{"id":21311,"date":"2019-11-30T09:04:41","date_gmt":"2019-11-30T12:04:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=21311"},"modified":"2019-11-30T09:07:16","modified_gmt":"2019-11-30T12:07:16","slug":"dona-onca-e-a-mulher-na-imprensa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/dona-onca-e-a-mulher-na-imprensa\/","title":{"rendered":"Dona On\u00e7a e a mulher na imprensa"},"content":{"rendered":"<p>Conta a lenda que os tr\u00eas porquinhos, depois de terem a casa derrubada pelo lobo, foram \u00e0 pol\u00edcia fazer queixa. O delegado lhes deu raz\u00e3o. Mandou que o lobo os indenizasse com dinheiro ou a reconstru\u00e7\u00e3o das casas.<\/p>\n<p>O lobo n\u00e3o tinha um real no banco. Precisou, ent\u00e3o, p\u00f4r as casas de p\u00e9. A primeira, de palha, foi moleza. A segunda exigia muito mais \u2014 carregar madeira, portas, janelas, telhas. Ele n\u00e3o deu conta. Pediu clem\u00eancia.<\/p>\n<p>Os porquinhos o ajudaram. Num instante a casa ficou pronta. Eles convidaram o lobo pra andar de bicicleta, de patins, de skate; pra brincar de pique-esconde; pra jogar bola. Todas as tardes era uma festa diferente.<\/p>\n<p>A not\u00edcia se espalhou. Os moradores da floresta decidiram comemorar o feito com uma partida de futebol. Convidaram toda a bicharada. O primeiro animal a se apresentar foi Dona On\u00e7a \u2014 forte, malhada, pisando firme.<\/p>\n<p>Ao v\u00ea-la, o t\u00e9cnico n\u00e3o pensou duas vezes. Ela seria a capit\u00e3 do time. O cachorro, ao ouvir o an\u00fancio, protestou: \u201cDona On\u00e7a pode jogar, mas n\u00e3o pode ser capit\u00e3. Ela \u00e9 mulher\u201d.<\/p>\n<p>Pode, n\u00e3o pode. Pode, n\u00e3o pode. A quest\u00e3o chegou ao rei Le\u00e3o. Ele, o senhor da floresta, bateu o martelo: \u201cDona On\u00e7a \u00e9 competente, preparada e faz gols. Ser\u00e1 a capit\u00e3\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Trago a hist\u00f3ria da Dona On\u00e7a pra nossa realidade. Mais especificamente pra imprensa:<\/p>\n<p>At\u00e9 o fim do s\u00e9culo 19, mulher n\u00e3o podia jogar na imprensa. Jornalista era profiss\u00e3o masculina. Mesmo os assuntos considerados femininos (maternidade, casa, fam\u00edlia, moda, relacionamentos, dicas de beleza) eram escritos por homem. Se alguma mulher ousasse escrever, tinha duas sa\u00eddas: ou usar pseud\u00f4nimo masculino, ou dar o texto para um homem assinar.<\/p>\n<p>L\u00e1 ou c\u00e1 ouviam-se vozes defendendo o direito de a mulher escrever e ocupar cargo na imprensa. Mas n\u00e3o faziam eco. Mulher s\u00f3 tinha vez em jornais alternativos criados por elas. Em 1852, nasceu no RJ o <em>Jornal das Senhoras<\/em> (JS), criado pela argentina Joana Paula Manso Noronha. O peri\u00f3dico criticava o mercado editorial, que n\u00e3o abria espa\u00e7o para as mulheres. Nele, s\u00f3 mulheres assinavam, mas mantinham a tem\u00e1tica.<\/p>\n<p>Publica\u00e7\u00f5es alternativas foram surgindo. No in\u00edcio do s\u00e9culo 20, os temas mudaram. Tr\u00eas sobressa\u00edam: direito ao voto, direito \u00e0 educa\u00e7\u00e3o, direito \u00e0 profiss\u00e3o.\u00a0 Depois, nas revistas femininas, mulheres jornalistas ganharam visibilidade. Escreviam e assinavam. Mas os assuntos eram os femininos. Nos grandes ve\u00edculos, poucas escreviam sobre pol\u00edtica, economia, ci\u00eancia, mercado de trabalho.<\/p>\n<p>Hoje, o cen\u00e1rio nacional mudou. As mulheres:<\/p>\n<p>Votam desde 1934.<\/p>\n<p>Representam quase 52% da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>S\u00e3o 57% dos matriculados nas universidades.<\/p>\n<p>No mercado editorial, ocupam 37% das vagas. A distribui\u00e7\u00e3o fica assim:<\/p>\n<p>TV \u2014 50,21%<\/p>\n<p>R\u00e1dio \u2014 20,5%<\/p>\n<p>Impresso \u2014 38% (revistas 48,46%)<\/p>\n<p>On-line \u2014 43%<\/p>\n<p>No <em>Correio Braziliense:<\/em><\/p>\n<ol>\n<li>A maioria da reda\u00e7\u00e3o \u00e9 composta por mulheres.<\/li>\n<li>A diretora de reda\u00e7\u00e3o \u00e9 mulher.