{"id":21620,"date":"2020-01-20T16:46:06","date_gmt":"2020-01-20T19:46:06","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/?p=21620"},"modified":"2020-01-20T16:46:06","modified_gmt":"2020-01-20T19:46:06","slug":"trombada-na-lingua-posto-que","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/trombada-na-lingua-posto-que\/","title":{"rendered":"Trombada na l\u00edngua: posto que"},"content":{"rendered":"<p>O susto foi t\u00e3o grande que ningu\u00e9m reparou na trombada lingu\u00edstica de Roberto Alvim. O ent\u00e3o secret\u00e1rio da Cultura, na quase c\u00f3pia da frase do nazista Joseph Goebbels, disse: &#8220;A arte ser\u00e1 igualmente imperativa posto que profundamente vinculada \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es urgentes do nosso povo. Ou ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 nada&#8221;.<\/p>\n<p>As gram\u00e1ticas classificam o <strong>posto que<\/strong> como locu\u00e7\u00e3o conjuntiva concessiva. A duplinha joga no time de <em>embora, mesmo que, apesar de<\/em>. Mas a ideia da frase \u00e9 causal: \u201cA arte ser\u00e1 igualmente imperativa <strong>porque<\/strong> profundamente vinculada \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es urgentes do nosso povo. Ou ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 nada&#8221;.<\/p>\n<p><strong>Vinicius<\/strong><\/p>\n<p>Alvim deve ter-se lembrado do verso de Vinicius de Moraes que aparece no &#8220;Soneto da fidelidade&#8221;:<\/p>\n<p>De tudo ao meu amor serei atento<br \/>\nAntes, e com tal zelo, e sempre, e tanto<br \/>\nQue mesmo em face do maior encanto<br \/>\nDele se encante mais meu pensamento.<\/p>\n<p>Quero viv\u00ea-lo em cada v\u00e3o momento<br \/>\nE em seu louvor hei de espalhar meu canto<br \/>\nE rir meu riso e derramar meu pranto<br \/>\nAo seu pesar ou seu contentamento<\/p>\n<p>E assim, quando mais tarde me procure<br \/>\nQuem sabe a morte, ang\u00fastia de quem vive<br \/>\nQuem sabe a solid\u00e3o, fim de quem ama<\/p>\n<p>Eu possa me dizer do amor (que tive):<br \/>\nQue n\u00e3o seja imortal, <strong>posto que<\/strong> \u00e9 chama<br \/>\nMas que seja infinito enquanto dure.<\/p>\n<p>Vinicius quis dizer &#8220;que n\u00e3o seja imortal <strong>porque<\/strong> \u00e9 chama&#8221;, mas usou uma conjun\u00e7\u00e3o concessiva (posto que = embora, mesmo que). O poetinha errou? N\u00e3o. Artista tem licen\u00e7a po\u00e9tica. Pode pisar a l\u00edngua sem susto. Ele empregou o <em>posto que<\/em> como popularmente se emprega, mas n\u00e3o como manda a norma culta.<\/p>\n<p>O secret\u00e1rio da Cultura tem licen\u00e7a po\u00e9tica? N\u00e3o. Roberto Alvim pisou a l\u00edngua. Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii!<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O susto foi t\u00e3o grande que ningu\u00e9m reparou na trombada lingu\u00edstica de Roberto Alvim. O ent\u00e3o secret\u00e1rio da Cultura, na quase c\u00f3pia da frase do nazista Joseph Goebbels, disse: &#8220;A arte ser\u00e1 igualmente imperativa posto que profundamente vinculada \u00e0s aspira\u00e7\u00f5es urgentes do nosso povo. Ou ent\u00e3o n\u00e3o ser\u00e1 nada&#8221;. As gram\u00e1ticas classificam o posto que como locu\u00e7\u00e3o conjuntiva concessiva. 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