{"id":21455,"date":"2019-12-29T08:12:34","date_gmt":"2019-12-29T11:12:34","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=21455"},"modified":"2019-12-29T08:13:03","modified_gmt":"2019-12-29T11:13:03","slug":"falar-e-dizer","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/falar-e-dizer\/","title":{"rendered":"Diplomacia: falar e dizer"},"content":{"rendered":"<p>Falar sem dizer \u00e9 habilidade ensinada ao candidato a diplomata nos bancos do Instituto Rio Branco. No treino para adquirir a t\u00e9cnica, vale lembrar duas express\u00f5es. Uma: \u201c\u00e9 interessante\u201d. Curinga, ela cabe em qualquer situa\u00e7\u00e3o e evita enrascadas. A outra: \u201c\u00e9 complicado\u201d. Se posto contra a parede, o profissional faz um teatrinho: franze a testa, exibe um olhar pensativo, mexe os bra\u00e7os como quem procura a resposta no ar e solta as duas palavras m\u00e1gicas. Safa-se. Fala sem dizer \u2014 n\u00e3o compromete nem se compromete.<\/p>\n<p>O ministro Ernesto Ara\u00fajo e equipe parece terem faltado \u00e0s aulas da Casa de Rio Branco. L\u00e1 se aprende li\u00e7\u00e3o valiosa nas rela\u00e7\u00f5es que envolvem o concerto de interesses nacionais: as palavras que dizem t\u00eam peso. Antes de serem proferidas, s\u00e3o analisadas em todos os \u00e2ngulos poss\u00edveis. Especialistas s\u00e3o ouvidos. Formas de diz\u00ea-las s\u00e3o ensaiadas. S\u00f3 ent\u00e3o, viradas pelo avesso, lavadas e enxugadas, recebem o aval para vir a p\u00fablico. O receptor as encara com respeito, ciente de que v\u00eam embaladas com profissionalismo.<\/p>\n<p>Sem observar os cuidados protocolares, a condu\u00e7\u00e3o da pol\u00edtica externa verde-amarela perdeu-se no err\u00e1tico vai e vem \u2014 diz e desdiz. A China, principal parceiro comercial do pa\u00eds, foi acusada de querer comprar o Brasil. Mais tarde, o pragmatismo se imp\u00f4s. O gigante asi\u00e1tico firmou alian\u00e7as comerciais com o pa\u00eds e sobressai em leil\u00f5es de infraestrutura.<\/p>\n<p>O alinhamento quase autom\u00e1tico ao presidente Donald Trump ignorou preceito cl\u00e1ssico de John Foster Dulles: \u201cAs na\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam amigos. T\u00eam interesses\u201d. Trump, ao contr\u00e1rio, segue o ensinamento. Apoiou o Brasil na pretens\u00e3o de ingressar na Organiza\u00e7\u00e3o para Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f4mico (OCDE), mas obedeceu \u00e0 fila ao dar prefer\u00eancia \u00e0 Argentina, que chegou primeiro. Mais: apesar dos pedidos, manteve o embargo \u00e0 carne brasileira.<\/p>\n<p>Na Am\u00e9rica Latina, atritos com Venezuela, Argentina e Uruguai comprometeram a natural lideran\u00e7a do pa\u00eds no subcontinente, onde a diplomacia brasileira transitava com desenvoltura e compet\u00eancia para dirimir conflitos. Com o mundo \u00e1rabe tamb\u00e9m houve estremecimentos ao ser anunciada a transfer\u00eancia da Embaixada do Brasil de Telavive para Jerusal\u00e9m. A competente interven\u00e7\u00e3o da ministra da Agricultura contornou a crise.<\/p>\n<p>Mas nem tudo foi amadorismo. Em 2019, o pa\u00eds comemorou um sucesso incontest\u00e1vel. Depois de duas d\u00e9cadas de negocia\u00e7\u00f5es, o acordo Mercosul-Uni\u00e3o Europeia chegou a final feliz. \u00c9 hora de arrega\u00e7ar as mangas para a ratifica\u00e7\u00e3o do documento, exigida de todos os pa\u00edses envolvidos. Em 2020, a diplomacia brasileira est\u00e1 convocada a rever as li\u00e7\u00f5es caras ao Itamaraty e reconquistar a relev\u00e2ncia que a tornou negociador respeit\u00e1vel no delicado concerto das na\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>(Editorial do Correio Braziliense de 29.12.19)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Falar sem dizer \u00e9 habilidade ensinada ao candidato a diplomata nos bancos do Instituto Rio Branco. No treino para adquirir a t\u00e9cnica, vale lembrar duas express\u00f5es. Uma: \u201c\u00e9 interessante\u201d. Curinga, ela cabe em qualquer situa\u00e7\u00e3o e evita enrascadas. A outra: \u201c\u00e9 complicado\u201d. 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