<\/li>\n<li>Cinco editorias s\u00e3o comandadas por mulheres.<\/li>\n<li>As duas principais colunas de pol\u00edtica s\u00e3o assinadas por mulheres.<\/li>\n<li>As editorialistas s\u00e3o mulheres.<\/li>\n<li>Pautas de interesse das mulheres est\u00e3o sempre presentes nas p\u00e1ginas do jornal.<\/li>\n<li>Artigos assinados por mulher ou homem t\u00eam o mesmo tratamento na Editoria de Opini\u00e3o.<\/li>\n<li>O <em>Correio Debate<\/em> abre espa\u00e7o s\u00f3 para as mulheres.<\/li>\n<\/ol>\n<p>Como leitora de outros jornais, n\u00e3o vejo discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. H\u00e1 diretoras de reda\u00e7\u00e3o, respeitadas colunistas, aplaudidas articulistas. N\u00e3o h\u00e1 assunto tabu. Elas escrevem sobre economia, pol\u00edtica, ci\u00eancias, gastronomia.<\/p>\n<p>O percentual de mulheres no jornalismo n\u00e3o corresponde ao da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Mas a despropor\u00e7\u00e3o n\u00e3o se observa s\u00f3 no jornalismo. \u00c9 marca da sociedade brasileira. Qui\u00e7\u00e1 mundial.<\/p>\n<p>Na pol\u00edtica, a representa\u00e7\u00e3o feminina est\u00e1 aqu\u00e9m do proporcional da popula\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p><strong>Cargos majorit\u00e1rios<\/strong><\/p>\n<p>Governadora: 1entre 27<\/p>\n<p>Prefeitas: 662 dos 4.908<\/p>\n<p>Senadoras: 12 dos 81<\/p>\n<p><strong>Cargos proporcionais<\/strong><\/p>\n<p>Deputadas federais: 77 dos 513<\/p>\n<p>Deputadas estaduais: 163 dos 1.060<\/p>\n<p>Vereadoras: 8.441 dos 57.814<\/p>\n<p>A desigualdade n\u00e3o est\u00e1 s\u00f3 no jornalismo ou na pol\u00edtica. Segundo pesquisa do Estad\u00e3o, nenhuma das 62 empresas do Ibovespa \u00e9 presidida por mulher. Das 200 maiores, tr\u00eas t\u00eam mulheres no comando. Mas n\u00e3o est\u00e3o entre as 62 do Ibovespa.<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 met\u00e1fora da Dona On\u00e7a: no Brasil mulher pode ser capit\u00e3. N\u00e3o rainha da floresta. Mesmo no Congresso, o espa\u00e7o mais democr\u00e1tico do pa\u00eds, a Dona On\u00e7a ocupa presid\u00eancia de comiss\u00e3o, mas n\u00e3o a presid\u00eancia da casa<em>. <\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em>A gente pode perguntar por qu\u00ea.<\/p>\n<p>Deve haver muitas respostas. Uma delas \u00e9 que come\u00e7amos tarde, numa sociedade machista. Na hist\u00f3ria houve acidentes de um ou outro desvio. Mas a continuidade e a naturalidade da presen\u00e7a feminina veio na segunda metade do s\u00e9culo 20 com o movimento feminista. Foi a\u00ed que a imprensa se abriu pra mulher e a pol\u00edtica tamb\u00e9m:<\/p>\n<p>Nossa primeira senadora foi Eunice Michiles, em 1979.<\/p>\n<p>Nossa primeira ministra, Esther de Figueiredo Ferraz, em 1982.<\/p>\n<p>Nossa primeira embaixadora, Teresa Quintella, 1987.<\/p>\n<p>Nossa primeira governadora, Roseana Sarney, em 1994.<\/p>\n<p>Nossa primeira presidente, Dilma Rousseff, em 2011.<\/p>\n<p>Come\u00e7amos tarde. E andamos muito. Mas queremos mais. Queremos que a presen\u00e7a da mulher no andar de cima seja t\u00e3o natural que deixe de ser not\u00edcia e dispense foruns como este.<\/p>\n<p>Como chegar l\u00e1? Com certeza este encontro vai nos dar pistas. N\u00e3o vamos sair daqui com a cabe\u00e7a coroada. Mas o le\u00e3o que se cuide. A imprensa, que n\u00e3o cria fatos mas os divulga, vai lhes abrir manchete. Estamos na torcida.<\/p>\n<p>((Dad Squarisi na abertura do F\u00f3rum Mulher na imprensa)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Conta a lenda que os tr\u00eas porquinhos, depois de terem a casa derrubada pelo lobo, foram \u00e0 pol\u00edcia fazer queixa. O delegado lhes deu raz\u00e3o. Mandou que o lobo os indenizasse com dinheiro ou a reconstru\u00e7\u00e3o das casas. O lobo n\u00e3o tinha um real no banco. Precisou, ent\u00e3o, p\u00f4r as casas de p\u00e9. A primeira, de palha, foi moleza. 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