mulher pensou que ele tivesse morrido. E se casou de novo. Quando soube que Agamenon estava de volta, tramou com o novo marido a morte do ex.<\/p>\n<p>O filho Orestes matou a m\u00e3e e o companheiro dela. Vingou o pai, mas cometeu o crime mais grave da Gr\u00e9cia. A pena para o matricida era a morte. Ele pediu socorro a Apolo. O deus o levou para ser julgado no tribunal. Foi ent\u00e3o que Minerva presidiu o primeiro julgamento do mundo.<\/p>\n<p>Doze cidad\u00e3os atenienses formavam o j\u00fari \u2014 cinco homens e cinco mulheres. A vota\u00e7\u00e3o terminou empatada. Coube a Minerva o desempate. Ela declarou Orestes inocente.<\/p>\n<p>O voto de Minerva teve consequ\u00eancias. Ele p\u00f4s fim ao matriarcado. Os homens assumiram o poder. E, fisicamente mais fortes, liberaram a viol\u00eancia contra a mulher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os mitos das grandes religi\u00f5es os ajudaram a apresentar a mulher como portadora de maldades. E, por isso, merecedora de puni\u00e7\u00e3o. Eva comeu a ma\u00e7\u00e3, e os homens perderam o para\u00edso. Pandora trouxe a caixa que infestou a Terra de doen\u00e7as, guerras e sofrimentos.<\/p>\n<p>O <em>Cor\u00e3o<\/em> submeteu a mulher ao homem. O <em>Torah<\/em> diz que o homem \u00e9 a cabe\u00e7a do casal. Mitos orientais v\u00e3o na mesma toada. \u201cBata na sua mulher\u201d, mandam eles. \u201cVoc\u00ea pode n\u00e3o saber por que est\u00e1 batendo, mas ela sabe por que est\u00e1 apanhando\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Talvez por isso, o homem, dono e senhor da Terra, se sinta, tamb\u00e9m, dono e senhor de tudo o que nela existe. At\u00e9 da mulher. E, como propriet\u00e1rio, autorizado a dispor da vida dela. N\u00e3o \u00e9 de hoje que homem bate em mulher. N\u00e3o \u00e9 de hoje que homem mata mulher. Na <em>B\u00edblia<\/em>, a mulher era apedrejada at\u00e9 a morte. Na Idade M\u00e9dia, era jogada na fogueira.<\/p>\n<p>Assim \u00e9 no mundo todo. Da\u00ed por que a ONU declarou o 25 de novembro o Dia Internacional de Combate \u00e0 Viol\u00eancia contra a Mulher.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A viol\u00eancia n\u00e3o tem a ver com riqueza, pobreza, desenvolvimento, subdesenvolvimento. Ela ocorre no Gab\u00e3o e nas sociedades mais avan\u00e7adas. A Dinamarca, por exemplo, \u00e9 o pa\u00eds onde mais se comete feminic\u00eddio na Europa. Na Su\u00e9cia, Finl\u00e2ndia, Noruega, o estupro corre solto. E l\u00e1 mulher exerce as mesmas profiss\u00f5es de homem, n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a de sal\u00e1rio, a representa\u00e7\u00e3o no parlamento \u00e9 quase fifty fifty.<\/p>\n<p>O Brasil est\u00e1 mal na foto. Segundo a ONU, \u00e9 o pior pa\u00eds em viol\u00eancia de g\u00eanero na Am\u00e9rica Latina. \u00c9 a quinta na\u00e7\u00e3o que mais mata mulheres no mundo, atr\u00e1s de El Salvador, Col\u00f4mbia, Guatemala e R\u00fassia.<\/p>\n<p>Mata:<\/p>\n<p>48 vezes mais que o Reino Unido<\/p>\n<p>24 vezes mais que a Dinamarca<\/p>\n<p>16 vezes mais que Jap\u00e3o e Esc\u00f3cia<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As causas, segundo a ONU, s\u00e3o estruturais. V\u00eam l\u00e1 de longe e persistem teimosamente:<\/p>\n<ol>\n<li>Sentimento de posse sobre a mulher<\/li>\n<li>Controle sobre o corpo dela<\/li>\n<li>Imposi\u00e7\u00e3o de limites \u00e0 emancipa\u00e7\u00e3o<\/li>\n<li>Desprezo e \u00f3dio pela condi\u00e7\u00e3o feminina<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ora, esses fatores sempre existiram. Por que s\u00f3 recentemente ganharam visibilidade e mereceram alguma resposta?