{"id":21538,"date":"2020-01-06T22:50:41","date_gmt":"2020-01-07T01:50:41","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=21538"},"modified":"2020-01-06T22:50:41","modified_gmt":"2020-01-07T01:50:41","slug":"vamos-levar-a-educacao-a-serio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/vamos-levar-a-educacao-a-serio\/","title":{"rendered":"Vamos levar a educa\u00e7\u00e3o a s\u00e9rio"},"content":{"rendered":"<div id=\":17q\" class=\"a3s aXjCH \">\n<div dir=\"ltr\">\n<div class=\"adM\">JAIME PINSKY<\/div>\n<div>\n<p><span style=\"font-size: large\">Creio que concordamos todos que a educa\u00e7\u00e3o formal \u00e9 muito importante no mundo de hoje, particularmente nas \u00e1reas de ci\u00eancia, tecnologia e humanidades. Sem as primeiras, n\u00e3o temos como nos colocar entre as na\u00e7\u00f5es mais importantes do planeta; sem a \u00e1rea de humanas, n\u00e3o temos como escolher para onde queremos ir, como sociedade. Sim, a Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 fundamental, mas o fato \u00e9 que ela n\u00e3o anda muito bem por aqui. Sabemos que o pa\u00eds precisa melhorar nessa \u00e1rea, que uma na\u00e7\u00e3o formada por analfabetos (reais ou funcionais) nunca conseguir\u00e1 ganhos duradouros. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large\">H\u00e1 v\u00e1rios anos fala-se disso e o Brasil continua com uma educa\u00e7\u00e3o formal de muito m\u00e1 qualidade em todos os n\u00edveis, da primeira fase do fundamental (o antigo curso prim\u00e1rio) at\u00e9 o ensino superior. Pior: em alguns setores, houve n\u00edtida perda de qualidade que vem ocorrendo com a chamada democratiza\u00e7\u00e3o do ensino. A equa\u00e7\u00e3o \u00e9 clara. Para a antiga classe m\u00e9dia, o ensino p\u00fablico tinha qualidade, mas n\u00e3o abrang\u00eancia e, ao atingir uma faixa mais ampla da popula\u00e7\u00e3o, ganhando em abrang\u00eancia, perde em qualidade. Se pouco tempo atr\u00e1s uma afirma\u00e7\u00e3o desse tipo encontrava contestadores, atualmente n\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m razoavelmente s\u00e9rio, dentro ou fora do governo, que discorde da evid\u00eancia: qualidade e quantidade n\u00e3o est\u00e3o caminhando juntas na educa\u00e7\u00e3o brasileira. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large\">Para solucionar a quest\u00e3o, a\u00ed sim, parece haver duas linhas de pensamento bastante discordantes. De um lado os \u201ceconomistas da educa\u00e7\u00e3o\u201d, de outro os \u201ccorporativos\u201d. Para os primeiros a quest\u00e3o toda seria rapidamente resolvida com um choque de gest\u00e3o. O ponto de partida deles (\u00e9 dogma de f\u00e9, n\u00e3o constata\u00e7\u00e3o empiricamente comprovada) \u00e9 que sempre d\u00e1 para economizar, como em qualquer empresa bem dirigida. Assim, colocando-se (\u00e9 claro) economistas ou administradores de empresa tocando minist\u00e9rios e secretarias de Educa\u00e7\u00e3o, aproveitando-se melhor o dinheiro, a educa\u00e7\u00e3o melhoraria muito sem que houvesse necessidade de aumentar o or\u00e7amento da \u00e1rea. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large\">No outro extremo, aparecem os corporativos, para os quais a solu\u00e7\u00e3o seria aumentar os sal\u00e1rios. Para eles, professores precisam de motiva\u00e7\u00e3o, e motiva\u00e7\u00e3o \u00e9 dinheiro, sal\u00e1rio no fim do m\u00eas e n\u00e3o bl\u00e1-bl\u00e1-bl\u00e1. J\u00e1 ouvi at\u00e9 argumento segundo o qual a rela\u00e7\u00e3o do mestre com o empregador (empresas de educa\u00e7\u00e3o, funda\u00e7\u00f5es, ou mesmo alguma inst\u00e2ncia governamental) \u00e9 baseada na extra\u00e7\u00e3o da mais valia, o professor \u00e9 um trabalhador como qualquer outro. E d\u00e1-lhe luta de