{"id":21315,"date":"2019-12-01T08:09:13","date_gmt":"2019-12-01T11:09:13","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=21315"},"modified":"2019-12-01T08:09:13","modified_gmt":"2019-12-01T11:09:13","slug":"escrever-ou-ler-eis-a-questao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/escrever-ou-ler-eis-a-questao\/","title":{"rendered":"Escrever ou ler, eis a quest\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"adn ads\">\n<div class=\"gs\">\n<div class=\"\">\n<div id=\":1nv\" class=\"ii gt\">\n<div id=\":1nu\" class=\"a3s aXjCH \">\n<div dir=\"ltr\">\u00c0 primeira vista, a constata\u00e7\u00e3o \u00e9 muito positiva: nunca houve tanta gente escrevendo. As editoras recebem um fluxo cada vez maior de originais, todos querem ver sua obra nas livrarias. Empresas de autopublica\u00e7\u00e3o (os autores pagam pela edi\u00e7\u00e3o) v\u00e3o de vento em popa. Por seu lado (e esta \u00e9 a parte ruim da hist\u00f3ria), verifica-se que se l\u00ea cada vez menos livros. De onde o paradoxo. As pessoas acham que t\u00eam coisas a dizer, que sabem o suficiente para si e para os outros. No limite, se todos agirem assim, n\u00e3o teremos mais leitores, s\u00f3 autores. Da\u00ed, publicar para quem?<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Al\u00e9m disso, e \u00e9 f\u00e1cil comprovar, as pessoas entopem as redes sociais com observa\u00e7\u00f5es, contesta\u00e7\u00f5es, frases de efeito, al\u00e9m de fotos, v\u00eddeos e montagens de todo tipo. H\u00e1 quem diga que, enquanto os livros divulgam o patrim\u00f4nio cultural da humanidade, as redes sociais t\u00eam por fun\u00e7\u00e3o primordial expor a ignor\u00e2ncia humana. Claro que essa afirma\u00e7\u00e3o carrega um pouco de maldade. Redes sociais podem prestar servi\u00e7os relevantes. Comunica\u00e7\u00e3o imediata e ampla pode aproximar homens e mulheres de diferentes lugares do planeta.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">E n\u00f3s sabemos que a abrang\u00eancia da comunica\u00e7\u00e3o entre os seres humanos tem sido um dos fatores not\u00e1veis do desenvolvimento do homo sapiens, uma vantagem enorme com rela\u00e7\u00e3o a outros animais. Mas, por outro lado, \u00e9 ineg\u00e1vel que algumas regras b\u00e1sicas de conviv\u00eancia humana n\u00e3o t\u00eam sido obedecidas na rela\u00e7\u00e3o com esses ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o. A principal \u00e9 que as pessoas usam as redes para serem ouvidas e lidas, n\u00e3o para dialogar, para ouvir e ler o que os outros t\u00eam a dizer.\u00a0 Ficamos ofendidos quando postamos algo que n\u00e3o \u00e9 lido por ningu\u00e9m. Mesmo quando somos lidos, queremos mais do que um \u201cgostei\u201d. Queremos um coment\u00e1rio. Coment\u00e1rio sincero, desde que seja positivo\u2026<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Mas ser\u00e1 que fazemos o mesmo com a postagem alheia? Claro que n\u00e3o. Temos a modesta convic\u00e7\u00e3o de que nosso coment\u00e1rio \u00e9 mais importante, nossa piada mais gozada, nossa frase mais original.\u00a0 As pessoas escrevem porque acham que t\u00eam o que dizer. As pessoas n\u00e3o leem, pois n\u00e3o acreditam que precisam aprender. Quando redigem seus tru\u00edsmos transvestidos de verdades, ensaiam estranha sensa\u00e7\u00e3o de onipot\u00eancia. Como o mundo podia ter sobrevivido sem aquelas p\u00e9rolas brilhantes? Como o planeta ousou girar sem que seus habitantes conhecessem aquelas gotas\u00a0 de sabedoria generosamente colocadas no\u00a0 Facebook, no Twitter ou (para esgotar a minha paci\u00eancia) no Whatsapp da fam\u00edlia?