<\/p>\n<p>Fiquemos no Brasil:<\/p>\n<p><strong>1985<\/strong> \u2014 Foi inaugurada 1\u00aa delegacia da mulher (SP)<\/p>\n<p><strong>2006<\/strong> \u2014 foi promulgada a Lei Maria da Penha e foram abertas Casas Abrigo<\/p>\n<p><strong>2015<\/strong> \u2014 foi promulgada a Lei do Feminic\u00eddio<\/p>\n<p>As provid\u00eancias legais acompanharam a visibilidade p\u00fablica da mulher. Com o movimento feminista, a mulher saiu de casa. Deixou relegada \u00e0 poeira do tempo a realidade retratada pelo Padre Ant\u00f4nio Vieira: \u201cA mulher s\u00f3 deve sair de casa em tr\u00eas ocasi\u00f5es: no batizado, no casamento e na morte\u201d.<\/p>\n<p>Ela saiu de casa. Quebrou paradigmas. Ocupou o maior n\u00famero de vagas nas universidades. Disputa concursos p\u00fablicos, cargos eletivos, assume dire\u00e7\u00e3o de empresas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A viol\u00eancia, que se passava entre quatro paredes, foi pra rua. Virou not\u00edcia. A imprensa tem papel importante no processo. Ao informar o que fazer num ato de viol\u00eancia, jogou por terra a tal hist\u00f3ria de que em briga de marido e mulher ningu\u00e9m mete a colher. Mete sim. At\u00e9 filhos pequenos, informados, salvam m\u00e3es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 quem acuse a m\u00eddia de, ao divulgar a viol\u00eancia, estimular a viol\u00eancia. A den\u00fancia \u00e9 descabida. O jornalismo respons\u00e1vel busca a informa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o o sensacionalismo.<\/p>\n<p>A perda de uma vida \u00e9 grande preju\u00edzo. A perda de uma vida sempre nos empobrece. \u201cN\u00e3o perguntes por quem os sinos dobram\u201d, disse John Donne. \u201cEles dobram por ti.\u201d Por isso, ao anunciar o fato, \u00e9 importante deixar claros dois pontos:<\/p>\n<ol>\n<li>O assassinato poderia ter sido evitado?<\/li>\n<li>O crime teria ocorrido da mesma forma se a v\u00edtima fosse homem?<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Estamos no s\u00e9culo 21. A hist\u00f3ria e a ci\u00eancia mataram os mitos. Tamb\u00e9m atualizaram a leitura dos textos religiosos. \u00c9 hora de encarar a viol\u00eancia contra a mulher com nova pedagogia. De um lado, a repress\u00e3o. De outro, a preven\u00e7\u00e3o. A preven\u00e7\u00e3o passa, \u00a0necessariamente, pela m\u00eddia e pelas salas de aula.<\/p>\n<p>Escolas do Distrito Federal t\u00eam feito belo trabalho para mudar as crian\u00e7as. A Escola 22 do Gama tem um projeto chamado For\u00e7a, Substantivo Feminino. Com participa\u00e7\u00e3o efetiva do conselho tutelar, UnB, OAB, o projeto fortalece o feminino das meninas e desenvolve sentimentos emp\u00e1ticos nos meninos. E informa. Filhos, informados, salvam m\u00e3es.<\/p>\n<p>A luta \u00e9 pelo avan\u00e7o da civiliza\u00e7\u00e3o. Para que n\u00e3o haja necessidade de socorro porque n\u00e3o haver\u00e1 agress\u00e3o. Meninas, como as da escola do Gama, ser\u00e3o m\u00e3es que v\u00e3o contribuir pra acabar com a perpetua\u00e7\u00e3o da cultura machista da sociedade.<\/p>\n<p>Reduzir a viol\u00eancia contra a mulher \u00e9 um processo desafiante. Todos buscam respostas. O <em>Correio Braziliense<\/em> h\u00e1 muito abra\u00e7ou a causa. Desde a sua funda\u00e7\u00e3o, informa. Denuncia. Aponta trilhas. Cobra provid\u00eancias.<\/p>\n<p>Col\u00f3quios como este iluminam caminhos. S\u00e3o pra l\u00e1 de necess\u00e1rios. Pra l\u00e1 de bem-vindos. Pra l\u00e1 de frut\u00edferos. Parab\u00e9ns ao <em>Correio<\/em> pela luta \u2014 que \u00e9 de todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>(Dad Squarisi, na abertura do Col\u00f3quio Viol\u00eancia contra a Mulher e a M\u00eddia)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conta a mitologia que Agamenon foi lutar na guerra de Troia. L\u00e1 ficou 10 anos. Sem correios ou internet, a mulher pensou que ele tivesse morrido. E se casou de novo. Quando soube que Agamenon estava de volta, tramou com o novo marido a morte do ex. O filho Orestes matou a m\u00e3e e o companheiro dela. 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