classes&#8230;<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large\">Nem \u00e9 necess\u00e1rio dizer que as duas vis\u00f5es, a de economistas e coorporativos, embora tenham suas virtudes, pecam por um simplismo franciscano, num assunto que \u00e9 de uma complexidade dominicana. Se acrescentarmos a essa discuss\u00e3o rasa e inconsequente os interesses pol\u00edticos envolvidos na educa\u00e7\u00e3o, constataremos que n\u00e3o vale a pena manter uma rigidez de supostos princ\u00edpios que n\u00e3o levam a nada de bom, a n\u00e3o ser para os pr\u00f3prios grupos pol\u00edticos. Um ex-ministro me garantia que \u201ca Educa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma excelente forma de chegar \u00e0s bases uma vez que, por meio dos prefeitos de milhares de cidades, o grupo pol\u00edtico no poder ganha enorme capilaridade, poder de barganha e chances eleitorais\u201d. Convenhamos, isso nada tem a ver com melhorar a educa\u00e7\u00e3o. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large\">Da mesma forma n\u00e3o \u00e9 interessante para a Educa\u00e7\u00e3o uma pol\u00edtica rid\u00edcula de fiscalizar e denunciar professores (como n\u00e3o fazia sentido a tentativa de transformar educadores em vetores de mensagens pol\u00edtico-partid\u00e1rias). Em poucas palavras: classes e escolas n\u00e3o podem ser transformadas em palanques de ideologias pol\u00edticas, quaisquer que elas sejam. Isso \u00e9 coisa de regimes totalit\u00e1rios (como o nazista na Alemanha, comunista na Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica), n\u00e3o de democracias, necessariamente pluralistas.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large\">Ent\u00e3o, n\u00e3o tem solu\u00e7\u00e3o? Tem, sim. Basta fazer as coisas com seriedade e organiza\u00e7\u00e3o. Que se fa\u00e7a uma lista de pontos a serem trabalhados nos pr\u00f3ximos tr\u00eas anos; que haja discuss\u00e3o aberta (mas objetiva, com calend\u00e1rio r\u00edgido) com todos os setores interessados da sociedade e que se programem medidas que se t\u00eam mostrado vencedoras em v\u00e1rios pa\u00edses em que forma colocadas em pr\u00e1tica, sejam elas da b\u00edblia dos economistas ou do cor\u00e3o dos corporativos. O Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o ser\u00e1 respons\u00e1vel por levar esse processo para a frente (discuss\u00e3o e implementa\u00e7\u00e3o), com o apoio de secret\u00e1rios estaduais e municipais, assim como dos Legislativos.<br \/>\n<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large\">Papel importante teria que ser desempenhado pelas universidades (as de verdade), assim como pelas entidades representativas de profissionais ligados \u00e0s disciplinas b\u00e1sicas do ensino fundamental (associa\u00e7\u00f5es de matem\u00e1ticos, linguistas, historiadores e ge\u00f3grafos, por exemplo). Entidades ligadas aos editores, gr\u00e1ficos e papeleiros poderiam colaborar (mesmo porque seriam beneficiados com a coloca\u00e7\u00e3o de milh\u00f5es de novos leitores no mercado) e sindicatos de professores deveriam faz\u00ea-lo. Mas o pressuposto para entrar na discuss\u00e3o \u00e9 aceitar, democraticamente, o resultado da uni\u00e3o de contr\u00e1rios. Vamos, pelo menos, tentar?<\/span><\/p>\n<p>(artigo publicado no Correio Braziliense de domingo 5 de janeiro)<\/p>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>JAIME PINSKY Creio que concordamos todos que a educa\u00e7\u00e3o formal \u00e9 muito importante no mundo de hoje, particularmente nas \u00e1reas de ci\u00eancia, tecnologia e humanidades. Sem as primeiras, n\u00e3o temos como nos colocar entre as na\u00e7\u00f5es mais importantes do planeta; sem a \u00e1rea de humanas, n\u00e3o temos como escolher para onde queremos ir, como sociedade. 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