{"id":2170,"date":"2008-07-29T16:00:00","date_gmt":"2008-07-29T19:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/que_venha_a_desmoralizacao\/"},"modified":"2008-07-29T16:00:00","modified_gmt":"2008-07-29T19:00:00","slug":"que_venha_a_desmoralizacao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/blogs2.correiobraziliense.com.br\/dad\/que_venha_a_desmoralizacao\/","title":{"rendered":"Que venha a desmoraliza\u00e7\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>&nbsp;<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nPor que o comunismo n\u00e3o fincou ra\u00edzes no Brasil? Dizem as m\u00e1s l\u00ednguas que o medo o afugentou. Ele temia a desmoraliza\u00e7\u00e3o. Em pouco tempo, viraria piada. Exemplos n\u00e3o faltam. Um deles: a coloca\u00e7\u00e3o de pronomes \u00e1tonos. Pra n\u00e3o correr risco, nada mais s\u00e1bio que se manter fora.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nN\u00e3o faltam reclama\u00e7\u00f5es contra os indefesos o, a, te, se, lhe, nos. A pancadaria maior recai nas mil regras de coloca\u00e7\u00e3o. Como memoriz\u00e1-las? Existem as que tratam dos tempos simples. As que se dedicam aos compostos. E as que cuidam das locu\u00e7\u00f5es verbais. Debru\u00e7ar-se sobre elas? S\u00f3 quem n\u00e3o tem mais o que fazer.<br \/>\n&nbsp;<B><br \/>\nX\u00f4, portuga<\/B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nMais: as normas t\u00eam tudo a ver com a pron\u00fancia de Portugal. Na terra de Cam\u00f5es e Jos\u00e9 Saramago, o pronome \u00e1tono faz jus ao nome. \u00c9 \u00e1tono mesmo. Os portugas praticamente apagam a vogal. <I>Me <\/I>vira m\u2019. Lhe, lh\u2019. Convenhamos: com o reinado da consoante, fica dif\u00edcil iniciar a frase com o pronome \u00e1tono. Vale a lei do menor esfor\u00e7o. Dizer &#8220;d\u00e1-m\u2019um cigarro&#8221; \u00e9 moleza diante do &#8220;m\u2019d\u00e1 um cigarro&#8221;. <B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nVem, tupiniquim<\/B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nNa l\u00edngua desta Pindorama tropical, a hist\u00f3ria muda de enredo. O \u00e1tono \u00e9 quase t\u00f4nico. A vogal do<I> me, lhe, nos<\/I> se ouve um tanto reduzida, mas at\u00e9 os surdos a escutam. Por isso as regras de l\u00e1 n\u00e3o combinam com o falar de c\u00e1. Soam artificiais. Hoje os bons gram\u00e1ticos concordam que a coloca\u00e7\u00e3o dos pronomes no Brasil tomou os pr\u00f3prios rumos. N\u00e3o \u00e9 sem tempo. Jos\u00e9 de Alencar chamou a aten\u00e7\u00e3o para o fato. Oswald de Andrade, na primeira metade do s\u00e9culo passado, escreveu o poema &#8220;Pronominais&#8221;. Nele, p\u00f5e o dedo na ferida:<br \/>\n<I><\/I>&nbsp;<br \/>\n<I>D\u00ea-me um cigarro<br \/>\nDiz a gram\u00e1tica<br \/>\nDo professor e do aluno<br \/>\nE do mulato sabido<br \/>\nMas o bom negro e o bom branco<br \/>\nDa na\u00e7\u00e3o brasileira<br \/>\nDizem todos os dias<br \/>\nDeixa disso camarada<br \/>\nMe d\u00e1 um cigarro.<\/I><B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nJeitinho brasileiro<\/B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nH\u00e1 jeito de simplificar sem pisar a gram\u00e1tica? Em outras palavras: acertar com seguran\u00e7a, sem entupir a mem\u00f3ria de pode-n\u00e3o-pode? H\u00e1. A alternativa \u00e9 radical. Reduz as dezenas de normas a duas. Uma: n\u00e3o inicie frase com pronome \u00e1tono. A outra: ponha o pronome sempre antes do verbo.<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nEis exemplos: <I>Dize-me com quem andas que <B>te<\/B> direi quem \u00e9s. O visitante <B>se<\/B> tinha retirado antes da sobremesa. A morte n\u00e3o <B>me<\/B> poderia assustar depois de tudo o que passei. Continuamos a <B>nos <\/B>exercitar em l\u00ednguas estrangeiras.<\/I><B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nAbra um olho<\/B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nIniciar a frase com pronome \u00e1tono tem dois significados. Um \u00e9 claro: quer dizer come\u00e7ar o per\u00edodo: <I>Ofereceu-me aumento de sal\u00e1rio. Foi-se embora sem se despedir.<\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nO outro \u00e9 malandro. N\u00e3o parece, mas \u00e9. Quando ocorre pausa que desampara o pronome, ele vai pra tr\u00e1s. Que pausa? V\u00edrgula ou ponto-e-v\u00edrgula. Compare:<I><br \/>\nAqui <B>se<\/B> fala portugu\u00eas. Aqui, fala-<B>se<\/B> portugu\u00eas.<br \/>\nO PT chantageou o presidente? N\u00e3o; deu<B>-lhe<\/B> conselhos.<br \/>\nPara se retirar, pediu-<B>me<\/B> autoriza\u00e7\u00e3o. <\/I><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nAten\u00e7\u00e3o, muita ten\u00e7\u00e3o. N\u00e3o generalize. \u00c0s vezes, a v\u00edrgula separa termos intercalados. Mas, l\u00e1 atr\u00e1s, permanece a palavra em que o pronome se ampara: <I>Lula disse <B>que<\/B>, apesar dos pesares, se entender\u00e1 com a oposi\u00e7\u00e3o.<\/I><br \/>\n<B><\/B>&nbsp;<br \/>\n<B>Abra o outro olho<\/B><br \/>\n&nbsp;<br \/>\nA exce\u00e7\u00e3o confirma a regra. Ela se refere aos pronomes o e a. Quando antecedidos da preposi\u00e7\u00e3o a, a pron\u00fancia torce a l\u00edngua. N\u00e3o sai. A\u00ed, s\u00f3 h\u00e1 uma sa\u00edda. Mandar o pequenino pra tr\u00e1s do verbo. Compare:<br \/>\n&nbsp;<br \/>\nContinuo a <B>a <\/B>querer (cruz-credo!). Melhor: Continuo a quer\u00ea-<B>la<\/B>.<br \/>\n<A name=\"Save1\"><\/A><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp; &nbsp; Por que o comunismo n\u00e3o fincou ra\u00edzes no Brasil? Dizem as m\u00e1s l\u00ednguas que o medo o afugentou. Ele temia a desmoraliza\u00e7\u00e3o. Em pouco tempo, viraria piada. Exemplos n\u00e3o faltam. Um deles: a coloca\u00e7\u00e3o de pronomes \u00e1tonos. 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