<\/p>\n<p dir=\"ltr\">\u2018\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cComo voc\u00ea est\u00e1 me criticando\u201d, disse a prima de um amigo meu para ele, \u201ceu n\u00e3o tenho o direito democr\u00e1tico de escrever o que acho das ideias econ\u00f4micas do ministro ou das declara\u00e7\u00f5es do representante dos EUA na ONU\u201d? \u201cTem, Rosinha\u201d,\u00a0 respondeu meu amigo, \u201cvoc\u00ea pode escrever o que quiser, mas eu tamb\u00e9m tenho o direito democr\u00e1tico de mostrar que voc\u00ea fala do que n\u00e3o entende, seus posts acabam expondo sua ignor\u00e2ncia\u201d. Pronto. As redes sociais, pelo pr\u00f3prio nome destinadas a aproximar as pessoas, acabam criando rupturas incorrig\u00edveis no seio das fam\u00edlias, em grupos de amigos, conterr\u00e2neos, colegas de classe.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Conhe\u00e7o um grupo de ex-estudantes de uma escola cat\u00f3lica que se encontraram ap\u00f3s 30 anos e abriram um grupo fechado no Whatsapp. A euforia do reencontro n\u00e3o resistiu aos embates pr\u00e9-eleitorais do ano passado. Quem era a favor de um candidato a Presid\u00eancia da Rep\u00fablica n\u00e3o podia aceitar que outros preferissem o advers\u00e1rio, que era, sabidamente, isto e aquilo. E vice-versa. Moral da hist\u00f3ria: o grupo se desfez para que as pessoas n\u00e3o chegassem \u00e0s vias de fato.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">A exposi\u00e7\u00e3o a que cada um de n\u00f3s fica sujeito quando escreve e publica uma opini\u00e3o deixa claro, muitas vezes, que o nosso pensamento \u00e9 b\u00e1sico, elementar, n\u00e3o sofisticado como imagin\u00e1vamos, e isso \u00e9 intoler\u00e1vel para o nosso ego. Ao escrever, nosso manique\u00edsmo, nosso pensamento esquem\u00e1tico, \u00e9 revelado de forma crua. N\u00e3o aceitamos que n\u00e3o somos o que imagin\u00e1vamos ser, que nosso argumento tinha a profundidade de um grito de torcedor na arquibancada, nada a ver com a nossa autoimagem. Com dificuldade de aceitar o \u00f3bvio, culpamos o outro. Como em qualquer discuss\u00e3o em que nos faltam argumentos, embora nos sobre convic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p dir=\"ltr\">Como resolver esse dilema entre o que somos e o que gostar\u00edamos de ser, entre como somos vistos e como gostar\u00edamos de ser vistos? Com mod\u00e9stia intelectual. Assumindo que o mundo j\u00e1 existia antes de n\u00f3s. Que o patrim\u00f4nio cultural da humanidade \u00e9 uma constru\u00e7\u00e3o coletiva. Lendo. Um pouco de tudo, mas principalmente bons livros. Mais tarde, quem sabe, escrevendo um&#8230;<\/p>\n<div class=\"yj6qo\">(Artigo de Jaime Pinsky, historiador e diretor da Editora Contexto, publicado hoje no <em>Correio Braziliense<\/em>)<\/div>\n<div class=\"adL\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"adL\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"hi\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"ajx\"><\/div>\n<\/div>\n<div class=\"gA gt acV\">\n<div class=\"gB xu\">\n<div class=\"ip iq\">\n<div id=\":1nw\">\n<table class=\"cf wS\" role=\"presentation\">\n<tbody>\n<tr>\n<td class=\"amq\"><img decoding=\"async\" id=\":1q_1\" class=\"ajn bofPge\" src=\"https:\/\/ssl.gstatic.com\/ui\/v1\/icons\/mail\/no_photo.png\" \/><\/td>\n<td class=\"amr\">\n<div class=\"nr wR\">\n<div class=\"amn\"><\/div>\n<\/div>\n<\/td>\n<\/tr>\n<\/tbody>\n<\/table>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; \u00c0 primeira vista, a constata\u00e7\u00e3o \u00e9 muito positiva: nunca houve tanta gente escrevendo. 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